Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
1.9 Orbitais Atômicos Hibridizados
ocorra, o íon hidróxido tem que transferir a sua densidade eletrônica para o
orbital molecular vazio de menor energia, ou LUMO, do CH 3Br (Figura
1.17). A natureza do LUMO (isto é, o número de nós, a localização dos nós
etc.) será útil para explicar a direção preferencial a partir da qual o íon
hidróxido irá atacar.
FIGURA 1.17
O LUMO do CH Br. 3
Usaremos a teoria OM várias vezes nos capítulos que se seguem. Mais
notadamente, no Capítulo 17, onde investigaremos a estrutura de
substâncias contendo várias ligações duplas. Para aquelas substâncias, a
teoria da ligação de valência será inadequada e a teoria OM fornecerá uma
compreensão mais significativa da estrutura de ligação. Ao longo deste
livro, vamos continuar a desenvolver tanto a teoria de ligação de valência
quanto a teoria OM.
1.9 Orbitais Atômicos Hibridizados
Metano e a Hibridização 3 sp
Vamos aplicar agora a teoria da ligação de valência para as ligações no
metano:
Lembre-se da configuração eletrônica do carbono (Figura 1.18). Essa
configuração eletrônica não pode descrever satisfatoriamente a estrutura da
ligação do metano (CH ), em que o átomo de carbono tem quatro ligações 4
separadas C —H, pois a configuração eletrônica mostra apenas dois
orbitais atômicos capazes de formar ligações (cada um desses orbitais tem
um elétron não emparelhado). Isso implicaria que o átomo de carbono
formaria apenas duas ligações, mas sabemos que ele forma quatro ligações.
Podemos resolver esse problema, imaginando um estado excitado do
carbono (Figura 1.19): um estado em que um elétron 2s foi promovido para
um orbital 2p de energia maior. Agora, o átomo de carbono tem quatro
orbitais atômicos capazes de formar ligações, mas ainda há outro problema
aqui. A geometria do orbital 2s e dos três orbitais 2p não explica
satistaforiamente a geometria tridimensional observada para o metano
(Figura 1.20). Todos os ângulos de ligação são de 109,5°, e as quatro
ligações estão separadas por um tetraedro perfeito. Essa geometria não pode
ser explicada por um estado excitado do carbono porque o orbital s e os três
orbitais p não ocupam uma geometria tetraédrica. Os orbitais p estão
separados uns dos outros por apenas 90° (como é visto na Figura 1.5) em
vez de 109,5°.
FIGURA 1.18
Um diagrama de energia mostrando a configuração eletrônica do carbono.
FIGURA 1.19
Um diagrama de energia mostrando a excitação eletrônica de um elétron em um átomo de carbono.
Esse problema foi resolvido em 1931 por Linus Pauling, que sugeriu
que a configuração eletrônica do átomo de carbono no metano não tem
necessariamente de ser a mesma configuração eletrônica de um átomo de
carbono livre. Especificamente, Pauling promediou matematicamente, ou
hibridizou, o orbital 2s e os três orbitais 2p, obtendo quatro orbitais
atômicos hibridizados degenerados (Figura 1.21). O processo de hibridação
na Figura 1.21 não representa um processo físico real que os orbitais
sofrem. Em vez disso, ele é um procedimento matemático utilizado para se
chegar a uma descrição satisfatória da ligação observada. Esse
procedimento nos dá quatro orbitais que foram produzidos por uma média
de um orbital s e três orbitais p, e, portanto, nos referimos a esses orbitais
atômicos como orbitais hibridizados sp3. A Figura 1.22 mostra um orbital
híbrido sp3. Se usarmos esses orbitais atômicos hibridizados para descrever
a ligação do metano, conseguimos explicar a geometria observada das
ligações. Os quatro orbitais hibridizados sp3 são equivalentes em energia
(degenerados) e, portanto, se posicionam tão distantes um do outro quanto é
possível, ou seja, alcançam uma geometria tetraédrica. Observe também
que orbitais atômicos hibridizados não são simétricos. Isto é, os orbitais
atômicos hibridizados têm um lóbulo frontal maior (mostrado em vermelho
na Figura 1.22) e um lóbulo posterior menor (mostrado em azul). O lóbulo
frontal maior permite que os orbitais atômicos hibridizados sejam mais
eficientes do que os orbitais p na sua capacidade de formar ligações.
FIGURA 1.20
A geometria tetraédrica do metano. Todos os ângulos de ligação são de 109,5°.
FIGURA 1.21
Um diagrama de energia mostrando quatro orbitais atômicos hibridizados degenerados.
Usando a teoria da ligação de valência, cada uma das quatro ligações no
metano é representada pela sobreposição entre um orbital atômico
hibridizado sp3 do átomo de carbono e um orbital s de um átomo de
hidrogênio (Figura 1.23). Para fins de clareza, os lóbulos posteriores (azul)
foram omitidos das imagens na Figura 1.23.
FIGURA 1.22
Uma ilustração de um orbital atômico hibridizado 3 sp.
FIGURA 1.23
Um átomo de carbono tetraédrico usando cada um dos seus quatro orbitais hibridizados sp3 para formar uma ligação.
A ligação no etano é tratada do mesmo modo:
Todas as ligações nessa substância são ligações simples e, portanto, são
todas ligações σ. Usando a abordagem de ligação de valência, cada uma das
ligações no etano pode ser tratada individualmente e é representada pela
sobreposição de orbitais atômicos (Figura 1.24).
FIGURA 1.24
Uma imagem da ligação de valência das ligações no etano.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
1.19 O ciclopropano é uma substância em que os átomos de carbono formam um anel de três
membros:
Cada um dos átomos de carbono no ciclopropano é hibridizado 3 sp. O ciclopropano é mais reativo
do que as outras substâncias cíclicas (de anéis de quatro membros, de anéis de cinco membros
etc.). Analise os ângulos das ligações no ciclopropano e explique por que o ciclopropano é tão
reativo.
Ligações Duplas e Hibridização 2 sp
Vamos agora considerar a estrutura de uma substância que possui uma
ligação dupla. O exemplo mais simples é o etileno:
O etileno apresenta uma geometria plana (Figura 1.25). Um modelo
satisfatório para explicar essa geometria pode ser desenvolvido pelo
tratamento matemático de hibridizar os orbitais s e p do átomo de carbono
para se obter orbitais atômicos híbridos. Quando fizemos esse procedimento
anteriormente para explicar a ligação no metano, hibridizamos o orbital s e
todos os três orbitais p para produzir quatro orbitais hibridizados
equivalentes sp3. No entanto, no caso do etileno, cada átomo de carbono só
precisa formar ligações com três átomos, não com quatro. Portanto, cada
átomo de carbono só precisa de três orbitais hibridizados. Assim, neste
caso, vamos promediar matematicamente o orbital s com apenas dois dos
três orbitais p (Figura 1.26). O orbital p restante não será afetado pelo nosso
procedimento matemático.
FIGURA 1.25
Todos os seis átomos do etileno estão em um plano.
FIGURA 1.26
Um diagrama de energia mostrando três orbitais atômicos hibridizados 2 sp degenerados.
O resultado desta operação matemática é um átomo de carbono com um
orbital p e três orbitais hibridizados sp2 (Figura 1.27). Na Figura 1.27 o
orbital p é mostrado em vermelho e azul, e os orbitais hibridizados são
mostrados em cinza (para maior clareza, só é mostrado o lóbulo na frente de
cada orbital híbrido). Eles são chamados orbitais hibridizados sp2 para
indicar que eles foram obtidos por uma média de um orbital s e dois orbitais
p. Como mostrado na Figura 1.27, cada um dos átomos de carbono no
etileno é hibridizado sp2, e podemos usar este estado de hibridização para
explicar a estrutura de ligação do etileno.
FIGURA 1.27
Uma ilustração de um átomo de carbono hibridizado 2 sp.
Cada átomo de carbono no etileno tem três orbitais hibridizados sp2
disponíveis para formar ligações σ (Figura 1.28). Uma ligação σ é formada
entre os dois átomos de carbono e, em seguida, cada átomo de carbono
também forma uma ligação σ com cada um dos seus átomos de hidrogênio
vizinhos.
FIGURA 1.28
Uma ilustração das ligações σ no etileno.
Além disso, cada átomo de carbono tem um p orbital (mostrado na
Figura 1.28 com lóbulos azul e vermelho). Esses orbitais p também se
sobrepõem um ao outro formando uma ligação separada chamada de
ligação pi (p) (Figura 1.29). Não fique confuso com a natureza deste tipo
de ligação. É verdade que a sobreposição π ocorre em dois locais – acima
do plano da molécula (em vermelho) e abaixo do plano (em azul). No
entanto, estas duas regiões de sobreposição representam apenas uma
interação chamada ligação π.
FIGURA 1.29
Uma ilustração da ligação π no etileno.
A imagem da ligação π na Figura 1.29 é baseada na abordagem da
ligação de valência (os orbitais p são simplesmente desenhados se
sobrepondo um ao outro). A teoria do orbital molecular fornece uma
imagem bastante semelhante de uma ligação π. Compare a Figura 1.29 com
o OM ligante na Figura 1.30.
FIGURA 1.30
Um diagrama de energia mostrando imagens dos OMs ligante e antiligante no etileno.
Para resumir, vimos que os átomos de carbono do etileno são
conectados através de uma ligação σ e uma ligação π. A ligação σ resulta da
sobreposição dos orbitais atômicos hibridizados sp2, enquanto a ligação π
resulta da sobreposição dos orbitais p. Essas duas ligações separadas (σ e π)
compreendem a ligação dupla do etileno.
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
1.20 Considere a estrutura do formaldeído:
(a) Identi que os tipos de ligações que formam a ligação dupla C =O.
(b) Identi que os orbitais atômicos que formam cada ligação C —H.
(c) Que tipo de orbitais atômicos os pares isolados ocupam?
1.21 Ligações sigma experimentam rotação livre à temperatura ambiente:
Ao contrário, as ligações π não experimentam uma rotação livre. Explique. (Sugestão: Compare as
Figuras 1.24 e 1.29, concentrando-se nos orbitais utilizados na formação de uma ligação σ e nos
orbitais utilizados na formação de uma ligação π. Em cada caso, o que acontece com a
sobreposição orbital durante a rotação da ligação?)
Ligações Triplas e Hibridização sp
Vamos agora considerar a estrutura de ligação de uma substância possuindo
uma ligação tripla, tal como a do acetileno:
Uma ligação tripla é formada por átomos de carbono hibridizados sp.
Para alcançar uma hibridização sp é calculada a média de um orbital 1s com
apenas um único orbital p (Figura 1.31). Isso deixa dois orbitais p sem
serem afetados pela operação matemática. Como resultado, um átomo de
carbono hibridizado sp tem dois orbitais sp e dois orbitais p (Figura 1.32).
FIGURA 1.31
Um diagrama de energia mostrando dois orbitais atômicos hibridizados sp degenerados.
FIGURA 1.32
Uma ilustração de um átomo de carbono hibridizado sp. Os orbitais hibridizados sp são mostrados em cinza.
Os dois orbitais hibridizados sp estão disponíveis para formar ligações σ
(uma de cada lado), e os dois orbitais p estão disponíveis para formar
ligações π, dando a estrutura de ligação para o acetileno mostrada na Figura
1.33. Uma ligação tripla entre dois átomos de carbono é, portanto, o
resultado de três ligações separadas: uma ligação σ e duas ligações π. A
ligação σ resulta da sobreposição de orbitais sp, enquanto cada uma das
duas ligações π resulta da sobreposição de orbitais p. Como mostrado na
Figura 1.33, a geometria da ligação tripla é linear.
FIGURA 1.33
Uma ilustração das ligações σ e das ligações π no acetileno.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
1.7 IDENTIFICAÇÃO DOS ESTADOS DE HIBRIDIZAÇÃO
APRENDIZAGEM
Identi que o estado de hibridização de cada átomo de carbono na substância vista a seguir:
SOLUÇÃO
Para determinar o estado de hibridização de um átomo de carbono não carregado,
simplesmente contamos o número de ligações σ e de ligações π:
A hibridização de um átomo de carbono com quatro ligações simples (quatro ligações σ) será
sp3 π . A hibridização de um átomo de carbono com três ligações σ e uma ligação será 2 sp. A
hibridização de um átomo de carbono com duas ligações σ e duas ligações π será sp. Os átomos
de carbono tendo uma carga positiva ou negativa serão discutidos em mais detalhes no próximo
capítulo.
Usando o esquema simples visto anteriormente, podemos determinar imediatamente o
estado de hibridização da maioria dos átomos de carbono:
PRATICANDO
o que você aprendeu
1.22 A seguir são mostradas as estruturas de dois analgésicos comuns que podem ser
adquiridos sem receita médica. Determine o estado de hibridização de cada átomo de carbono
nessas substâncias:
APLICANDO
o que você aprendeu
1.23 Determine o estado de hibridização de cada átomo de carbono nas substâncias vistas a
seguir:
é necessário PRATICAR MAIS? Tente Resolver os Problemas 1.55, 1.56, 1.58
Força de Ligação e Comprimento de Ligação
A informação que temos visto nesta seção nos permite comparar ligações
simples, ligações duplas e ligações triplas. Uma ligação simples tem apenas
uma ligação (uma ligação σ), uma ligação dupla tem duas ligações (uma
ligação σ e uma ligação π) e uma tripla ligação tem três ligações (uma
ligação σ e duas ligações π). Portanto, não é surpresa que uma ligação tripla
seja mais forte do que uma ligação dupla, que por sua vez é mais forte do
que uma ligação simples. Compare as forças e comprimentos das ligações C
—C no etano, etileno e acetileno (Tabela 1.2).
TABELA 1.2 COMPARAÇÃO DOS COMPRIMENTOS DE LIGAÇÃO E ENERGIAS DE LIGAÇÃO PARA O ETANO,
ETILENO E ACETILENO
ETANO ETILENO ACETILENO
Estrutura
Comprimento da 1,54 Å 1,34 Å 1,20 Å
ligação C—C
Energia de ligação 368 kJ/mol 632 kJ/mol 820 kJ/mol
VERIFICAÇÃO CONCEITUAL
1.24 Ordene as ligações indicadas em termos do aumento de comprimento de ligação: