As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 178 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Cintura de estreito mosto, onde eu navegaria de encantamento e gosto, eternamente seguindo-te.

 

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DIÁRIO

 

Acordei a meio da noite tremendo de frio. Enrolei-me nos lençóis e cobertores, os arrepios a percorrerem-me o corpo, que mais tarde haveria de mudar-se em brasa, sufocando-me de calor, e nas suas labaredas fui ardendo até de manhã quando mandei chamar Pedro que, ao ver-me a consumir em febre, correu a buscar o nosso velho amigo doutor Tamagnini, que me diagnosticou uma erisipela de um dos lados da cara e na cabeça e receitou um unguento para acalmar a dor e a comichão, pois esta doença é tanto mais tormentosa quanto para ela não se conhece nenhum remédio eficaz.

– A Senhora Condessa vai ter paciência e manter-se em repouso, resguardada dos frios maiores e das correntes de ar. Neste mal, só o tempo e o recolhimento trabalham a bem da cura –, disse-me ao sair, depois de me ter perguntado «pelos versos», e quando pensava eu publicá-los.

Mesmo desalentada, fiquei a empreender no assunto.

Lisboa, 27 de Março de 1788

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Pedro sempre bate à porta dos aposentos da irmã, para saber das suas melhoras e fazer-lhe companhia, querendo consolá-la dos tantos males que a afligem.

Preocupa-o a ansiedade adivinhada nos olhos de Leonor. Desde a sua doença têm conversado com mais demora na pequena sala que ela tornara sua na casa da Rua da Boa Morte, onde ele vive depois do casamento com Henriqueta, que vê com algum desagrado a presença impositiva da cunhada quando ela troca Almada por Lisboa, onde passa a maior parte do tempo.

– Queres crer que não estou autorizado pelo nosso Pai a mudar nem um móvel desta casa? – queixa-se-lhe ele desconsolado, ironizando em seguida acerca dos vasos da China, dos lambris de faiança, dos quadros académicos embora valiosos, pendurados nas paredes forradas a papel escuro com listas douradas.

No entanto, mesmo sem autorização, Leonor mudara tudo na parte que lhe cabe: mandara colocar perto da janela da salinha a secretária que fora de Maria, entretanto cheia dos papéis, dos cadernos e dos poemas que vai escrevendo, a pena atravessada no tinteiro de avental, sinete de prata e o resto do lacre junto de uma carta inacabada e endereçada a Gonçala, a quem desde a chegada a Portugal só fora ver uma vez à grade do convento de Chelas, ironicamente sem licença para entrar onde estivera detida à força durante dezoito anos.

Pedro olha-a reclinada no canapé forrado de brocado de um tom de cereja amodorrada, mancha de cor viva naquele lugar que antes fora lúgubre e cosido de sombras. Inclinada sobre o lado esquerdo, ela tenta disfarçar na penumbra a face vermelha e inchada. Conhecendo-a mórbida no que diz respeito a doenças, julga perceber-lhe a preocupação.

O doutor Tamagnini, que com frequência a examina, ao encontrar Pedro num desses dias descansara-o:

– Se a vossa irmã cumprir a minha recomendação de resguardo e repouso, e usar o unguento que lhe deixei, não tarda está sarada. Trato-a desde o tempo de Chelas, sei quanto a senhora D. Leonor tem uma saúde vigorosa. O seu pior mal é a sensibilidade, os nervos inpressionáveis. E para Alcipe, meu caro amigo, a única cura que conheço são os versos…

E acrescenta sorrindo:

– O remédio do tempo sempre acalmou o corpo e o coração.

Tentando em vão distraí-la, o irmão fala de tudo um pouco: de política, dos ministros, das peças do Teatro do Rato, das cavalhadas que continua a frequentar, das assembleias da condessa de Atalaia e da marquesa de Penalva. Conta-lhe igualmente as novidades da Corte fervilhando de intrigas, de desentendimentos, e como não podia deixar de ser, dos pais que teimam em permanecer na quinta de Almada juntamente com as três netas; usando de tacto, refere-se também a Leonor Benedita, menina esquiva ao abraço materno.

Evita no entanto falar-lhe dos pesadelos que tem tido. Evita ainda contar-lhe das vezes em que deambula pela noite, roído pelas insónias.

Leonor, que apesar de fixada nos próprios males e desânimos repara na palidez súbita do irmão, cala-se a respeitar-lhe o silêncio, os segredos, os negrumes escondidos pelo avesso da alma.

Por fim, conversam das notícias chegadas de França. As Luzes que Leonor ambiciona iluminam Pedro de um modo mais preciso, urgente e extremo. Afinal, ele é um militar, um estratega, um homem de acção.

– Ou és radical ou inconsciente! – insurge-se ela.

– E eu julguei-te mais ousada, mana! Mais moderna, mais aberta a uma sociedade justa, a um mundo diferente.

– Não estarás antes a querer dizer, a um Portugal diferente?

– Quem dera, Leonor, quem dera que pudesse haver por aqui condições para rápidas mudanças! Mas Portugal está minado pelas mentalidades retrógradas.

A penumbra já descera há muito quando Henriqueta, mal encarada, vai em busca do marido, que se despede da irmã e, antes de sair, se volta para trás correspondendo ao seu aceno mudo.

Ambos fingindo ser desprendimento aquilo que neles é inquietude.

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Teresa Violante, condessa de São Paio e filha do marquês de Pombal, tenta o impossível para chegar de rola à Princesa do Brasil, futura rainha de Portugal, e no seu coração fazer ninho que possa dar-lhe vantagem sobre as outras damas da Corte.

Com as sobrancelhas negras e unidas de águia, pequenos olhos de ónix, rosto comprido, moreno e inexpressivo, aquieta-se na penumbra dos salões de Queluz, enquanto dá conta do que se passa à sua roda. Atenta sobretudo aos segredos, às intimidades, à manha, ao cicio, aos cochichos, às confidências e às intrigas das fidalgas de maior estirpe, vai anotando mentalmente cada pormenor de tudo o que ouve e vê, sabendo a quem deve atenção, desprezando os mais fracos, entre os quais se inclui.

«Consciente de não querer ceder em nada do que pretendo» –, pensa ela com secura.

Por demais saturada da humildade a que diariamente se obriga, das humilhações a que se sujeita, esgueirando-se pelos corredores sombrios do Paço, cuidando em jamais se cruzar com o da Monarca, que de forma ostensiva recusa recebê-la, querendo-a o mais longe possível da sua vista e dos seus aposentos, e só lhe tolerando a presença a pedido de sua irmã e nora, a quem a filha do marquês de Pombal rodeia, cerca, bajula.

Teresa Violante tem cravado na alma o espinho envenenado do ódio arrastado desde menina, depois de ter assistido à queda de seu pai, escorraçado por D. Maria ainda o rei D. José nem sequer tinha sido enterrado.

Henrique, seu irmão mais velho, que ela considera um homem fraco, teme pelo resultado de tanta raiva recalcada, pelo sonho de vingança que ela há muito anda remoendo; pelos planos que traça e dos quais ele se afasta, não querendo ser conivente com nada que a irmã venha a fazer.

Mas foi desde o regresso de Leonor de Almeida, da neta dos marqueses de Távora, que Teresa Violante perdeu por completo o sossego e o controle sobre os próprios sentimentos.

Obcecada em querer-lhe mal.

Pertinaz no desejar-lhe o pior para a sua vida.

Basta a sua presença para a memória da condessa de São Paio tornar a supurar como se fosse uma chaga: a morte dos Távora no patíbulo e, anos depois, o afastamento da Corte da própria família. Mais tarde ainda, a turva perturbação de seu pai, sempre que junto dele se pronunciava o nome de D. Leonor de Távora.

Teresa Violante acaba por incluir com prazer Leonor de Almeida no seu antigo projecto de vingança, esmerando-se no apuro em derrubá-la, em vê-la partir vencida de volta a Marselha com o orgulho estilhaçado.

Por isso, mal constata o trato de simpatia entre a filha do marquês de Alorna e a Princesa do Brasil, aproxima-se mais e mais desta e com afinco, habilidade e persistência, começa a minar a ligação das duas: inventando pormenores do que não sabe, contando rumores jamais escutados, levantando dúvidas, insinuando suspeitas, suscitando perplexidades, derrubando a crença, amotinando a desconfiança.

Enquanto cresce no apreço de D. Maria Francisca Benedita, agradecida e cega pela nova afeição, Teresa Violante vai sabendo tornar-se imprescindível.

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Ao chegar com Teresa de Mello Breyner a casa do duque de Lafões, recém-casado com Henriqueta Júlia de Meneses, Leonor encontra Freire de Andrade, que já não vê desde a partida dele de Viena.

Presentes encontram-se ainda o irmão, Nuno Freire de Andrade, e a sua mulher Maria José Alvim Pinto, tímida e pouco frequentadora da Corte. Apesar do prazer em rever Freire de Andrade, Leonor está inquieta e desatenta, só se tranquilizando quando Teresa a vem buscar discretamente, para a levar até ao duque, que já a aguarda na biblioteca a fim de ouvir em particular aquilo que adivinha a condessa ir pedir-lhe:

– A vossa influência, senhor duque, junto do ministro Martinho de Melo.

Acrescentando ela de um só fôlego:

– Para que ele aceda às propostas por mim feitas a Sua Majestade, a fim de resolver o melhor possível a situação de meu marido, garantindo o pagamento das suas dívidas. Foi o que sobretudo me trouxe a Portugal, para além de estar junto de minha filha Leonor Benedita e rezar diante da campa da minha desgraçada irmã.

Enquanto ela fala, o duque de Lafões olha-a com curiosidade, sem conseguir deixar de se encantar com a sua beleza delicada, expressiva, com o seu à-vontade e inteligente modo de expor as razões que a moveram até ele, tentando não dramatizar demasiado, mas sem deixar, aqui e ali, de lembrar como a vida desde criança a vem maltratando.

E em vez de se escusar ao que Leonor de Almeida pretende, o duque de Lafões escuta-a com atenção, acabando por ceder; ou seja, promete o que a condessa pretende, embora lhe vá recordando o apego que por ela parece ter Sua Majestade.

– Que eu saiba, a Rainha está disposta a dar a Vossa Excelência uma nova tença para juntar à que já vos outorgou, para que possais educar sem aflições vossos filhos – acrescenta, ameno.

Arrebatada, porém, Leonor nem o escuta, a descrever-lhe as ciladas, as intrigas de que tem sido vítima, dando exemplos e mesmo nomes. Sendo o último ardil, o urdido pela condessa de São Paio, filha do marquês de Pombal, a fim de pôr termo à convivência dela com a Princesa do Brasil.

– Teresa Violante tece teias de discórdia e de desentendimento entre mim e D. Maria Francisca Benedita. É uma mulher mesquinha e de carácter nefasto, com a alma corroída pelo ódio.

O duque de Lafões, sabendo haver muita verdade naquilo que Leonor de Almeida acaba de lhe dizer, cala-se, preocupado com o seu nervosismo e a extrema magreza, que a torna estranhamente dúbia, caule e haste, assim débil e franzina, sem deixar de ser impetuosa.

Quando regressam à sala, encontram Joana Isabel Forjaz junto dos Freire de Andrade.

Surpresa e desagradada ao vê-la, Teresa de Mello Breyner recua, de volta ao escuro do corredor.

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Quando Leonor, logo depois de ter sido informada da pensão anual de três mil cruzados que acaba de lhe ser atribuída, vai agradecer à Rainha, esta observa-a, atenta à sua reacção, vendo-a ajoelhar e beijar-lhe a mão estendida.

Com brandura retira-a da quentura dos seus lábios, fazendo-lhe sinal para que se levante. A Soberana volta a recostar-se em silêncio na cadeira de braços forrada de veludo, mandada colocar por D. Mariana Arriaga junto à lareira da sala da sua câmara, na inútil tentativa de contrariar o frio das correntes de ar que atravessam o Palácio que Queluz.

D. Maria suspira.

E quando Leonor ergue para ela o olhar decepcionado, que tenta disfarçar, a Monarca percebe não lhe ter minimamente mitigado as exigências nem os desvairados anseios.

Sem esperar que deles alguma vez ela desista.

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Ao ajoelhar diante da Rainha, para agradecer-lhe a pensão atribuída, Leonor ergue os olhos e vê os de D. Maria a fitarem-na com curiosidade, tentando adivinhar-lhe o pensamento: a tença é pouca, é parca, é magra.

Na verdade Leonor pretende bastante mais, para levar consigo quando partir de volta a Avignon: quer sobretudo que a Soberana resolva a complicada situação financeira em que se encontra Carlos Augusto.

Para si mesma apenas deseja a tranquilidade do sonho intacto; e a vastidão, a imensidade dos versos!

Com o seu coração de cristal de rocha.

Proserpina, Atena, Afrodite… Pégaso vindo ao seu encontro, alado, para sempre apegado à extrema brancura das próprias asas.

E as Musas? Ah! as Musas, com o seu voo de asa…

 

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