Química Orgânica: Volume 1 (2ª Edição)
11.10 Adição Radicalar de HBr: Adição Anti-Markovnikov
11.10 Adição Radicalar de HBr: Adição Anti-
Markovnikov
Observações Regioquímicas
No Capítulo 9 vimos que um alqueno reagirá com o HBr através de um
mecanismo iônico que coloca um átomo de bromo na posição mais
substituída (adição Markovnikov):
Lembre-se que a pureza dos reagentes foi determinada como uma
característica primordial nas adições de HBr. Com reagentes impuros a
reação ocorre via uma adição anti-Markovnikov, onde o halogênio aparece
no produto na posição menos substituída:
Investigações posteriores mais detalhadas revelaram que mesmo
quantidades traço de peróxidos (ROOR) podem provocar a preferência
regioquímica por uma adição anti-Markovnikov
Um Mecanismo para Adição Anti-Markovnikov de HX
A adição anti-Markovnikov de HBr na presença de peróxido pode ser
explicada utilizando-se um mecanismo radicalar (Mecanismo 11.3).
MECANISMO 11.3 ADIÇÃO RADICALAR DE HBr A UM ALQUENO
INICIAÇÃO
PROPAGAÇÃO
TERMINAÇÃO
As duas etapas de iniciação geram um radical bromo. As duas etapas de
propagação são responsáveis pela formação do produto observado, de modo
que temos de centralizar a nossa atenção nessas duas etapas de modo a compreender a preferência regioquímica pela adição anti-Markovnikov.
Observe que o intermediário formado na primeira etapa de propagação é um
radical carbono terciário, em vez de um radical secundário:
No Capítulo 9, vimos que a regioquímica da adição iônica de HBr é
determinada pela tendência de ocorrer via o carbocátion intermediário mais
estável. De modo similar, a regioquímica da adição radicalar de HBr é
também determinada pela tendência de ocorrer via o intermediário mais
estável. Entretanto, neste caso, o intermediário é um radical, em vez de um
carbocátion. Para vermos isso claramente, comparamos os intermediários
envolvidos em um mecanismo iônico com o intermediário de um
mecanismo radicalar:
Cada reação avança através do caminho de reação disponível de menos
energia, seja através de um carbocátion terciário ou através de um radical
terciário. Preste atenção especial na diferença fundamental. No mecanismo
iônico, o alqueno reage primeiro com o próton, enquanto no mecanismo
radicalar o alqueno reage primeiro com o bromo. Portanto:
• Um mecanismo iônico resulta em uma adição Markovnikov.
Um mecanismo radicalar resulta em uma adição anti-
• Markovnikov.
Em cada caso, a regiosseletividade é baseada na tendência da reação ocorrer
através do intermediário possível mais estável.
Considerações Termodinâmicas
A adição Markovnikov pode ser realizada com HCl, HBr ou HI. Por outro
lado, a adição anti-Markovnikov só pode ser realizada com HBr. O caminho
reacional radicalar não é termodinamicamente favorável para adição de HCl
ou HI. Para compreender a razão disso, precisamos explorar a
termodinâmica de cada etapa do mecanismo radicalar.
Na Seção 6.3 (e anteriormente neste capítulo) vimos que o sinal de ΔG
tem que ser negativo para que a reação seja espontânea. Lembre-se de que
os dois componentes de ΔG são a entalpia e a entropia:
De modo a estimar o sinal de ΔG para qualquer processo, temos que
avaliar os sinais de ambos os termos, da entalpia e da entropia. No início
deste capítulo utilizamos este tipo de argumento termodinâmico para
explorar a halogenação dos alcanos. Nesta seção, exploraremos cada etapa
de propagação do mecanismo de adição radicalar, separadamente.
Vamos começar com a primeira etapa de propagação. No esquema visto
a seguir os termos de entalpia e de entropia são avaliados separadamente
para os casos do HCl, HBr e HI.
Nos os casos do HCl e do HBr, o sinal de ΔG é determinado por uma
competição entre os termos da entalpia e da entropia. Em temperaturas
elevadas, o termo de entropia será dominante, e ΔG será positivo. Em
temperaturas baixas, o termo de entalpia dominará, e ΔG será negativo.
Portanto, o processo será termodinamicamente favorável em baixas
temperaturas.
O caso do HI é fundamentalmente diferente. Veja no esquema anterior
que o termo de entalpia é positivo no caso do HI (a etapa é endotérmica).
Os termos de entalpia e de entropia não estão competindo aqui.
Independentemente da temperatura ΔG será positivo. Portanto, a adição
radicalar de HI (adição anti-Markovnikov) não é observada.
Façamos agora a mesma análise para a segunda etapa de propagação no
mecanismo radicalar
Em cada um dos casos do esquema anterior, o segundo termo (−T ∆S) é
insignificante. Por quê? Em cada caso, duas entidades químicas estão
reagindo uma com a outra para produzir duas novas entidades químicas.
Baseado nisso, esperamos ΔS = 0. Entretanto, ainda há um pequeno valor
de ΔS em cada caso, devido a variação dos graus de liberdade vibracionais. Este efeito será pequeno e como resultado ΔS será próximo de zero.
Portanto, o sinal de ΔH será o fator dominante na determinação do sinal de
ΔG em cada caso. No caso do HCl, ΔH tem um valor positivo. Portanto,
será difícil encontrar uma temperatura na qual o termo (−T ΔS) seja
predominante em relação ao termo ΔH. Como resultado a adição radicalar
de HCl não é um processo efetivo.
Para resumir nossa análise da adição radicalar de HX a uma ligação π:
A primeira etapa de propagação não pode ocorrer no caso do HI, e a
segunda etapa de propagação é improvável no caso do HCl. Apenas no caso
do HBr as duas etapas de propagação são termodinamicamente favoráveis.
Estereoquímica da Adição Radicalar de HBr
Para alguns alquenos, a adição radicalar de HBr resulta na formação de um
novo centro de quiralidade:
Em casos como esse, não há razão para esperarmos que haja a formação de
um enantiômero preferencialmente ao outro, uma vez que a primeira etapa
de propagação pode ocorrer com a mesma probabilidade a partir de
qualquer uma das faces do alqueno. Portanto, a reação irá produzir uma
mistura racêmica de enantiômeros:
DESENVOLVENDO A APRENDIZAGEM
11.8 PREVISÃO DOS PRODUTOS DE UMA REAÇÃO DE ADIÇÃO RADICALAR DE HBr
APRENDIZAGEM
Preveja os produtos da seguinte reação:
SOLUÇÃO
Na Seção 9.12 vimos que a previsão dos produtos de uma reação de adição requer as três
questões seguintes:
ETAPA 1
Identi cação dos dois grupos que são adicionados à ligação dupla.
1. Que grupos estão sendo adicionados à ligação dupla? HBr indica uma adição de H e Br à
ligação dupla.
2. Qual é a regioquímica esperada (Markovnikov ou anti-Markovnikov)? A presença de
peróxidos indica que a reação se passa via uma adição anti-Markovnikov. Isto é,
esperamos que o Br se ligue ao carbono menos substituído:
ETAPA 2
Identi cação da regioquímica esperada.
3. Qual a estereoespeci cidade? Neste caso, um novo centro de quiralidade é criado, o que
resulta em uma mistura racêmica dos dois enantiômeros possíveis:
ETAPA 3
Identi cação da estereoespeci cidade esperada.
PRATICANDO
o que você aprendeu
11.20 Preveja os produtos de cada reação. Em cada caso certi que-se de considerar se um
centro de quiralidade está sendo gerado e então represente todos os possíveis estereoisômeros.
APLICANDO
o que você aprendeu
11.21 A etapa de iniciação para a adição radicalar de HBr é bastante endotérmica:
(a) Explique como essa etapa pode ser termodinamicamente favorável em altas
temperaturas mesmo sendo endotérmica.
(b) Explique por que essa etapa não é termodinamicamente favorável em baixas
temperaturas.