Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)

David Klein · Capítulo 78 de 302

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Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)

4.9 Cicloalcanos

No século XIX, os químicos estavam cientes da existência de muitas

substâncias contendo anéis de cinco membros e anéis de seis membros, mas

nenhuma substância com anéis menores era conhecida. Muitas tentativas

infrutíferas para sintetizar anéis menores ou maiores alimentaram

especulações sobre a viabilidade de se criar essas substâncias. Perto do final

do século XIX, Adolph von Baeyer propôs uma teoria descrevendo

cicloalcanos em termos de tensão angular, o aumento de energia associado a

um ângulo de ligação que se desviou do ângulo preferencial de 109,5°. A

teoria de Baeyer baseou-se nos ângulos encontrados nas formas geométricas

(Figura 4.17). Baeyer argumentou que anéis de cinco membros devem conter

quase nenhuma tensão angular, enquanto outros anéis seriam tensos (tanto os

anéis menores quanto os anéis maiores). Ele também raciocinou que

cicloalcanos muito grandes não podem existir, porque a tensão angular

associada a tais grandes ângulos de ligação seria proibitiva.

FIGURA 4.17

 

Ângulos de ligação encontrados nas formas geométricas.

 

As evidências refutando as conclusões de Baeyer vieram de experimentos

termodinâmicos. Lembre-se do início deste capítulo de que calores de

combustão podem ser usados para comparar substâncias isoméricas em

termos de sua energia total. Não é correto comparar calores de combustão

para anéis de tamanhos diferentes, pois os calores de combustão são

esperados para aumentar com cada grupo CH2 adicional. Podemos comparar

com mais precisão os anéis de tamanhos diferentes, dividindo o calor de

combustão pelo número de grupos CH na substância, obtendo um calor de 2

combustão por grupo CH2. A Tabela 4.7 mostra calores de combustão por

grupo CH para vários tamanhos do anel. As conclusões desses dados são 2

mais facilmente vistas quando representados graficamente (Figura 4.18).

Observe que um anel de seis membros é inferior em energia a um anel de

cinco membros, em contraste com a teoria de Baeyer. Além disso, o nível de

energia relativa não aumenta com o aumento do tamanho do anel, como

Baeyer tinha previsto. Um anel de 12 membros é, de fato, muito mais baixo

em termos de energia do que um anel de 11 membros.

 

TABELA CALORES DE COMBUSTÃO POR GRUPO CH2 4.7 PARA CICLOALCANOS

 

CICLOALCANO NÚMERO DE GRUPOS CH 2 CALOR DE COMBUSTÃO CALOR DE COMBUSTÃO

(kJ/MOL) POR GRUPO CH 2 (kJ/MOL)

 

Ciclopropano 3 2091 697

Ciclobutano 4 2721 680

 

Ciclopentano 5 3291 658

 

Ciclo-hexano 6 3920 653

 

Ciclo-heptano 7 4599 657

 

Ciclo-octano 8 5267 658

 

Ciclononano 9 5933 659

 

Ciclodecano 10 6587 659

 

Cicloundecano 11 7273 661

 

Ciclododecano 12 7845 654

FIGURA 4.18

Calores de combustão por grupo CH para cicloalcanos. 2

 

As conclusões de Baeyer não se mantiveram porque elas se baseavam na

suposição incorreta de que cicloalcanos são planos, como as formas

geométricas mostradas anteriormente. Na realidade, as ligações de um

cicloalcano maior podem posicionar-se tridimensionalmente, de modo a

atingir uma conformação que minimiza a energia total da substância. Veremos

em breve que a tensão angular é apenas um os fatores que contribui para a

energia de um cicloalcano. Vamos agora explorar os principais fatores que

contribuem para a energia de vários tamanhos de anel, começando com o

ciclopropano.

 

Ciclopropano

A tensão angular no ciclopropano é grande. Parte dessa tensão pode ser

atenuada se os orbitais que compõem as ligações sofrerem deformação

angular para fora, como na Figura 4.19. Nem toda a tensão angular é

removida, no entanto, porque existe um aumento na energia associada à

sobreposição ineficiente dos orbitais. Embora um pouco da tensão angular

seja reduzida, o ciclopropano ainda tem tensão angular significativa.

Além disso, o ciclopropano também apresenta tensão torcional

significativa, o que pode ser visto melhor em uma projeção de Newman:

FIGURA 4.19

As ligações C C do ciclopropano sofrem deformação angular para fora (sobre as linhas —

vermelhas tracejadas) de modo a aliviar um pouco a tensão angular.

 

Observe que o anel está preso em uma conformação eclipsada, com nenhuma

maneira possível de alcançar uma conformação alternada.

Em resumo, o ciclopropano tem dois fatores principais que contribuem

para a sua alta energia de deformação: a tensão angular (a partir de ângulos de

ligação pequenos) e a tensão torcional (a partir dos H eclipsantes). Esta

grande quantidade de tensão faz os anéis de três membros muito reativos e

muito suscetíveis a reações de abertura de anel. No Capítulo 14, vamos

explorar muitas reações de abertura de anel de uma classe especial de anéis

de três membros, chamados epóxidos:

 

Ciclobutano

O ciclobutano tem menos tensão angular que o ciclopropano. Entretanto, tem

mais tensão torcional, porque há quatro conjuntos de H eclipsando em vez de apenas três. Para aliviar um pouco essa tensão torcional adicional, o