Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
6.1 Entalpia
No Capítulo 1, discutimos a natureza dos elétrons e sua capacidade em
formar ligações. Em particular, vimos que os elétrons alcançam um estado
de energia mais baixa quando eles ocupam um orbital molecular ligante
(Figura 6.1). É lógico, então, que a quebra de uma ligação necessite de uma
absorção de energia.
FIGURA 6.1
Um diagrama de energia mostrando que elétrons de ligação ocupam um OM ligante.
Para ocorrer a quebra de uma ligação, os elétrons no OM ligante têm de
receber energia das vizinhanças. Especificamente, as moléculas das
vizinhanças têm de transferir parte da sua energia cinética para o sistema (a
ligação que está sendo quebrada). A grandeza entalpia é usada para medir
essa troca de energia:
ΔH = q (a pressão constante)
A variação de entalpia (ΔH) para qualquer processo é definida como a troca
de energia cinética, também chamada de calor (q), entre um sistema e suas
vizinhanças sob condições de pressão constante. Para uma reação de quebra
de ligação, ΔH é determinada principalmente pela quantidade de energia necessária para quebrar a ligação homoliticamente. A quebra homolítica
de ligação gera duas espécies não carregadas eletricamente, chamadas de
radicais, cada uma das quais tem um elétron não emparelhado (Figura 6.2).
Observe o uso de setas curvas com uma única farpa, frequentemente
chamadas de anzóis. Radicais e setas com uma única farpa serão discutidos
com mais detalhes no Capítulo 11. Ao contrário, a quebra heterolítica de
ligação é ilustrada com uma seta curva de duas farpas, gerando espécies
carregadas eletricamente, chamadas de íons (Figura 6.3).
FIGURA 6.2
Quebra homolítica de ligação produzindo dois radicais.
FIGURA 6.3
Quebra heterolítica de ligação produzindo íons.
A energia necessária para quebrar uma ligação covalente através da
quebra homolítica de ligação é chamada de energia de dissociação de
ligação. A grandeza ΔH° (com o símbolo “zero”, ou um círculo pequeno,
junto ao H) refere-se à energia de dissociação quando ela é medida em
condições-padrão (isto é, quando a pressão é de 1 atm e a substância está no
seu estado-padrão: um gás, um líquido puro, ou um sólido). A Tabela 6.1
fornece os valores de ΔH° para uma variedade de ligações normalmente
encontradas neste livro.
TABELA 6.1 ENERGIAS DE DISSOCIAÇÃO DE LIGAÇÕES (ΔH°) COMUNS
kJ /MOL kCAL/MOL
Ligações com H
H—H 435 104
H—CH3 435 104
H—CH2CH3 410 98
H—CH(CH3)2 397 95
H—C(CH3)3 381 91
473 113
356 85
464 111
364 87
H—F 569 136
H—CI 431 103
H—Br 368 88
H—I 297 71
H— 498 119 OH
H 435 — OCH 2 CH 3 104
Ligações C—C
CH3—CH3 368 88
CH3CH2—CH3 356 85
(CH3)2CH —CH3 351 84
H2C=CH—CH3 385 92
HC≡C—CH3 489 117
Ligações com o grupo metila
CH3—H 435 104
CH 109 3 — 456 F
CH3—Cl 351 84
CH3—Br 293 70
CH3—I 234 56
CH3— 381 91 OH
CH3CH2—H 410 98
CH3CH2—F 448 107
CH3CH2—Cl 339 81
CH 285 3 CH 2 — 68 Br
CH 222 3 CH 2 — 53 I
CH3CH2—OH 381 91
(CH3)2CH —H 397 95
(CH3)2CH —F 444 106
(CH3)2CH —Cl 335 80
(CH3 68 ) 2 CH — 285 Br
(CH 53 3 222 ) 2 CH — I
(CH3)2CH —OH 381 91
(CH3)3C—H 381 91
(CH3)3C—F 444 106
(CH3)3C—Cl 331 79
(CH3)3C—Br 272 65
(CH3)3C—I 209 50
(CH3 91 ) 3 381 C — OH
Ligações X—X
F—F 159 38
CI—CI 243 58
Br 46 — 193 Br
I— 151 36 I
HO—OH 213 51
A maioria das reações envolve a quebra e formação de várias ligações.
Nesses casos, temos de levar em conta cada ligação que está sendo
quebrada ou formada. A variação total de entalpia (ΔH°) para a reação é
chamada de calor de reação. O sinal de ΔH° para uma reação (seja ele
positivo ou negativo) indica a direção na qual a energia é transferida e é
determinado a partir do ponto de vista do sistema. Um ΔH° positivo indica
que o sistema aumentou de energia (que recebeu energia das vizinhanças),
enquanto um ΔH° negativo indica que o sistema diminuiu de energia (que
ele deu energia para as vizinhanças). A direção da troca de energia é
descrita pelos termos endotérmico e exotérmico. Em um processo
exotérmico, o sistema fornece energia para as vizinhanças (ΔH° é
negativo). Em um processo endotérmico, o sistema recebe energia das
vizinhanças (ΔH° é positivo). Isso é mais bem ilustrado com diagramas de
energia (Figura 6.4), em que a curva representa a variação da energia do
sistema à medida que a reação avança. Nesses diagramas, o avanço da
reação (o eixo x do diagrama) é chamado de coordenada de reação. Os
alunos frequentemente se confundem com o sinal de ΔH°, e há uma razão válida para essa confusão. Na física, os sinais são o inverso daqueles
mostrados aqui. Os físicos pensam em ΔH° em termos das vizinhanças, em
vez do sistema. Eles se preocupam sobre como os dispositivos têm um
impacto sobre as vizinhanças – quanto trabalho o dispositivo pode executar.
Os químicos, por outro lado, pensam em termos do sistema. Quando os
químicos executam uma reação, eles se preocupam com os reagentes e os
produtos; eles não se preocupam em como a reação muda ligeiramente a
temperatura do laboratório. Se vocês estão matriculados em um curso de
física e estão confusos sobre o sinal de ΔH°, basta lembrar que os químicos
pensam em ΔH° do ponto de vista da reação (o sistema). Para um químico,
um processo exotérmico envolve o sistema perdendo energia para as
vizinhanças, de modo que ΔH° é negativo.
FIGURA 6.4
Diagramas de energia de processos exotérmicos e endotérmicos.
Vamos começar exercitando um pouco como prever o sinal e o valor de
ΔH° para uma reação.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
6.1 PREVISÃO DO ΔH° DE UMA REAÇÃO
APRENDIZAGEM
Preveja o sinal e a magnitude de ΔH° para a reação vista a seguir. Dê a sua resposta em unidades
de quilojoules por mol, e identi que se a reação é endotérmica ou exotérmica.
SOLUÇÃO
Identi camos todas as ligações que são quebradas ou formadas:
Em seguida, usamos a Tabela 6.1 para encontrar as energias de dissociação de ligação para cada
uma dessas ligações:
ETAPA 1
Identi cação da energia de dissociação de ligação de cada ligação que é quebrada ou formada.
Ligação kJ/MOL
H —C(CH3)3 381
CI 243 — CI
(CH3)3CI— 331 CI
H — 431 CI
Agora, temos de decidir qual é o sinal (+ ou –) que se coloca na frente de cada valor. Lembre-se
de que ΔH° é de nido com respeito ao sistema. Para cada ligação quebrada, o sistema tem de
receber energia, de modo que a ligação possa quebrar; assim, ΔH° tem de ser positivo. Para cada
ligação formada, os elétrons vão para um estado de menor energia e o sistema libera energia
para as vizinhanças; assim, ΔH° tem de ser negativo. Portanto, ΔH° para esta reação será a soma
total dos seguintes números:
ETAPA 2
Determinação do sinal apropriado para cada valor da etapa 1.
ETAPA 3
Adição dos valores para todas as ligações quebradas e formadas.
Ligações quebradas kJ/MOL Ligações formadas kJ/MOL
H—C(CH3)3 +381 (CH3)3CI—CI –331
CI— +243 CI H—CI –431
Isto é, ΔH° = –138 kJ/mol. Para essa reação ΔH° é negativo, o que signi ca que o sistema está
perdendo energia. Ele está transferindo energia para as vizinhanças, de modo que a reação é
exotérmica.
PRATICANDO
o que você aprendeu
6.1 Usando os dados da Tabela 6.1, preveja o sinal e a magnitude de ΔH° para cada uma das
reações vistas a seguir. Em cada caso, identi que se a reação deve ser endotérmica ou
exotérmica: