Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
6.8 Mecanismos e Setas Curvas
é necessário PRATICAR MAIS? Tente Resolver o Problema 6.53
6.8 Mecanismos e Setas Curvas
Lembre-se do Capítulo 3 que um mecanismo mostra como uma reação
ocorre usando setas curvas para ilustrar o deslocamento de elétrons. A
extremidade final (cauda) de cada seta curva mostra de onde os elétrons
estão vindo e a ponta (cabeça) de cada seta curva mostra para onde os
elétrons estão indo:
RELEMBRANDO
Lembre-se de que nós também utilizamos vários padrões de setas curvas para
dominarmos as estruturas de ressonância no Capítulo 2.
A fim de dominar os mecanismos iônicos, será útil você se familiarizar
com padrões característicos de setas curvas. Vamos agora estudar os
padrões de deslocamento de elétrons, e esses padrões vão nos permitir
compreender os mecanismos de reação e até mesmo propor novos
mecanismos. Existem apenas quatro padrões característicos, e todos os
mecanismos iônicos são simplesmente combinações dessas quatro etapas.
Vamos estudá-las uma a uma.
Ataque Nucleofílico O primeiro padrão é o ataque nucleofílico, caracterizado por um nucleófilo
atacando um eletrófilo; por exemplo:
O brometo é um nucleófilo porque possui um par de elétrons isolado, e o
carbocátion é um eletrófilo devido ao seu orbital p vazio. Neste exemplo, o
ataque do nucleófilo ao eletrófilo requer apenas uma seta curva. A cauda da
seta curva é colocada no centro nucleofílico e a ponta é colocada no centro
eletrofílico. Também é comum ver um ataque nucleofílico que utiliza mais
de uma seta curva; por exemplo:
Neste caso, existem duas setas curvas. A primeira mostra o nucleófilo
atacando o eletrófilo, mas qual é a função da segunda seta curva? Há duas
maneiras de ver essa segunda seta curva. Nós podemos simplesmente
pensar nela como uma seta de ressonância: Podemos imaginar primeiro a
representação da estrutura de ressonância do eletrófilo e, a seguir, a
ocorrência do ataque do nucleófilo:
A partir dessa perspectiva, parece que apenas uma das setas curvas está
realmente mostrando o ataque nucleofílico. A outra seta curva pode ser pensada como uma seta curva de ressonância.
Alternativamente, podemos pensar na segunda seta curva como um
fluxo real de densidade eletrônica que vai para cima do átomo de oxigênio
quando o nucleófilo ataca:
Essa perspectiva é, talvez, mais precisa, mas devemos ter em mente que
ambas as setas curvas estão mostrando apenas um padrão de setas curvas:
ataque nucleofílico.
Ligações π também podem se comportar como nucleófilos, por
exemplo:
Perda de um Grupo de Saída
O segundo padrão de setas curvas é caracterizado pela perda de um grupo
de saída, por exemplo:
Essa etapa requer uma seta curva, embora seja comum ver mais do que uma
seta curva ser utilizada para mostrar a perda de um grupo de saída. Por exemplo:
Apenas uma das setas curvas mostra realmente o cloreto saindo (a seta
curva na parte inferior). As setas curvas restantes podem ser vistas de duas
maneiras diferentes (assim como na seção anterior). Podemos ver as outras
setas curvas como setas de ressonância, desenhadas depois da saída do
grupo de saída:
ou podemos ver o processo como um fluxo de densidade eletrônica que
empurra para fora o grupo de saída:
Independentemente da forma como vemos o processo, é importante
reconhecer que todas essas setas curvas juntas mostram apenas um padrão
de setas curvas: perda de um grupo de saída.
Transferência de Próton
O terceiro padrão de setas curvas já foi discutido em detalhes no Capítulo 3.
Lembre-se de que uma transferência de prótons é caracterizada por duas
setas curvas:
Neste exemplo, uma cetona é protonada, o que é mostrado com duas setas
curvas. A primeira é representada da cetona até o próton. A segunda seta
curva mostra o que acontece com os elétrons que estavam anteriormente
mantendo o próton.
Uma etapa de transferência de prótons é ilustrada com duas setas
curvas, se a substância for protonada (como anteriormente) ou
desprotonada, como mostrado a seguir:
Às vezes, as transferências de prótons são mostradas com apenas uma seta
curva:
Neste caso, a base que remove o próton não foi indicada. Os químicos,
algumas vezes, usam essa abordagem para maior clareza de apresentação,
mesmo que um próton não seja removido por si só. Para que uma
substância perca um próton, uma base tem de estar envolvida de modo a
desprotonar a substância. Em geral, é preferível mostrar a base envolvida e
utilizar duas setas curvas.
Às vezes, mais do que duas setas curvas são usadas para uma etapa de
transferência de próton. Por exemplo, o seguinte caso tem três setas curvas:
Mais uma vez, esta etapa pode ser vista de duas maneiras. Podemos ver isso
como uma transferência de próton simples seguida pela representação de
uma estrutura de ressonância:
ou podemos considerar que todas as setas curvas juntas mostram o fluxo de
densidade eletrônica que ocorre durante a transferência de próton:
Para transferências de prótons, ambas as perspectivas são igualmente
válidas.
Rearranjos
O quarto e último padrão é caracterizado por um rearranjo. Existem vários
tipos de rearranjos, mas neste momento vamos nos concentrar
exclusivamente em rearranjos de carbocátions. Para discutir rearranjos de
carbocátions, temos que primeiro explorar uma característica dos
carbocátions. Especificamente, carbocátions são estabilizados por grupos
alquila vizinhos (Figura 6.29).
FIGURA 6.29
Grupos alquila vizinhos estabilizam um carbocátion através de hiperconjugação.
O OM ligante associado a uma ligação C— H vizinha se sobrepõe
pouco ao orbital p vazio, colocando um pouco de sua densidade eletrônica
no orbital p vazio. Esse efeito, chamado de hiperconjugação, estabiliza o
orbital p vazio. Isso explica a tendência observada na Figura 6.30. Os
termos primário, secundário e terciário referem-se ao número de grupos
alquila ligados diretamente ao átomo de carbono carregado positivamente.
Carbocátions terciários são mais estáveis (menos energia) do que
carbocátions secundários, que são mais estáveis do que carbocátions
primários.
FIGURA 6.30
Carbocátions com mais grupos alquila são mais estáveis do que carbocátions com menos grupos alquila.
No final deste capítulo, vamos aprender a prever quando rearranjos são
prováveis de ocorrer. Por enquanto, vamos apenas centralizar a nossa
atenção reconhecendo rearranjos de carbocátions. Existem duas maneiras
comuns em que rearranjos de carbocátions são realizados: via um
deslocamento de hidreto ou um deslocamento de metila.
Um deslocamento de hidreto envolve a migração de H–:
ATENÇÃO
Hidreto é H: –. É um átomo de hidrogênio com um elétron adicional (dois elétrons no total). Não confunda o íon hidreto com um próton (H +), que é um átomo de hidrogênio que perdeu o seu elétron.
Neste exemplo, um carbocátion secundário é transformado em um
carbocátion terciário mais estável. Como isso ocorre? Como uma analogia,
imagine que há um buraco no chão. Agora imagine que cavamos outro
buraco nas proximidades e usamos a terra para encher o primeiro buraco. O
primeiro buraco pode estar cheio, mas em seu lugar, um novo buraco foi
criado nas proximidades. Um deslocamento de hidreto é um conceito
semelhante. O carbocátion é um buraco (um lugar onde não existe
densidade eletrônica). O átomo de hidrogênio vizinho leva os seus dois elétrons e migra para preencher o orbital p vazio. Esse processo gera um
novo, e mais estável, orbital p vazio nas proximidades.
Um rearranjo de carbocátion também pode ser realizado através de um
deslocamento de metila:
Mais uma vez, um carbocátion secundário está sendo convertido em um
carbocátion terciário. Mas, desta vez, é um grupo metila (em vez de um
hidreto), que migra com os seus dois elétrons para preencher o buraco. Para
que um deslocamento de metila ocorra, o grupo metila tem de estar ligado
ao átomo de carbono que está adjacente ao carbocátion.
Os dois exemplos anteriores (deslocamento de hidreto e deslocamento
de metila) são os tipos mais comuns de rearranjos de carbocátion.
Em resumo, vimos apenas quatro padrões característicos de setas curvas
em reações iônicas: (1) ataque nucleofílico, (2) perda de um grupo de saída,
(3) transferência de próton, e (4) rearranjo. Vamos começar exercitando
através da identificação dos padrões.
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
6.3 IDENTIFICAÇÃO DE UM PADRÃO DE SETAS CURVAS
APRENDIZAGEM
Considere a seguinte etapa:
Identi que qual o padrão de setas curvas é utilizado neste caso.
SOLUÇÃO
Veja as setas curvas. As três primeiras setas curvas mostram ligações duplas se movendo, e a
última seta curva mostra o cloreto sendo ejetado da substância:
Em outras palavras, o cloreto está se comportando como um grupo de saída. As outras setas
curvas podem ser vistas como setas de ressonância:
Alternativamente, podemos visualizar as ligações π como “empurrando para fora” o íon cloreto:
De qualquer maneira, existe apenas um padrão de setas curvas sendo utilizado aqui: a perda de
um grupo de saída .
PRATICANDO
o que você aprendeu
6.12 Para cada um dos seguintes casos, veja as setas curvas e identi que qual é o padrão de
setas curvas utilizado:
APLICANDO
o que você aprendeu
6.13 Identi que qual o padrão de setas curvas é utilizado na seguinte etapa: