Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
9.4 Hidratação Catalisada por Ácido
função da suspeita de que têm papel relevante na deterioração da camada de ozônio. Atualmente os
agentes de sopro utilizados são menos nocivos ao meio ambiente.
9.4 Hidratação Catalisada por Ácido
Nas próximas seções discutiremos três métodos para adicionar água (H e OH) à
ligação dupla, um processo chamado de hidratação. Os dois primeiros métodos
ocorrem segundo a adição tipo Markovnikov, enquanto o terceiro método ocorre
segundo uma adição anti-Markovnikov. Nesta seção exploraremos a primeira
dessas três reações.
Observações Experimentais
A adição de água à ligação dupla na presença de ácido diluído é conhecida como
hidratação catalisada por ácido. Para os alquenos mais simples, esta reação
ocorre através de uma adição Markovnikov, como mostrado aqui. O resultado
líquido é a adição de H e OH à ligação π, com o grupo OH ligado ao átomo de
carbono mais substituído.
O reagente H3O+ representa a presença da água (H2O) e de um ácido, tal
como, por exemplo, o ácido sulfúrico. Essas condições podem ser mostradas da
seguinte maneira:
em que os colchetes indicam que a fonte de próton não é consumida durante a
reação. Ela é na verdade um catalisador e, portanto, dizemos que esta reação é
uma hidratação catalisada por ácido.
A velocidade de uma reação de hidratação catalisada por ácido depende
bastante da estrutura do alqueno de partida. Comparamos as velocidades
relativas das três reações vistas a seguir e analisamos os efeitos de um
substituinte alquila na velocidade relativa de cada reação. Para cada grupo
alquila adicional a velocidade da reação aumenta de muitas ordens de grandeza.
Também prestamos especial atenção onde o grupo OH é inserido em cada um
dos casos anteriores: o átomo de carbono mais substituído.
Mecanismo e Origem da Regiosseletividade
O Mecanismo 9.2 é consistente com a preferência regioquímica observada para a
adição Markovnikov bem como para o efeito da estrutura do alqueno na
velocidade de reação.
MECANISMO 9.2 HIDRATAÇÃO CATALISADA POR ÁCIDO
OLHANDO PARA O FUTURO
Um mecanismo proposto deve ser sempre consistente com as condições reacionais informadas, como vemos aqui com o uso de H O em meio ácido em vez do hidróxido para a última etapa do 2
mecanismo. Esse princípio aparecerá muitas outras vezes ao longo deste livro.
As duas primeiras etapas desse mecanismo são virtualmente idênticas ao
mecanismo que nós propusemos para a hidroalogenação. Especificamente, o
alqueno é inicialmente protonado para gerar um carbocátion intermediário, que é
então atacado pelo nucleófilo. Entretanto, neste caso o nucleófilo que realiza o
ataque é neutro (H2O) em vez de um ânion (X−) e, portanto, um intermediário carregado é gerado como resultado do ataque nucleofílico. Este intermediário é
conhecido como íon oxônio, porque ele apresenta um átomo de oxigênio com
uma carga positiva. De modo a remover esta carga e formar um produto
eletricamente neutro, o mecanismo tem que ser concluído com uma transferência
de próton. Observe que a base utilizada para desprotonar o oxônio é a H O em 2 vez do íon hidróxido (OH−). Por quê? Em condições ácidas, a concentração de
hidróxido é extremamente baixa, mas a concentração de H2O é bastante alta.
O mecanismo proposto é consistente com a observação experimental
discutida anteriormente nesta seção. A reação ocorre através de uma adição
Markovnikov, conforme vimos para a hidroalogenação, porque há uma forte
preferência para que a reação ocorra através do carbocátion intermediário mais
estável. Do mesmo modo, as velocidades de reação para os alquenos
substituídos podem ser justificadas pela comparação dos carbocátions
intermediários em cada caso. Reações que ocorrem através de carbocátions
terciários geralmente ocorrerão mais rapidamente do que reações que ocorrem
via carbocátions secundários.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
9.10 Em cada um dos seguintes casos identi que o alqueno mais reativo em uma reação de hidratação
catalisada por ácido.
(b) 2-Metil-2-buteno ou 3-metil-1-buteno
Controlando a Posição do Equilíbrio
RELEMBRANDO
Desidratação catalisada por ácido foi discutida na Seção 8.9.
Examinamos com cuidado o mecanismo proposto para a reação de hidratação
catalisada por ácido. Observe as setas representando o equilíbrio ( em vez de ⇌
→). Essas setas indicam que a reação na verdade ocorre nas duas direções.
Considere a reação inversa (começando com o álcool e terminando com o
alqueno). Este processo é uma reação de eliminação na qual um álcool é
convertido em um alqueno. Mais especificamente, é um processo E1 conhecido
como desidratação catalisada por ácido. A verdade é que a maioria das reações
representa processos em equilíbrio. Entretanto, os químicos orgânicos
geralmente escrevem a seta de equilíbrio somente naqueles casos em que o
equilíbrio pode ser manipulado (permitindo controle sobre a distribuição dos
produtos). A desidratação catalisada por ácido é um excelente exemplo desse
tipo de reação.
Anteriormente neste capítulo apresentamos argumentos termodinâmicos para
explicar porque temperaturas baixas favorecem a adição, enquanto temperaturas
altas favorecem a eliminação. Mas na desidratação catalisada por ácido existe
ainda outra maneira de facilmente controlarmos o equilíbrio. O equilíbrio é
sensível não apenas à temperatura, mas também à concentração de água presente
no meio reacional. Controlando a quantidade de água presente (usando-se ácido diluído ou concentrado), um lado do equilíbrio pode ser favorecido sobre o
outro:
O controle sobre este equilíbrio é oriundo do entendimento do princípio de
Le Châtelier, de acordo com o qual um sistema em equilíbrio se ajustará de
modo a minimizar qualquer mudança imposta sobre o sistema. Para entender
como aplicamos este princípio, considere o processo anterior depois de
estabelecido o equilíbrio. Observe que a água está no lado esquerdo da reação.
Como a introdução de mais água afetaria o sistema? As concentrações não
estariam mais em equilíbrio, e o sistema teria de se ajustar para restabelecer
novas concentrações de equilíbrio. A introdução de mais água fará com que o
equilíbrio se desloque de modo a produzir mais álcool. Portanto, ácido diluído
(que é principalmente água) é utilizado para converter um alqueno em um
álcool. Por outro lado, a remoção de água do sistema fará com que o equilíbrio
se desloque em favor do alqueno. Portanto, ácidos concentrados (muito pouca
água) são utilizados para favorecer a formação do alqueno. Alternativamente, a
água pode também ser removida do meio reacional através de um processo de
destilação, o que também favorecerá a formação de alqueno.
Resumindo, o resultado de uma reação é muito afetado pela escolha
cuidadosa das condições reacionais e da concentração dos reagentes.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
9.11 Identi que se você utilizaria ácido sulfúrico diluído ou ácido sulfúrico concentrado para conduzir
as transformações vistas a seguir. Em cada caso, justi que a sua opção.
Estereoquímica da Hidratação Catalisada por Ácido
O resultado estereoquímico de uma reação de hidratação catalisada por ácido é
semelhante ao resultado estereoquímico da reação de hidroalogenação.
Novamente, o carbocátion intermediário pode ser atacado a partir de qualquer
um dos lados com a mesma probabilidade (Figura 9.4). Portanto, quando um
novo centro de quiralidade é gerado, uma mistura racêmica de enantiômeros é
esperada:
FIGURA 9.4
Na segunda etapa da hidratação catalisada por ácido, o carbocátion intermediário é plano e pode ser atacado por ambas as faces, conduzindo a uma mistura de produtos que são a imagem especular um do outro (enantiômeros).
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
9.3 REPRESENTAÇÃO DE UM MECANISMO PARA UMA HIDRATAÇÃO CATALISADA POR
ÁCIDO
APRENDIZAGEM
Represente um mecanismo para a transformação vista a seguir:
SOLUÇÃO
Nesta reação, a água é adicionada a um alqueno seguindo uma adição Markovnikov sob condições de
catálise ácida. Como resultado, o OH é posicionado no carbono mais substituído. Para representar o
mecanismo para este processo, lembre-se de que o mecanismo proposto para uma adição catalisada
por ácido tem três etapas: (1) protonação gerando um carbocátion, (2) ataque nucleofílico da água
gerando um íon oxônio, e (3) desprotonação gerando o produto neutro. Quando representando a
primeira etapa desse mecanismo (protonação), certi que-se de fazer uso de uma seta curva e
assegure-se também de formar o carbocátion mais estável:
ETAPA 1
Uso de duas setas curvas para protonar o alqueno de modo a formar o carbocátion mais estável.
ATENÇÃO
Certi que-se de representar as duas setas curvas e de ser bastante preciso quando colocar o início e o
nal de cada seta curva.
Uma seta curva é representada iniciando na ligação π e apontando para o próton, enquanto a segunda
seta curva é representada iniciando na ligação O—H e apontando para o átomo de oxigênio da
água. Quando representamos a segunda etapa do mecanismo (ataque nucleofílico da água), é
necessária apenas uma seta curva. Esta seta inicia em um dos pares de elétrons isolados da água e
aponta para o carbocátion:
ETAPA 2
Uso de uma seta curva para representar uma molécula de água atacando o carbocátion.
Na etapa nal do mecanismo, a água (e não o hidróxido) atua como uma base e abstrai um próton do
íon oxônio. Como toda etapa de transferência de próton, este processo requer duas setas curvas. Uma
seta curva é representada iniciando em um par de elétrons isolado da água e apontando para o
próton, enquanto a segunda seta curva é representada iniciando na ligação O—H e apontando para
o átomo de oxigênio:
ETAPA 3
Uso de duas setas curvas para desprotonar o íon oxônio utilizando a água como uma base.
PRATICANDO
o que você aprendeu
9.12 Represente o mecanismo para cada uma das seguintes transformações: