As Luzes de Leonor
Raízes
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Quando a armada da Índia entra na barra, Leonor de Távora, sufocando no seu camarote, sobe até ao convés, a sentir a forte aragem a salgar-lhe os lábios ressequidos por onde passa a ponta da língua, coração de novo apertado na fundura do peito. Febril, há já alguns dias que dorme mal, às voltas na cama balouçante, tentando em vão contrariar uma sensação ruim de mau presságio que de madrugada a toma e no seu peito crava a ponta afiada e nua de lâmina de faca.
Angustiada, guardou para si aquele amontoar de nuvens negras, que dia após dia mais lhe toldam a alma e o coração apressado. Medo incongruente para o qual não consegue encontrar outra explicação senão os nervos irritados e o cansaço provocados pela longa viagem. Desconcerto que nela se vai tornando maior à medida que se aproximam da capital do reino.
Desatenta, desliza os dedos nus e magros ao longo da amurada, enquanto caminha a olhar a imensidão da água, de um verde cintilante de esmeralda. Em passo lento e cauteloso dirige-se devagar para a proa, onde o vento é bem mais forte e lhe solta dos ganchos de ouro e dos pregos de diamantes e rubis algumas madeixas dos ondeados cabelos louros que logo esvoaçam.
Olhos semicerrados de um denso azul-violeta, toldados pelas pestanas, que pouco coam a intensa luz daquele dia de sol, enquanto escuta os passos corridos e descalços na lida dos que conduzem o barco em direcção ao porto de Lisboa, ela perde-se nos pensamentos e nas dúvidas, recordando o muito de si deixado para trás. Admira-se de como as saudades dos seus, que tantas foram durante os anos na Índia, de um momento para o outro se esfumaram; imaginando perigos onde deveria estar a segurança, adivinhando ameaças onde era crível encontrar-se a bonança.
Leonor de Távora confunde as lágrimas com a ligeira névoa que começou a levantar-se do Tejo, arrastando consigo um cheiro acre e macerado a fundo lodoso de rio, misturado com o sal do mar a ficar para trás, e quando sente em torno dos ombros o braço forte de Francisco de Assis que a abraça em silêncio, encosta-se ao seu peito quente, acolhedor, a enroscar-se naquele seu odor de homem de que tanto gosta.
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