Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
5.4 Atividade Óptica
Para mais exemplos de enantiômeros com diferentes respostas biológicas, consulte J.
Chem. Ed., 1996, (73), 481.
5.4 Atividade Óptica
Enantiômeros exibem propriedades físicas idênticas. Compare, por
exemplo, os pontos de fusão e de ebulição dos enantiômeros da carvona:
Isso faz sentido, pois as propriedades físicas são determinadas por
interações intermoleculares e as interações intermoleculares de um enantiômero são as imagens especulares das interações intermoleculares do
outro enantiômero. Não obstante, enantiômeros exibem comportamento
diferente quando expostos à luz plano-polarizada. Para explorar essa
diferença, vamos primeiro rever rapidamente a natureza da luz.
Luz Plano-Polarizada
A radiação eletromagnética (luz) é constituída de um campo elétrico e um
campo magnético oscilantes que se propagam pelo espaço (Figura 5.6).
Observe que cada campo oscilante está localizado em um plano, e que estes
planos são perpendiculares um ao outro. A orientação do campo elétrico
(mostrado em vermelho) é chamada de polarização da onda de luz. Quando
muitas ondas estão se deslocando na mesma direção, cada uma delas tem
uma polarização diferente, uma orientada aleatoriamente em relação à outra
(Figura 5.7). Quando a luz passa através de um filtro polarizador, apenas os
fótons com uma polarização em particular podem passar através do filtro,
dando origem à luz plano-polarizada (Figura 5.8). Quando a luz plano-
polarizada passa através de um segundo filtro polarizador, a orientação do
filtro determinará se a luz passa ou se ela é bloqueada (Figura 5.9).
FIGURA 5.6
Ondas de luz consistem em campos magnético e elétrico oscilantes orientados perpendicularmente.
FIGURA 5.7
Luz não polarizada.
FIGURA 5.8
Luz plano-polarizada.
FIGURA 5.9
Luz plano-polarizada passando através de (a) dois filtros polarizadores paralelos ou (b) dois filtros polarizadores perpendiculares.
Polarimetria
Em 1815, o cientista francês Jean Baptiste Biot estava estudando a natureza
da luz passando a luz plano-polarizada através de várias soluções de
substâncias orgânicas. Fazendo isso, ele descobriu que soluções de certas substâncias orgânicas (como açúcares) giravam o plano da luz plano-
polarizada. Essas substâncias foram, portanto, chamadas de opticamente
ativas. Ele também observou que apenas algumas substâncias orgânicas
possuíam essa característica. As substâncias que não possuíam essa
característica foram chamadas de opticamente inativas.
A rotação da luz plano-polarizada provocada pela presença de
compostos opticamente ativos pode ser medida experimentalmente
utilizando-se um dispositivo chamado de polarímetro (Figura 5.10). A
fonte de luz geralmente é uma lâmpada de sódio que emite luz em um
comprimento de onda fixo de 589 nm, chamado de linha D do sódio. Essa
luz passa então através de um filtro polarizador e a luz plano-polarizada
resultante prossegue através de um tubo contendo uma solução da
substância opticamente ativa, que provoca a rotação do plano. A
polarização da luz emergente pode ser determinada através da rotação de
um segundo filtro e da observação da orientação que permite que a luz
passe.
FIGURA 5.10
Os componentes de um polarímetro.
Origem da Atividade Óptica
Em 1847, uma explicação para a origem da atividade óptica foi proposta
pelo cientista francês Louis Pasteur. A pesquisa de Pasteur sobre sais do
ácido tartárico (discutida mais adiante neste capítulo) conduziu à conclusão
de que a atividade óptica é uma consequência direta da quiralidade. Isto é,
substâncias quirais são opticamente ativas, enquanto substâncias aquirais
não são. Além disso, Pasteur notou que enantiômeros (imagens especulares
não sobreponíveis) giram o plano da luz polarizada em magnitudes iguais,
mas em sentidos opostos. Exploraremos essa ideia em mais detalhe.
Rotação Específica
Quando uma solução de substância quiral é inserida em um polarímetro, a
rotação observada (simbolizada pela letra grega alfa, α) dependerá do
número de moléculas que a luz encontra quando ela se desloca através da
solução. Se a concentração da solução é duplicada, a rotação observada será
duplicada. O mesmo ocorre para a distância percorrida pela luz através da
solução (o caminho óptico). Se o caminho óptico é duplicado, a rotação
observada será duplicada. De modo a comparar a rotação de várias
substâncias, os cientistas tiveram de escolher um conjunto de condições-
padrão. Utilizando uma concentração-padrão (1 g/mL) e caminho óptico-
padrão (1 dm) para medir experimentalmente as rotações, é possível realizar
comparações entre as substâncias. A rotação específica para uma
substância é definida como a rotação observada nessas condições-padrão.
Muitas vezes não é prático utilizar a concentração de 1 g/mL quando se
mede experimentalmente a atividade óptica de uma substância, porque os
químicos frequentemente trabalham com quantidades muito pequenas de
uma substância (miligramas em vez de gramas). Muitas vezes, a atividade óptica pode ser medida experimentalmente utilizando-se soluções bastante
diluídas. Para levar em conta o uso de condições que não são as condições-
padrão, a rotação específica pode ser calculada de acordo com:
em que [α] é a rotação específica, α é a rotação observada
experimentalmente, c é a concentração (medida em gramas por mililitros), e
l é o caminho óptico (medido em decímetros, em que 1 dm = 10 cm). Dessa
maneira, a rotação específica de uma substância pode ser calculada para
concentrações e caminhos ópticos diferentes das condições-padrão. A
rotação específica de uma substância é uma constante física, assim como
seu ponto de fusão ou ponto de ebulição.
A rotação específica de uma substância é também sensível à
temperatura e ao comprimento de onda, mas esses fatores não podem ser
incorporados à equação, pois a relação entre esses fatores e a rotação
específica não é uma relação linear. Em outras palavras, duplicando-se a
temperatura não necessariamente dobra-se a rotação observada
experimentalmente; na realidade, o aumento da temperatura pode às vezes
provocar uma diminuição na rotação observada experimentalmente. O
comprimento de onda escolhido também pode afetar a rotação observada
experimentalmente de modo não linear. Portanto, esses dois fatores são
simplesmente reportados no seguinte formato:
em que T é a temperatura (em graus Celsius) e λ é o comprimento de onda
da luz utilizada. Alguns exemplos são vistos a seguir:
em que D representa a linha D do sódio (589 nm). Observe que as rotações
específicas para enantiômeros são iguais em magnitude, mas de sinais
opostos (sentidos opostos). Uma substância exibindo uma rotação
específica (+) é chamada de dextrógira (ou dextrorrotatória), ou d,
enquanto uma substância exibindo uma rotação negativa (−) é chamada de
levógira (ou levorrotatória), ou l. No exemplo anterior o primeiro
enantiômero é levógiro e é, portanto, chamado de (−)-2-bromobutano,
enquanto o segundo enantiômero é dextrógiro e é, portanto chamado de
(+)-2-bromobutano. Não existe relação direta entre o sistema R/S de
nomenclatura e o sinal da rotação específica (+ ou −). Os descritores (R) e
(S) referem-se à configuração (a distribuição tridimensional) de um centro
de quiralidade, o que é independente das condições. Por outro lado, os
descritores (+) e (−) referem-se ao sentido em que a luz plano-polarizada
gira, o que é dependente das condições. Como exemplo, consideremos a
estrutura do ácido (S)-aspártico:
A configuração do centro de quiralidade dessa substância é S,
independentemente da temperatura. Entretanto, a atividade óptica dessa
substância é muito sensível à temperatura, ela é levógira a 20ºC, mas é
dextrógira a 100ºC. Esse exemplo ilustra que não podemos utilizar a
configuração (R ou S) para antecipar se uma substância será (+) ou (−). O sentido e a magnitude da atividade óptica só podem ser determinados
experimentalmente.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
5.5 CÁLCULO DA ROTAÇÃO ESPECÍFICA
APRENDIZAGEM
Quando 0,300 g de sacarose é dissolvido em 10,0 mL de água e colocado em uma célula de 10
cm de comprimento, é observada uma rotação de +1,99 (utilizando-se a linha D do sódio a
20ºC). Calcule a rotação especí ca da sacarose.
SOLUÇÃO
A equação vista a seguir pode ser utilizada para calcular a rotação especí ca:
ETAPA 1
Utilização da seguinte equação.
e o problema fornece todos os valores necessários para inserirmos nesta equação. Precisamos
apenas nos certi car de que as unidades estão corretas: A concentração (c) tem que estar em
gramas por mililitro. O problema informa que 0,300 g é dissolvido em 10,0 mL. Portanto, a
concentração é 0,300 g/10 mL = 0,03 g/mL. O caminho óptico (l) tem que ser registrado em
decímetros (em que 1 dm = 10 cm). O problema informa que o caminho óptico é de 10,0 cm, o
que equivale a 1,00 dm. Agora, simplesmente inserimos os valores na equação:
ETAPA 2
Inserção dos seguintes valores.
A temperatura (20ºC) e o comprimento de onda (linha D do sódio) são relatados como
sobrescrito e subscrito, respectivamente. Observe que a rotação especí ca é geralmente relatada
como se fosse um número adimensional.
PRATICANDO
o que você aprendeu
5.12 Quando 0,575 g de glutamato monossódico (GMS) é dissolvido em 10 mL de água e a
solução é inserida em uma célula de 10,0 cm de comprimento, a rotação observada
experimentalmente, a 20ºC (utilizando-se a linha D do sódio), é de +1,47º. Calcule a rotação
especí ca do GMS.
5.13 Quando 0,095 g de colesterol é dissolvido em 1 mL de éter e a solução é inserida em uma
célula de 10,0 cm de comprimento, a rotação observada experimentalmente, a 20ºC (utilizando-
se a linha D do sódio), é de −2,99º. Calcule a rotação especí ca do colesterol.
5.14 Quando 1,30 g de mentol é dissolvido em 5,00 mL de éter, e a solução é inserida em uma
célula de 10,0 cm de comprimento, a rotação observada experimentalmente, a 20ºC (utilizando-
se a linha D do sódio), é de +0,57º. Calcule a rotação especí ca do mentol.
APLICANDO
o que você aprendeu
5.15 Faça uma estimativa do valor da rotação especí ca da substância vista a seguir. Justi que
a sua resposta.
5.16 A rotação especí ca do (S)-2-butanol é de +13,5. Se 1,00 g deste enantiômero é
dissolvido em 10,0 mL de etanol e a solução é inserida em uma célula de 1,0 dm, que rotação
observada experimentalmente você espera?
é necessário PRATICAR MAIS? Tente Resolver os Problemas 5.44, 5.50c,5.52
Excesso Enantiomérico
Uma solução contendo um único enantiômero é chamada de opticamente
pura, ou enantiomericamente pura. Isto é, o outro enantiômero está
completamente ausente.
Uma solução contendo quantidades iguais de ambos os enantiômeros é
chamada de mistura racêmica e será opticamente inativa. Quando a luz
plano-polarizada passa através dessa mistura, a luz encontra uma molécula
de cada vez, girando um pouco a cada interação. Como existem iguais
quantidades de ambos os enantiômeros, a rotação resultante será de zero
grau. Embora, as substâncias individuais sejam opticamente ativas, a
mistura é opticamente inativa.
Uma solução contendo os dois enantiômeros em quantidades diferentes
será opticamente ativa. Por exemplo, imagine uma solução de 2-butanol,
contendo 70% do (R)-2-butanol e 30% do (S)-2-butanol. Em tal solução,
existe um excesso de 40% do enantiômero R (70% – 30%). O restante da
solução é uma mistura racêmica de ambos os enantiômeros. Neste caso o
excesso enantiomérico (ee) é de 40%.
A % de ee de uma substância é medida experimentalmente da seguinte
maneira:
Iremos agora praticar utilizando essa expressão para calcular a % de ee.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
5.6 CÁLCULO DA % DE ee
APRENDIZAGEM
A rotação especí ca da adrenalina opticamente pura em água (a 25ºC) é de –53º. Um químico
projetou uma rota sintética para a preparação de adrenalina opticamente pura, mas suspeitou
que o produto estivesse contaminado com pequenas quantidades do enantiômero indesejado. A
rotação especí ca observada foi de −45º. Calcule a % de ee do produto.
SOLUÇÃO
Utilizamos a seguinte equação para calcular a % de ee:
ETAPA 1
Utilização da seguinte equação.
e então inserimos os valores dados:
ETAPA 2
Inserção dos valores dados.
Um ee de 85% indica que 85% do produto é adrenalina enquanto 15% é uma mistura racêmica
de adrenalina e seu enantiômero (7,5% de adrenalina e 7,5% do seu enantiômero). Um ee de
85% indica, portanto, que o produto é constituído de 92,5% de adrenalina e 7,5% do seu
enantiômero.