As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 286 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Sem forças, Leonor acaba por se sentar na borda de uma cadeira de braços de madeira gasta, lascada nas costas e nas pernas cambadas, enquanto Thérèse vigia a criada que, aturdida, tira dos baús os lençóis para fazer as camas, e tenta de seguida pôr um pouco de ordem onde reina o caos.

João Ulrico, cansado, cabeceia de sono.

Perto da janela de sacada, uma escrivaninha de pinho empoeirada e velha parece no entanto esperá-la. E Leonor manda trazer o saco dos livros que a acompanhara durante toda a viagem.

Alguns dos volumes espalhados no assento do carro.

 

†

DIÁRIO

 

Desconheço o que me faz manter no peito o coração aceso.

No entanto, não sei durante quanto tempo poderei impedir-me de sucumbir ao desalento, se quando olho à minha roda só distingo ruínas, desacertos e traições, sem claridade nenhuma. Cada dia que passa distancio-me mais de Portugal e dos meus entes mais queridos.

A partir de agora que futuro me espera?

Restam-me as Luzes, os versos e os livros.

Madrid, 24 de Abril de 1803

†

Quantas vezes se estilhaça o coração com a beleza

dos amores proibidos.

Das batalhas e das paixões impossíveis, de entrega e queda, na penumbra da culpa. Henri Forestier não sabe o que pretende de Leonor, mas ansioso por apertá-la ao coração, persegue-lhe o rasto, segue-lhe o trilho, mas sempre a perdê-la ao longo das estradas por onde ela já passara antes. A deixar – inventa inseguro – um finíssimo rasto de perfume que lhe causa vertigens.

Nunca conhecera uma mulher como ela.

Reverberação e luminosidade.

E não querendo perdê-la, regressara aos seus braços, como se estivesse contaminado pelo bago da romã dos seus lábios, de doçura áspera e risível. Mas Henri tomar-lhe-ia de bom grado o oculto veneno da boca, desconhecendo o antídoto que salva.

Será ela um dia a sua queda?

A sua perda?

Estremece, embora sem temer a própria avidez amorosa, que poderá vir a ser a causa primeira da sua morte. Ele, vencedor de batalhas; ele, general da Vendeia; ele, sem misericórdia, tão implacável quanto Aquiles – assim o tratam, o chamam, o apelidam em França.

De posta em posta Henri vai trocando de cavalo, a ignorar o sono, demorando-se a iludir os espiões assassinos que continuam a persegui-lo desde Lisboa. E ele, que ignora o medo, o fim, os perigos intransponíveis, por não ter conseguido alcançar Leonor antes de ela chegar a Madrid

sente o peito despedaçado.

Arde de paixão.

†

Leonor percebe que os próximos tempos serão de abandono e de saudade, em dias de isolamento e tristeza. Escreve às filhas mais velhas, a Catarina e Joana Isabel Forjaz, e enquanto aguarda cartas de Portugal, responde ao bilhete enviado pelo embaixador português em Madrid, que embora amável se mostra distante e ambíguo, parecendo fugir ao seu contacto.

Não obstante, tenta encontrar motivos para continuar a acreditar na vida e no significado libertador das Luzes para ela tão caro, sem saber no entanto como dar cumprimento à tarefa política de que se sente incumbida.

A renascer das próprias cinzas.

Mas, sem poder contactar Henri Forestier,

por vezes vacila.

†

Apesar de nos primeiros tempos

dar mostras de tratá-la com muitas civilidades, Cipriano Ribeiro Freire adia quanto pode receber Leonor, cuidando de que as conversas entre ambos se passem sempre diante de testemunhas. E temendo o que ela possa escrever à Princesa Carlota Joaquina, ao Cardeal Patriarca e até ao próprio Príncipe Regente, atrasa a expedição das cartas que a condessa lhe entrega a fim de seguirem para Portugal através da mala diplomática.

Leonor não sabe dos atrasos propositados, mas desconfia, assim como se apercebe dos subterfúgios por ele engendrados para a manter longe da Corte dos Reis Católicos e afastada do Príncipe da Paz, que chegara a mostrar-se interessado em recebê-la.

Tranca-lhe as portas que, nas suas funções de embaixador, deveria abrir. E como da Corte de Portugal ninguém responde às suas missivas, Leonor permanece sem meios para levar a cabo a missão na qual se sente investida pelo Regente, de quem jamais recebera qualquer ordem a cancelar o que ficara, em seu entender, politicamente firmado entre ambos.

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