As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 11 de 289

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As Luzes de Leonor

Memória

†

 

 

A memória daquela madrugada jamais deixou de perseguir-me, por entre a devastação das trevas geladas, insondáveis. Noite de procela vergastada pelo vento, pela chuva e pelas vozes ásperas dos soldados dando ordens, a quererem fazer-se ouvir apesar do choro desabalado do meu irmão agarrado às saias da mãe, já à porta de casa.

Muda de espanto, coração a saltar-me no peito arrepiado de frio, eu ia recuando o que podia até à escadaria que levava aos quartos, onde imaginava conseguir esconder-me do medo que nessa altura sentia. Desnorteada, encurralada, mas apesar de tudo a tentar evitar o pânico.

Passada que foi toda uma vida, só agora me apercebo do pavor de que estive tomada, durante um tempo interminável marcado pela cadência dos cascos dos cavalos nas pedras desgarradas, enquanto olhando pela janela acanhada eu mal conseguia distinguir as árvores que pareciam assombrar os caminhos cheios de lama pelos quais éramos levadas sem sabermos para onde, num lento pesadelo só terminado quando nos mandaram sair, atemorizadas e enregeladas, no meio de um imenso deserto de negrume.

Estávamos na verdade diante do convento de S. Félix, no vale de Chelas, cujas portas de madeira pesada e escurecida pelos anos, com grandes gonzos firmados nos umbrais de pedra grossa trabalhados em ogiva, demoraram a abrir. Passámo-las tiritando, encharcadas, depois de termos esperado num pequeno pátio ladeado por azulejos azuis e brancos com esbatidos desenhos geométricos, tal como me lembro de os ver à claridade esvaída das lanternas e dos archotes levados pelos soldados que naquela noite tempestuosa de Dezembro de 1758 nos escoltaram; chamas oscilantes a crepitar sob a chuva, que alumiavam mal os degraus a começarem já na terra batida.

Aguardavam-nos algumas freiras curiosas mas desconfiadas e a prioresa, de olhos baixos, mas desagradada tanto com os evidentes traços do nosso desgosto, como com o aspecto desleixado que àquela hora tardia apresentávamos. Maria e Pedro, a choramingarem, agarrados à saia amachucada do vestido de seda esmeralda de nossa Mãe, muito pálida, relutante eu a retardar o passo a fim de olhar o escuro, na tentativa de distinguir o vale que sempre haveria de me parecer assustador. «Escuto só os ventos rugidores» – escrevi mais tarde; mas naquela noite era só a chuva grossa que eu ouvia a embater nas lajes do claustro desconhecido.

Na cela que durante dezoito anos seria o meu quarto, deitada na cama estreita e fria, fiquei de olhos abertos toda a madrugada, possuída pelo medo daquilo que, não podendo ainda entender, não deixava de me aterrorizar pelo seu abismo. No compartimento ao lado ficou minha Mãe, abraçada a Pedro, na inútil tentativa de descansar e acalmá-lo um pouco; dias depois, ele seria retirado da nossa companhia, e levado de volta para a casa na Rua da Boa Morte.

Só então comecei a perceber a verdadeira dimensão da tragédia que arruinara as nossas vidas, apesar de continuar a escapar-me a essência do que nos acontecia, espécie de cataclismo desencadeado pelo poder fero e tirano do secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo, verdugo da nossa família.

Da sua tirania cruel falei em muitos versos…

«Deste duro arpão que rasga o peito,

Monstro que a alma devora sem piedade»…

Dessa primeira noite em Chelas guardo ainda com inacreditável nitidez a fantasia esperançosa de, na manhã seguinte, acordar em casa, ou nos braços da avó Leonor de Távora, que na altura eu ainda não sabia presa. E quando mais tarde uma freira maldosa me contou com todos os pormenores a sua morte bárbara, senti despertar o ódio, sentimento até então meu desconhecido; sentimento confuso mas pertinaz a envenenar-me o sangue, a tentar tomar conta do meu coração de menina assustada. No entanto, os livros, as Luzes e a poesia salvaram-me, ao entornarem a doçura do mel do favo onde o fel e a raiva já haviam começado o seu trabalho devastador.

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