As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 100 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Maria Teresa fixa-lhe de manso os olhos garços, e diz com simplicidade, tomando-lhe nos seus os dedos esguios:

– As palavras de Vossa Excelência souberam apaziguar o coração de uma mãe aflita.

 

†

DIÁRIO

 

Pouco tenho visto Carlos Augusto nas últimas semanas.

Ando a tentar adaptar-me a uma vida absolutamente diferente, e ele, assoberbado de trabalho, a instalar o seu gabinete, resolvido a levar rapidamente a bom termo as principais tarefas de que vem incumbido por Sua Majestade D. Maria. Embora «o afecto que a Imperatriz mostrou para com a Rainha e toda a sua Augusta Família em Portugal» nos tivesse aplanado as dificuldades dos primeiros tempos, bem como o facto de o conde ter recebido instruções para abrir desde logo a sua casa em Viena e fazer «todas aquelas funções e cerimónias usuais em tão festivas circunstâncias» – não obstante o costume que obriga todos os ministros estrangeiros a só abrirem a sua casa após um ano de residência na Áustria.

Viena, 10 de Setembro de 1780

†

Depois de ter sido recebida em privado pela Imperatriz Maria Teresa, esta envia-lhe como delicado presente uma engenhosa mesa de toilette em pau-santo, com embutidos de outras madeiras mais claras e doces como a tília e a cerejeira.

Ao levantar-lhe o tampo muito leve, Leonor descobre um pequeno espelho orlado por rosetas de ouro, e logo abaixo um curto espaço onde poderá guardar os frascos das essências, das loções, os boiões de cremes comprados em Paris.

Encontra ainda espaço para os delgados pentes de marfim e de tartaruga, que à saída de Portugal Teresa lhe levara embrulhados nas suas lágrimas de despedida. Num escaninho arrumará as fiadas de pérolas para entrançar nos cabelos e, numa gaveta de segredo, aquilo que pretenda afastar do olhar dos outros:

cartas, bilhetes, os versos?

Há também o compartimento dos postiços pequenos, para acrescentar aos penteados armados que utiliza o menos possível. Pior são os postiços altos e mais ainda as perucas, que quando pode não usa, invocando as nevralgias que as suas insónias acicatam.

Remete uma carta de agradecimento à Imperatriz e, apesar de saber estar a infringir todas as normas de etiqueta,

junta-lhe um poema.

†

Carlos Augusto raramente a compreende, mas também não pretende entendê-la, consciente de ser a sua diferença e duplicidade que a distingue e a todos prende e fascina.

Leonor é diversa.

Fora a sua rebeldia que o encantara, a surpreendê-lo. Não os versos que raramente percebe e acha fastidiosos, nem a inteligência que o assusta um pouco, tal como o seu saber, a sua eloquência e cultura.

A equívoca inquietação permanente.

No espaço em que ela brilha ele ensombra-se, mas a admiração que nutre por Leonor nasce desse jogo de fogo pulsante, a criar a diferença onde habitualmente o feminino cala. Como poetisa expõe com os versos o brilho do génio.

Palavras com que cinzela o pensamento.

Minúsculos rubis talhados pelo conhecimento.

Carlos Augusto observa-a sentada diante do espelho incrustado na mesa de toilette, a reparar no seu perfil correcto, no ondear macio dos ombros, na alvura dos seios pequenos e descobertos pela camisa de dormir a aflorar o chão, négligé de cetim entreaberto.

Calado vê-a passar o creme seguindo a linha pura do pescoço, e em seguida ao longo dos braços, tendo ainda posto num dos dedos o anel de esmeraldas ofertado pela mãe às escondidas do marquês de Alorna, antes da partida para Viena.

Nelas reflecte-se a luz trémula das velas dos castiçais de cristal colocados nas mesas-de-cabeceira, onde antes pousara o livro que anda a ler com o seu marcador de marfim.

Petrarca?

Ou,

quem sabe, Maquiavel, Hildegarda de Bingen, ou mesmo Kant, leituras improváveis para uma mulher mas que ela não dispensa.

Porventura Shakespeare, Camões?

Na secretária de nogueira estão os papéis espalhados, os cadernos, a carta para os pais a pedir notícias da filha, perto da pena ainda húmida pousada junto do tinteiro de prata lavrada. Mais além encontra-se a cadeira de vestir forrada de damasco, de onde as criadas ainda não tiraram o vestido preto usado por Leonor nessa mesma tarde, na ida ao salão de Metastásio.

Ocupada consigo mesma, ela não repara na intensidade do olhar do marido, sentado atrás de si num tamborete de seda malva, as mãos um pouco trémulas em cima dos joelhos, a vê-la debruçada sobre a própria imagem reflectida no espelho,

a fazer lembrar Narciso inclinado, a olhar nas águas o próprio reflexo.

E só então Carlos Augusto se dá conta da metamorfose operada nela desde que a conhecera através das grades do convento de Chelas.

†

Os cabelos cor de mel

parecem ser de um ouro aceso sobre os ombros macios, descendo em lassos canudos que lhe acompanham a haste torneada do pescoço branco,

pequenos caracóis sobre a testa a emoldurarem-lhe o rosto delicado, onde os olhos índigo se iluminam, toldados apenas pela longas pestanas que lhe sombreiam a face.

– Quem é ela? – perguntam os que ainda não a conhecem e se maravilham com tanta beleza, para em seguida se deixarem fascinar pela sua inteligência, o espírito sagaz, a cultura.

Pela maneira audaz e criativa com que fala, recita os versos que faz, brilhando nos melhores salões de Viena.

À sombra da sua luz o marido apaga-se.

«É o que acontece a quem se casa com mulheres de génio», comentará Pina Manique anos mais tarde.

†

Ao Senhor Conde de Oeynhausen,

Ministro Plenipotenciário na Áustria

Venho responder às perguntas de Vossa Excelência no respeitante aos gastos necessários a fim de que tudo seja feito excelentemente de vossa parte no sentido de ser levada a bom termo a principal missão da qual Sua Alteza Real vos incumbiu, no respeitante ao enlace da Princesa D. Mariana Vitória com o herdeiro presumptivo do Império da Áustria e de uma das princesas austríacas com D. João, Príncipe da Beira.

Para tal Sua Majestade autoriza Vossa Excelência a fazer as despesas apropriadas, com vista a que tudo decorra com aquela decência e grandeza devidas ao representante da Rainha de Portugal no tratamento de tais casamentos, alianças entre a nossa Coroa e a Corte Imperial austríaca.

Não se embarace pois Vossa Excelência com os custos, ciente de que nada de mesquinho pode transparecer do nosso lado em tudo o que for benéfico no sentido de fechar tal negócio. Sejam jantares ou ceias, carruagens ou presentes, nestas ocasiões sempre indispensáveis e muito apreciados por todos.

Sem mais assunto

Inácio de São Caetano

Arcebispo de Tessalónica

Lisboa, 25 de Setembro do ano de 1780

†

Encontrou o abade António Costa no salão da Imperatriz Maria Teresa, onde ele se destacava pelo espírito, pelo brilho, mas igualmente por estar pobremente vestido entre os elegantes, sem que isso constrangesse ninguém.

– Ah, é Vossa Excelência a Condessa de Oeynhausen…– comentou o abade, de passagem, quando se conheceram e, mostrando apenas algum minguado interesse, continuou a conversar com naturalidade.

Sendo a hipocrisia tanta que raramente se distingue da franqueza, e logo dos verdadeiros sentimentos, agradou bastante a Leonor esta sua atitude sem fingimento. Mais adiante, ao reencontrarem-se, ele acabou por acrescentar, sorrindo:

– Tenho ouvido falar bastante da inteligência e dos versos de Vossa Excelência. Como não os conheço, gostaria infinito de poder escutá-los.

Respondeu-lhe ela com um breve riso, o que pareceu diverti-lo, e jogando com o leque, Leonor ficou a ouvir, calada, a sua dissertação. Ainda estranha aos hábitos daqueles demorados saraus no Palácio de Hofburg e de outras assembleias, frequentados por pessoas bastante mais reservadas e severas do que as dos salões de Paris.

Conhecia a fama de argúcia e cultura daquele padre português que soubera conquistar Viena, e na verdade não a desiludiram as palavras que dele ouviu, sem enleios ou aparentes disfarces. Não tentando esconder o motivo da sua apressada saída de Portugal, onde sempre se desconfia das mentes eruditas, embora raramente fale do país natal; até porque, como gosta de afirmar, «a minha Pátria é aquela onde o debate de ideias pode ser feito em liberdade».

Toca muito bem violino, estuda e escreve cartas até a quem lhe está perto, e Leonor, que simpatiza com ele, quando se lhe dirige é sempre amável, nunca deixando de escutar-lhe com enorme prazer as palavras sensatas e cultas que lhe agudizam a perspicácia e põem à prova a inteligência.

Semanas mais tarde, perguntou-lhe o abade se quando estivera em Paris fora a Versailles e se conhecera a Rainha Maria Antonieta, com quem ele convivera em Viena antes da partida dela para França. Leonor retraiu-se um pouco, apressando-se ele a explicar-lhe o seu interesse de amigo afastado.

– Era uma infanta triste, e hoje é uma rainha infeliz, que não sabe esconder nem a solidão nem os temores que a atormentam.

Desde que travaram conhecimento jamais o vira tão preocupado. E arrepia-se ao ouvi-lo acrescentar, como se soubesse de alguma coisa que se quereria desconhecida:

– Começaram a levantar-se decisivos ventos de mudança, que a maioria das pessoas parece preferir ignorar. Ou eu muito me engano, senhora condessa, ou em França não ficará pedra sobre pedra.

†

Minha Leonor da minha alma

e da minha saudade

No correio chegado ontem a Lisboa queixa-se a mana da minha pouca constância no escrever-lhe, lembrando-me como fomos criadas juntas, tão unidas quanto siamesas. A mim, Leonor, não me falta a memória, mas sobejam-me os motivos da própria perda, desgostosa da vida, afastada da poesia, a iludir a ausência dos versos que há meses não faço.

Como adivinho a perplexidade da mana diante destas equívocas palavras de negrumes e lágrimas mal contidas, adianto-lhe os anseios proibidos, as dúvidas sem concerto, as proibições do conde meu marido, que diz não admitir em sua casa nenhuma sorte de devaneios ou desvarios.

Muitas mais violências feitas sobre mim lhe poderia ainda acrescentar nestas linhas, mas não desejo afligi-la e por isso calo o que só a mim cabe aguentar, já que impossível me é resolver o irremediável. Tivesse eu seguido o exemplo da mana, e arranjado maneira de fazer valer a minha razão e o meu sentir, estaria agora por certo vivendo em situação diversa.

Teve Deus por bem pôr-me à prova ao tirar-me um filho que chorarei até ao final dos meus dias, dividida entre desejar com ansiedade sentir crescer de novo outra criança no meu ventre e a repulsa por aquilo que habitualmente o conde só obtém à força: entrega do meu corpo e dádiva da minha intimidade. Não serei eu merecedora de outra vida que não esta?

Têm-se-me multiplicado ultimamente as visões e intensificado as vozes que ouço, mas não tema a minha irmã qualquer imprevisto nocivo assente nestes motivos, pois tendo sido elas enviadas pelo Senhor a fim de me apaziguar os dias atormentados, nunca podem ser produto de nenhum malefício e antes, sim, da mais pura claridade, no sentido de ser salva ao transportarem-me para além da própria dor.

E deste modo vou aguentando.

Confesso-lhe tudo isto com a finalidade de fazer com que a mais doce de todas as irmãs deixe de entender erradamente os meus silêncios, pondo-os na conta do esquecimento ou da falta dos mais ternos sentimentos.

Aproveite a mana o que pode na vida, tornando-a exultante e iluminada tal como a havíamos sonhado, já que a minha deixou de ter qualquer préstimo. Dê ao conde seu marido cumprimentos da minha parte, e a mana aceite todo o desvelo desta irmã que muito lhe quer.

Sou com muito amor

a vossa outra metade

Maria

Lisboa, 27 de Setembro de 1780

†

Aires de Sá e Melo, primeiro-ministro e secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, recebe com impaciência mais um dos constantes relatórios que o conde de Oeynhausen lhe envia da Áustria. E é em estado de azedume e bastante irritação que procura o arcebispo de Tessalónica, a fim de lhe indagar em nome de quem autorizara o embaixador português na Áustria a fazer todas as despesas enumeradas no rol acabado de chegar pelo correio da embaixada em Viena.

– Em nome da Rainha, meu caro Aires de Sá, no cumprimento das ordens dadas de viva voz por Sua Majestade D. Maria –, responde com boa disposição Frei Inácio de São Caetano, reparando no desagrado do ministro que, de cenho franzido, lhe pergunta ainda, como quem agoura o enlace da Infanta D. Mariana Vitória com o Imperador D. José II e o de D. João com uma das princesas austríacas:

– E se o negócio não se fizer e os casamentos ficarem perdidos, senhor Arcebispo, como vou eu justificar estas despesas inúteis?

O confessor da Rainha que, em nome de Sua Majestade, ainda na véspera dera a entender em carta enviada ao Conde haver um milhão destinado às despesas necessárias para aqueles casamentos, encolhendo os ombros largos sob o hábito branco de carmelita, diz-lhe já num tom seco:

– Nada há para ser justificado, senhor ministro! Sua Majestade Fidelíssima só tem de responder perante si mesma.

†

– Carlos Augusto – chama baixo, debruçada já sobre o seu ombro, o braço quase cobrindo a cara no sono pesado em que se encontra.

No escuro escuta-lhe a respiração pausada e invisível.

Afasta-se um pouco, rolando na cama larga para ir espevitar o pavio da vela na palmatória deixada na mesa-de-cabeceira; em seguida torna ao calor do corpo dele adormecido: uma das pernas longas descida e a outra curvada, que sempre se enrosca em Leonor no torpor dos lençóis.

– Carlos Augusto! – torna, subindo a voz e a deslizar os dedos na macia pele da sua nuca até à seda do pescoço, enquanto lhe desaperta os botões da camisa, ao mesmo tempo que, com a mão livre, lhe destapa as coxas. Aí pára de novo e, com um gesto breve, solta os cabelos que lhe correm bastos e macios pelas costas nuas à medida que os ganchos vão caindo na dobra do lençol de linho com entremeio bordado.

Só então Leonor volta a inclinar-se sobre o sono brando do marido, resvalando colada ao seu corpo, a beber-lhe a mornidão do bafo, o cheiro acre, a passar a língua febril na secura dos lábios entreabertos dele, que já acordado e aturdido começa a corresponder ao seu desejo.

Mal desperto, Carlos Augusto surpreende-se com aquele inesperado fogo que lembra os primeiros meses; julga sonhar, mas ao vê-la quase despida e anelante, olhar toldado de quem se entrega, toma-a nos braços a tirar-lhe o pouco que ainda lhe sobeja de roupa, e ela embora oferecida, recua por capricho, para regressar cedendo mais impetuosa ainda, deixando-se despir e por seu lado despindo-o; a empurrá-lo nas mantas enrodilhadas, envolvendo-o com as coxas abertas e nervosas numa pressa ardente e rumorosa.

Em seguida estende-se sobre ele e começa a escorregar, a descer devagar colada às suas ancas, excitada com o odor almiscarado desprendido da moita do seu púbis claro; a ouvi-lo gritar quando a língua dela, imprevisível, lhe contorna o pénis erecto.

Depois sobe de novo, iça-se, esvoaça como um anjo abrindo as asas brancas, a sobrevoar os gemidos, as juras, as palavras lascivas e mordidas, a espicaçar o prazer à medida que para ele se vai entreabrindo. Ao entrar nela, convulso, Carlos Augusto verga-a debaixo do seu peso, sentindo a cintura estreita a quebrar-se-lhe entre as mãos, os peitos pequenos mas cheios, bicos de um rosa-escuro, rijos e largos a contrastarem com a pele de loura.

E por dentro daquele corpo esguio resvala sem custo.

Mas já Leonor se levanta novamente e baila em torno do seu ventre, soluço mal contido, voz enrouquecida pronunciando-lhe o nome. E quando Carlos Augusto espera escutar-lhe o grito, ela cala-se

e em silêncio faz tudo aquilo que deseja e a contenta, com uma sabedoria rara que seria suposto não ter.

Ou ele não esperava que tivesse.

†

Nelly

Nelly

pensa como se cantasse por dentro da alma; sempre que

distanciando-se em direcção a si mesmo a reinventa, nela a perder-se, incumprida e branca como uma vela.

Nelly

Nelly

implora, exaurido pelo excesso da sua presença; ou da sua eterna

ausência demorada, estilhaçando o cristal do coração delicado. Opalina e desacato.

Nelly

Nelly

sossega pássaro da tempestade, mel da minha vida. Adoça-te

minha amada revolvida de langor e perdimento, açucena de Veneza, delicadeza de trato no teu olhar distraído.

Nelly

Nelly

tez de luz e alvorada, se de mim eu te falasse, talvez pudesse

mostrar como o susto se desprende do interior do baraço, com o qual não te prendo, nem de corpo, nem de laço.

Nelly

Nelly

demorasses na lisura da tua lonjura alada, tu de camélia e de aço,

de sobressalto e nudez, brancura da tua tez de gardénia e açucena, pitonisa e poetisa, minha amada que fugindo se enovela nos meus braços.

Nelly

Nelly

neblina e musselina bordada, renda no pulso febril, peito de

abelha sagrada, na brandura onde é novelo, casulo de ponto errado, de embruxamento e encanto a tomares-me e a olhares-me como se fosse agasalho.

Nelly

Nelly

nó de orquídea, selvagem de tão rebelde e mulher de tão cismada,

azul de metilene esgueirando-se de madrugada. Desejo de me envolveres sendo tu esquiva no trato e no amor sendo garça.

Nelly

Nelly

chamo baixo, encantado ao teu ouvido, meu lume e meu olvido,

voluta e revolvida, me envolvas e me invadas, fera de terra silvada, cravejada de rubis, de tojo, espinhos, de água, e de rosas encarnadas.

†

«Minha Oeynhausen

Com que gosto te entendo satisfeita! Não me causa estranheza o bom acolhimento que aí te fazem na Corte, tu mereces. Mas além do teu merecimento a educação desses Príncipes é hoje tão diferente da dos nossos, que parece que o recesso da Casa de Áustria veio de conserva para as Espanhas, ficando por lá o que unicamente é são. Na verdade, enquanto este sangue não entrou na Família Real Portuguesa, ou pelas alianças de Espanha ou pelas imediatamente contraídas com ela, os nossos Príncipes viviam melhor. Contudo os presentes são honrados, afáveis e humanos, e tu sabes até que ponto se familiarizaram as duas Princesas com aquelas pessoas com que temos a honra de falar. E como suavemente entram nos interesses de cada um.

Não obstante, ao seu lado há quem destrua os frutos desta excelente disposição, e o pior é que ainda que o nosso Duque de Lafões seja chamado, não fará mais do que proceder passivamente. A violência que se faz sentir para se sujeitar, e mil outras coisas que uma carta e a distância não permitem comunicar-te, me faz assentar que hei-de morrer tão molemente como tenho vivido.»

Quanto aos teus, podes estar descansada que todos se encontram de saúde. O teu Pai esteve nas Caldas onde a tua Mãe ainda se conserva na companhia da tua filha, assim como Maria, com esperanças de ser mãe novamente. «Falta-me falar-te de mim e do meu Conde. Este está bom, mas eu passo sempre mal, e pior porque a melancolia não tem cura: e só a tivera se eu, senhora da minha liberdade, pudesse dar uma volta ao manivel da minha máquina caseira. Não é possível, e o sistema que o Conde se tem proposto há-de levar-me mais cedo à sepultura; porém é preciso que ele não o conheça, uma vez que o seu juízo se não convence do contrário.»

Fica tu bem por aí minha Leonor, tomando gosto de tudo o melhor que puderes, enquanto eu vou assistindo «às cenas agradáveis que me tem dado a nossa Capital, onde todos passamos na maior insipidez. E eu hei-de morrer aqui! Oh, dai-nos paciência!

Manda-me novas miúdas de tudo».

Sou e serei sempre a tua fiel

Teresa

Lisboa, 5 Outubro de 1780

†

O que logo atraiu Leonor na condessa Maria Wilhelmine de Thun e lhe chamou a atenção para ela nos salões da Corte de Viena foi o brilho da sua argumentação astuciosa, a espontaneidade calorosa e imediata, a asa do tom desmaiado do seu cabelo louro-acinzentado.

Liga-as o desmedido gosto pela música e a poesia, o interesse apaixonado pela filosofia, a teologia e a ciência. A botânica atrai-as como um íman, mais e mais cada dia, mais e mais cada mês, passando a condessa de Thun grande parte das manhãs desenhando com precisão e habilidade as mais belas ou exóticas flores e plantas de todas as espécies, que ambas procuram ou vão descobrindo durante os passeios, as incursões feitas por jardins e parques, por matas e moitas e maciços que habitualmente ladeiam os palácios.

As suas mãos longas e muito brancas manejam com habilidade e destreza a pena e o pincel mais fino para conseguir o melhor efeito e tentar alcançar a perfeição. Silenciosa, Leonor não despega dela os olhos, captando-lhe os estremecimentos, os movimentos subtis, inclinada diante do pequeno cavalete a tentar fixar na maciez do papel as flores colhidas pelas duas naquela mesma manhã, tentando recuperar-lhes o rendilhado excesso:

Primeiro o caule, a copiar-lhe a inteireza quebradiça, prolongando o traço com a leveza dos dedos afuselados;

Depois o cálice, demorando-se no seu desenho com especial doçura;

Em seguida a corola, conseguida através de vagares cuidadosos e curtos em busca dos seus sucos;

Assim como os estames com ligeiros toques, levando o pulso a ser mais ligeiro;

Mas é nas pétalas

que ela sempre se demora, aprimora, como se pretendesse recopiar-lhes toda a harmonia do bordado intacto, captar-lhes os perfumes, num enredamento de aromas temperados pelo orvalho da madrugada; pétalas que se enfunam, se recolhem, recrudescem e distendem, carnudas, petulantes como lábios, ou de transparências a encresparem-se já de sol e brisas nas pontas, nas polpas, nas finas dobras acetinadas.