As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 246 de 289

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As Luzes de Leonor

Obscuridades

Tenho cada vez mais exigências em relação a mim própria.

Escondendo a paixão e defendendo o conhecimento, que desde sempre é considerado como uma insubmissão, uma transgressão, um perigo.

Um grito de insubordinação.

Um aviso de desobediência.

E por isso mesmo a ser castrado pelo poder, amordaçado, proibido.

Transporto a esperança comigo na mudança deste século, que aguardo com perplexidade e quem sabe se com demasiadas expectativas e anseios da natureza do sonho e do voo… Embora preveja para o século XIX confrontos e fissuras, violências e desencontros.

Mas não são as transformações sempre feitas de multiplicidade e entrançamentos, matizes e transfigurações?

Anseio por um tempo onde não se temam as dúvidas e os questionamentos.

É necessário que se façam perguntas, se renovem e mudem as antigas mentalidades que ainda dominam grande parte da Europa. Mas para isso há que encarar a realidade, desenredar e deslindar princípios e ideias, de modo a que as Luzes possam romper o negrume da ignorância, clarificando e mudando, dando lugar ao espírito culto.

A derrotar os déspotas.

 

†

OBSCURIDADES

 

Lilias Fraser,

inquieta com a mudança do século, regressa a Lisboa, onde chega exausta no começo de uma noite gelada e translúcida, bordada a diamantes num céu límpido de estrelas e constelações.

E embora continue desassossegada e durma pouco, na manhã seguinte levanta-se cedo apesar de sentir o corpo fino e alto ainda esgotado, moído pelo muito que nos últimos dias andara, apoiada a um pequeno cajado entalhado por ela mesma, onde se misturam e entrelaçam folhas e flores trepadeiras confundindo as raízes.

Numa tina improvisada, Lilias lava-se das poeiras dos caminhos e do mau cheiro dos suores, da terra enlameada e dos ninhos de tojo seco onde mal descansara. À transparência da água que entorna sobre os ruivos cabelos revoltos, por um instante estes parecem incendiar-se; mas nem molhados irá ser possível domá-los, no seu ensombrado fogo de labaredas fulvas, a escaparem das travessas de osso, a soltarem-se dos ganchos e das fitas que logo se desatam a deixarem-nos escapar.

Bebe um café amargo que aquecera na cafeteira de ferro em cima do borralho fraco que na pequena lareira se amodorra sob as cinzas. Depois sairá sem tino a vistoriar Lisboa, debaixo da chuva miudinha e por entre as névoas que nos finais de Dezembro começaram a erguer-se da ondulação encrespada e transbordante do Tejo.

Lilias Fraser, sabendo onde encontrar os vaticinadores da desgraça, segue pelos becos esconsos e as ruelas estreitas em direcção ao rio ao fundo da cidade. Limita-se a seguir-lhes o trilho, o rasto invisível, mas a corroer já a vida de quem, prisioneiro da própria ignorância, lhes cede a atenção indevida.

À medida que avança, acautelando-se em não permitir que o olhar de ninguém se debruce sobre o seu, vai-lhes distinguindo as vozes estridentes, agoirentas e descontroladas. Então Lilias apressa o andar rápido, vira a esquina que a leva até às arcadas, a sentir na língua o sabor ácido da tempestade que se aproxima. E ao atravessar em direcção ao amontoado das ruínas do terramoto, onde alguns deles se encontram, vai agitada, desatenta, só dando pela sege quando esta quase a derruba, mal tendo tempo de saltar para trás, a receber no rosto o bafo quente dos cavalos que seguem em frente arfando, enquanto uma mão enluvada afasta a cortina e um rosto de mulher se aproxima a espreitar pela janela.

Lilias Fraser reconhece-o de imediato. «Leonor de Almeida!», exclama alto, enquanto deixa enredar nos seus os olhos dela, aterrada com aquilo que possa descobrir. Mas logo se acalma diante da luz matizada que deles se desprende. No segundo seguinte já o carro desaparece na primeira esquina e Lilias, ainda entontecida, volta-se devagar, tentando acalmar o coração sobressaltado.

Teimando em seguir na busca dos pregadores, que não tem poderes para afastar mas, mesmo assim, controla pelo interior da penumbra a travar-lhes o ímpeto de intensidades exaltadas, tentando impedi-los de espalharem a esmo a friagem do mal que querem aos outros. Oradores nefastos a ameaçarem com o castigo eterno e as trevas que, nas alturas de mudanças ou de calamidades logo surgem, odiosos e macabros, a disseminarem o fanatismo que sempre erguem levando ao medo e à caligem.

Atenta, fica a divisá-los de longe dando conta das suas estratégias, decorando-lhes as palavras funestas, percebendo quando usam a imagem do diabo e instigam com visões e adivinhações lúgubres a profetizarem o futuro. Lilias afasta-se sempre que eles começam a invocar o apocalipse, ao mesmo tempo que se apresentam como os salvadores em nome de Deus Nosso Senhor e do Espírito Santo. A apontarem o dedo acusador àqueles que os rodeiam.

– Heresia! Heresia!

Magros, esgalgados e trajados de negro ou embrulhados em farrapos imundos, longos braços e sujas mãos como garras que se erguem no ar esbracejando, semblantes trágicos, aproveitadores da miséria e da ignorância.

Nas semanas seguintes Lilias percorre Lisboa indo até Belém, atravessa numa falua as águas turvas do rio bordejando as margens onde eles mais pregam e, tal como temia, continuando a utilizar a passagem do século, eles ganham terreno a fomentarem o terror que sempre lhes serve o poder nefasto, permitindo-se invocar o pecado original, indicando culpadas:

– Pecadoras! Pecadoras!

As mulheres, envergonhadas, baixam a cabeça.

Enquanto eles continuam dizimando a razão e plantando a inconsistência a par da desconfiança, Lilias passa as madrugadas coarctando-lhes as asas de negrume, espalhando a luz com os seus cristais, a sentir as saias que o vento enfuna a rodarem em torno das suas pernas numa estonteante viragem, como se seguisse na escuna do tempo envolta em relâmpagos que a fazem esvoaçar aturdida.

Lá em baixo permanecem os falsos profetas pregando o fim do mundo.

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