Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
2.7 Introdução à Ressonância
A Inadequação das Estruturas em Bastão
Vimos que as estruturas em bastão são geralmente a forma mais eficiente e
preferencial para representar a estrutura de uma substância orgânica. No
entanto, as estruturas em bastão sofrem de um grande defeito.
Especificamente, um par de elétrons ligantes é sempre representado como
uma linha que é desenhada entre dois átomos, o que implica que os elétrons
ligantes estão confinados a uma região do espaço diretamente entre dois
átomos. Em alguns casos, esta afirmação é aceitável, como na seguinte
estrutura:
Neste caso, os elétrons π estão, de fato, localizados onde eles são
representados, entre os dois átomos de carbono centrais. Mas, em outros
casos, a densidade eletrônica está distribuída ao longo de uma região maior
da molécula. Por exemplo, considere o seguinte íon, chamado carbocátion
alílico:
FIGURA 2.3
A sobreposição de orbitais p de um carbocátion alílico.
Pode parecer a partir da representação anterior que existem dois elétrons π
no lado esquerdo e uma carga positiva no lado direito. Mas esta não é a
imagem inteira, e a representação anterior é inadequada. Vamos dar uma
olhada e analisar primeiro os estados de hibridização. Cada um dos três
átomos de carbono no íon visto anteriormente tem hibridização sp2. Por
quê? Os dois átomos de carbono, no lado esquerdo, têm cada um deles
hibridização sp2 porque cada um dos átomos de carbono está utilizando um
orbital p para formar a ligação π (Seção 1.9). A hibridização do terceiro
átomo de carbono, tendo a carga positiva, também é sp2 porque ele tem um
orbital p vazio. A Figura 2.3 mostra os três orbitais p associados com um
carbocátion alílico.
Esta imagem concentra a nossa atenção no sistema contínuo de orbitais p,
que funciona como um “condutor”, permitindo que os dois elétrons π sejam
associados a todos os três átomos de carbono. A teoria da ligação de
valência é inadequada para a análise deste sistema porque ela trata os
elétrons como se estivessem confinados apenas entre dois átomos. Uma
análise mais adequada do cátion alílico requer o uso da teoria do orbital
molecular (OM) (Seção 1.8), na qual os elétrons estão associados à
molécula como um todo, em vez dos átomos individuais. Especificamente,
na teoria OM, a molécula inteira é tratada como uma entidade e todos os
elétrons na molécula inteira ocupam regiões do espaço chamadas de orbitais
moleculares. Dois elétrons são colocados em cada orbital, começando com
o orbital de menor energia, até que todos os elétrons ocupem os orbitais.
Segundo a teoria OM, os três orbitais p mostrados na Figura 2.3 não
existem mais. Em vez disso, eles foram substituídos por três OMs,
ilustrados na Figura 2.4, em ordem de energia crescente. Observe que o OM
de menor energia, chamado orbital molecular ligante, não tem nós
verticais. O próximo OM de maior energia, chamado orbital molecular não
ligante, tem um nó vertical. O OM de maior energia, chamado orbital
molecular antiligante, tem dois nós verticais. Os elétrons π do sistema
alílico irão preencher esses OMs, começando com o OM de mais baixa
energia. Quantos elétrons π ocuparão esses OMs? O carbocátion alílico tem
apenas dois elétrons π, em vez de três, porque um dos átomos de carbono
tem uma carga formal positiva, o que indica que está faltando um elétron.
Os dois elétrons π do sistema alílico vão ocupar o OM de mais baixa
energia (o OM ligante). Se o elétron que está faltando voltasse, ele iria
ocupar o próximo OM de maior energia, que é o OM não ligante. Vamos
concentrar a nossa atenção no OM não ligante.
FIGURA 2.4
Os orbitais moleculares associados aos elétrons π de um sistema alílico.
Deveria haver um elétron ocupando este OM não ligante, mas o elétron
está perdido. Portanto, os lóbulos coloridos estão vazios e representam
regiões do espaço que são deficientes em elétrons. Concluindo, a teoria OM
sugere que a carga positiva do carbocátion alílico está associada às duas
extremidades do sistema, em vez de apenas uma extremidade.
Em uma situação como esta, qualquer estrutura em bastão que tracemos
será inadequada. Como podemos representar uma carga positiva que se
espalha ao longo de dois lugares, e como podemos representar dois elétrons
π que estão associados a três átomos de carbono?
Ressonância
A abordagem que os químicos usam para lidar com a inadequação das
estruturas em bastão é chamada de ressonância. Segundo esta abordagem,
representamos mais de uma estrutura em bastão e, em seguida, mentalmente
fundimos essas estruturas juntas:
Essas representações são chamadas estruturas de ressonância, e mostram
que a carga positiva se estende sobre dois locais. Observe que as estruturas
de ressonância são separadas por uma seta reta com duas pontas, e nós
colocamos entre colchetes as estruturas. A seta e o colchete indicam que as
representações são estruturas de ressonância de uma entidade. Esta
entidade, chamada um híbrido de ressonância, não está indo para frente e
para trás entre estruturas de ressonância diferentes. Para compreender
melhor isso, considere a seguinte analogia: Uma pessoa que nunca viu uma
nectarina pede a um agricultor para descrever uma nectarina. As respostas
do agricultor:
Imagine um pêssego em sua mente, e agora imagine uma ameixa em sua mente. Bem, uma nectarina tem características das duas frutas: o gosto é como de um pêssego, a parte externa é lisa como uma ameixa, e a cor está entre a cor de um pêssego e a cor de uma ameixa. Então pegue a sua imagem de um pêssego, juntamente com a sua imagem de uma ameixa e coloque-as juntas em sua mente em uma única imagem. Isso é uma nectarina. Aqui está a característica mais importante da analogia: a nectarina não vibra
para trás e para a frente a cada segundo entre ser um pêssego e ser uma
ameixa. Uma nectarina é uma nectarina todo o tempo. A imagem de um
pêssego, por si só não é adequada para descrever uma nectarina. Nem a
imagem de uma ameixa é adequada. Mas, através da combinação de certas
características de um pêssego com certas características de uma ameixa, é
possível imaginar as características de uma nectarina. Da mesma forma,
com estruturas de ressonância, não existe uma única representação que
descreva adequadamente a natureza da densidade eletrônica distribuída ao
longo da molécula. Para lidar com este problema, traçamos várias
representações e depois as fundimos juntas em nossas mentes para obter
uma imagem, ou um híbrido, assim como obtivemos uma imagem para a
nectarina.
Não fique confuso com este assunto importante: o termo “ressonância”
não descreve algo que está acontecendo. Pelo contrário, é um termo que
descreve a forma como lidamos com a inadequação de nossas
representações usando estruturas em bastão.
Estabilização por Ressonância
Desenvolvemos o conceito de ressonância usando o cátion alílico como um
exemplo, e vimos que a carga positiva de um cátion alílico está espalhada
sobre dois locais. Este espalhamento da carga, chamado de deslocalização,
é um fator de estabilização. Isto é, a deslocalização de uma carga positiva
ou de uma carga negativa estabiliza uma molécula. Esta estabilização é
muitas vezes chamada de estabilização por ressonância, e diz-se que o
cátion alílico é estabilizado por ressonância. A estabilização por
ressonância desempenha um papel importante no resultado de muitas
reações e nós vamos invocar o conceito de ressonância em quase todos os
capítulos deste livro. O estudo da química orgânica, portanto, exige um
domínio completo da representação de estruturas de ressonância, e as seções seguintes foram concebidas para que você desenvolva as habilidades