As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 159 de 289

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As Luzes de Leonor

Monólogo de Maria

†

 

Nada corre em mim como a correnteza da água, cativa de uma inquietude que jamais se aquieta, ou inquieta mais ainda frente ao coração da beleza. Morro de sede, digo, sem me satisfazer no excesso da brandura, ou me bastar na sombra do quarto, no vento da charneca ou no frescor das cisternas. Sufoco já, neste tempo sem consistência nenhuma, algemada ao meu próprio imponderável, debilidade, quebradura de caule; a derrubar-me e a derramar-me sempre, por entre o sussurro, o sopro e o silvo, o desalento e a banalidade do nada. Eu nada ou eu pessoa alguma, tropeçando na ambiguidade que desde menina me atormenta; hoje menos do que vulto de mim mesma-Maria, jamais única de alguém ou una, dúplice e dupla de quem me é irmã e eu a metade frágil, submissa, a penumbra da noz.

Dividida, comprazi-me em ser espelho de reflectir outra imagem, eu a menor de duas partes e nisso me cindi, face-faces ou fissura, na arte do aceite dos limites impostos, submissa para além do mínimo, para além da rasura que o olhar abrange, tornando-se o pouco logo cume, o cimo da vertigem, por onde o meu corpo em transparência foge, escapa e por fim se dissolve. Mais depressa na ânsia de me soltar, esgueirar, sumir, embora os fracos nós da vida ainda me imobilizem na cama, prisioneira quando tanto quereria voar com os anjos, ir com a harmonia dos pássaros pousar, quem sabe, noutro campo ou campa. Mas tão pouco entendo eu de mim nesta fraqueza, neste esvaimento, neste sangramento, nesta morte tão cruel quanto doce. Num vagaroso esmaecer, a fazer-me levitar sem peso, se cada vez menos perceptível é o rumorejar do meu pulso, ficando eu mais longe e distante e por fim indistinta.

†

Carlos Augusto só embarca em meados de Março num navio que o leva a Toulon, onde à sua espera estará uma carruagem para o conduzir de volta a Avignon, gastando assim o último dinheiro que levara consigo ao partir para a sua desastrosa viagem a Lisboa. Julgara que a Rainha, madrinha do seu casamento com Leonor, o ajudaria, mas afinal nem a avistara nos salões do Palácio de Queluz. Melhor dizendo, ele conde de Oeynhausen, embaixador de Portugal em Viena, não foi recebido nem por Sua Majestade nem pelo primeiro-ministro Martinho de Melo e Castro.

Até o empréstimo de dezoito mil cruzados pedido por ele ao erário público lhe fora negado por D. Maria, que apenas lhe concedera uma licença de seis meses, podendo vir a ser requerido por mais meio ano o seu prolongamento. Como sublinhou o ministro Aires de Sá e Melo numa breve carta em resposta à sua: licença para ser passada em Avignon ou «noutro lugar de França», onde a vida da sua família possa ser levada por diante, «com bem-estar e barateza»; pois ao contrário do que acontece na Áustria, estará isento das pensões devidas ao seu cargo.

Em seguida, será o regresso a Viena.

†

Falo-te de amor, mas escondendo-te, Leonor, a intensidade da minha paixão por ti. Confessando o fogo mas iludindo-te a labareda.

Sei que para ti o nosso amor não será para sempre, mas para mim seria, caso quisesses.

Caminhamos a par e passo através das intensidades e das clareiras das matas e dos bosques, sob as folhas das árvores perenes e sombrias que nos abrigam da chuva, eu atento a ti e tu perdendo-te naquilo que imaginas, passando distraída ao lado das rosas silvestres, das bagas vermelhas dos arbustos, dos frutos secos caídos no chão atapetado de folhas onde há poucas semanas nos costumávamos sentar.

Agora segues distante de mim, deixas-me ficar para trás, embora te acompanhe o andar, o voo; tentando decifrar a expressão cismada de quem deseja sempre ir mais longe, desatenta dos outros, teus satélites, no empenho que levas por ti mesma; na tessitura da própria posteridade.

Por onde já ao de leve te afoitas.

Desesperado, tomo-te pela cintura e viro-te para mim, a olhares-me admirada e interdita, e eu entreabro as mãos a permitir que me escapes, pois no espelho dos teus olhos vi-me:

caçador derrubando a ave,

mas não o poeta que sou. Antes, sim, o predador devorando a presa.

Assusto-me.

Quem sabe Leonor, se és apenas um anjo fugitivo.

E detestando o meu próprio gesto de posse sobre ti, afasto-te, empurro-te de mim, e tu recuas surpresa a fitares-me interdita, enquanto eu sinto um vento gelado a golpear-me o peito, prestes a congelar-me o coração.

Então parto correndo, fujo ouvindo-te vir no meu encalço, escuto ainda o esgarçar da seda do teu vestido vermelho, bainha desfeita pelas silvas e pelas urtigas, pelos espinhos e as farpas, a chamares o meu nome, «Phillipe!» – um grito a ficar cada vez mais longe.

Abandono-te sem culpa,

sozinha na sombra ameaçadora da floresta.

†

Leonor de Lorena relê

as palavras do anjo

que a filha lhe enviou, logo percebendo, pela névoa que envolve a escrita, terem começado os últimos dias de Maria, num entendimento que pode ser susto, medo ou somente presságio; e quando acaba de ler, supersticiosa volta ao início, como se desse modo lhe retardasse a morte:

Não temas, disse o anjo,

«apaziguem-se depressa as feridas, as chagas, os sangramentos do corpo, as rupturas da alma; que a luz afaste as brumas dos olhos e de toldar a lua, então levitarás sem peso nenhum quer seja de âncora ou de liana, quer seja de atadura ao negrume, sem jamais tornares a descer até ao lodo e limos da fundura do poço. E turbada do teu falar e banhada pelas águas do Gehon, o segundo rio do Paraíso, descansarás, porque “achaste graça diante de Deus” e ascenderás ao cume, pois as penas das tuas asas fizeram-se menos pesadas do que as tuas dores e desejos do mundo onde ainda vives.»

E a perturbante beleza do anjo sentado aos pés da minha cama «era como um relâmpago, e a sua vestidura como neve».

Não temas, disse o anjo,

«porque serás coberta pela sombra do Senhor e voarás, com a pressa mudada em calmaria e o ruído em sussurro, e o teu pensamento turvado aclarar-se-á, e saberás dizer:

Rabboni…

desaprendendo o sofrimento das cousas materiais e terrenas, a tomares o conhecimento das palavras indizíveis: bálsamo, repetirá o apóstolo ao teu ouvido, “bálsamo feito de nardo puro”; enquanto deixando o acerto do passado para trás, irás flutuando até onde mergulharás nas águas do Tigre, o terceiro rio, onde Eva nadou. Só então os perfumes se confundirão já com um ar tão puro, que logo entenderás,

Maria,

em ti mesma a diferença; lugar onde tudo se purificará.»

Tão doce o anjo falou à minha beira, e meigo se tornou o seu olhar de hortênsia, que nem sequer temi entender serem aquelas palavras as da anunciação da minha morte.

Não temas, disse o anjo,

«eu sou o visitante das tuas visões, vem a mim e eu te levarei nos braços; embalarei o teu corpo de encontro ao meu corpo, e de mim tirarás o gosto que quiseres na quietude do espaço trabalhado pelas constelações celestes; em seguida preguiçarás na terra prometida, banhar-te-ás no Eufrates, o último dos rios do Éden, e estender-te-ás discorrendo, deitada na tepidez das ervas, das folhas e das pétalas, enquanto “a virtude do Altíssimo” te preservará e reservará a felicidade que sempre quiseste para ti, entre a poesia e a Sua magnífica essência.»

Foi quando o Anjo se calou e eu o reconheci como Gabriel, que ele se apartou de mim; e me encontrei, senhora minha Mãe, ardendo em febre e deitada na cama, tão terrena e perdida no sofrimento quanto antes. Mas como as visões do delírio são o meu último reduto, e vós minha única e querida interlocutora, envio-vos o que lembro das Palavras do Anjo, segundo as minhas próprias palavras.

†

É o Mediterrâneo que me cativa em Marselha.

Entrego-me ao estudo das suas rotas da seda e perfumes, das suas correntes, dos seus múltiplos braços, deltas, desembocaduras onde os rios desaguam.

Rendo-me ao seu áspero odor salgado que me enreda, sentada no velho porto, a sonhar com viagens: Atenas, Alexandria ou Constantinopla, Veneza ou mesmo Espanha; o rochedo de Ifach a quebrar com a sua falsa aridez a doçura do clima, que rodeia e aconchega num tépido embalo; destino de águas cálidas mas, por vezes, de precipício e perda, na quase esterilidade do seu ventre.

Já em Chelas decorava mapas levados por Filinto Elísio, neles querendo descobrir as grutas, os ventos, as tempestades, os mares de palha, os segredos submersos juntamente com os navios naufragados, então inventados por mim na placidez do claustro.

Ainda hoje, sentada no porto de Marselha, evado-me à beira dos barcos que chegam ou partem, cascos grossos e pacientes, avançando pesados ao longo das vagas, a recortar o mundo.

Os crepúsculos demorados fazem-me sentir a alma dilacerada, mas respiro com gosto o ar frio impregnado por um intenso cheiro a ferro, a zinco e a ferrugem dos cascos das embarcações, à mistura com o odor a sal das ondas marulhando aos meus pés, a roçagar a pedra velha da amurada onde me encosto. Tento decifrar as cartas de marear, as tapeçarias bordadas com ilhas, monstros e marés e sereias.

Cristovão Colombo, Ulisses: mitos e descobertas a misturarem-se num faustoso desfilar de lendas e de ninfas, de relatos licenciosos de ondinas e epopeias cantadas em verso. Camões, desde sempre fazendo parte do meu projecto de partida e sonho.

Mediterrâneo tão diferente, afinal, dos desenhos das cartas dos mares, onde os oceanos imobilizados têm anjos em torno, a soprarem os seus ventos afilados como setas. Antigas histórias, com Nereidas e monstros épicos.

Leviatã e Raab.

É preciso rigor e disciplina para navegar – imagino; a enxergar para além do Atlântico, livre do olhar de negrume das sagradas escrituras. A cartografia ensina-se, aprendê-la é a única maneira de lhe conhecer a inteireza; sem essa atitude moderna, os oceanos continuariam desconhecidos, reféns do obscurantismo, da ignorância.

Hoje as Luzes impedem-nos de cegar e impelem-nos para uma outra visão do mundo, ajudam-nos a traçar novos atlas, sem monstros tutelares comandando oceanos alterosos; colocando a fatalidade e o caos no lado oposto ao da razão, que nem sempre cumpro, embora me seja cara.

Em Marselha escuto o Mediterrâneo, deleito-me com os seus odores a alfarrobeiras perfumosas no início abafado das tardes, com olores de pinheiros e de morangos ardentes. Tomo o gosto à framboesa de travo acre, ao licor de romã pelo meio-dia, à doçura das laranjas, ao amargor dos limões, à acidez temperada dos figos, das amêndoas e das tâmaras sabendo a veludo.

Mediterrâneo, tal como o olho e entendo ao pôr-do-sol, junto às antigas amuradas; perto das quais beberia sem pressa

um cintilante refresco de groselha.

†

Da amurada do barco, Carlos Augusto apercebe-se, surpreso, que Leonor está no cais à sua espera, sombrinha de seda vermelha inclinada sobre o ombro direito, mal segura pela mão enluvada de negro, atenta ao lento avançar do pesado navio. Repara na sua desatenção, atraída pelo modo como a quilha cor de ferrugem corta e separa as águas sombrias de limo e lodo do antigo porto.

«Nelly…» – murmurará mais tarde em surdina, ao envolvê-la nos braços, ao mesmo tempo a erguê-la e a apertá-la ao peito, a sentir o perfume a gardénia do seu corpo. Desconhecendo como Leonor sente estrangeiro o cheiro dele, com aquele odor a mar e a salsugem, mais magro do que quando partira, pernas altas e duras a tentarem entreabrir as dela, dedos ásperos que lhe desmancham os cabelos e a tepidez da nuca, na pressa de se reabituarem à sua pele, à fragilidade dos pulsos quebradiços de menina, ao calor dos lábios carmim a fugirem relutantes no ceder, à friagem da boca e da língua que ele traz da viagem.

Ambos guardando os seus segredos, calando as lembranças penumbrosas, ela de uma aventura sem sentido, ele do orgulho espezinhado.

A esconderem-se um do outro.

Desse modo ficam abraçados no silêncio, sentindo aprazimento naquele amor sem a mácula de tumulto. Apesar de tudo com os sentidos a ganharem o fogo do desejo pedindo a entrega, naquela pressa ansiosa que tão bem conhecem, a rolarem já na cama larga onde ficam até quase de noite.

Descansando na essência um do outro.

«Nelly…» –, chamará mais tarde Carlos Augusto num sussurro, ainda abraçado ao seu corpo nu.

Leonor fingirá ter adormecido.

†

Quando começa de novo a sentir-se nauseada, Leonor revê-se no vendaval que têm sido os últimos três anos, desde a saída da Áustria.

De cidade em cidade, indo e vindo, partindo e regressando exausta, num volteio constante e sem sentido, a debater-se, como tem sido hábito, diante do aquietado destino feminino que sempre parece apanhá-la.

Com tenacidade Leonor resiste, em nada mudando a maneira de levar os seus dias, por vezes tombando de cansaço. Passa semanas deitada, sem forças para nada mais que não seja levar a custo aquela gravidez por diante.

Carlos Agrário ronda à sua cabeceira, menino pequeno, débil e macilento, de um louro muito claro, tentando sem ruído subir para junto da mãe, ele que de tanta fraqueza ainda mal anda, mas quando ela está em casa a quer para tudo.

Leonor aperta-o ao peito e aninha-o a si.

†

Mais uma vez ergue-se nas almofadas em aflição,

como se fosse devastada por uma tempestade cruel, sem noção de moderação e de piedade.

Tenta em vão impedir-se de gritar quando chega a hora de a criança sair do seu ventre, numa golfada de sangue; desta vez terá de esperar mais pela placenta e só depois será lavada das sujidades do parto, sem tirar os olhos da menina muito morena e sem choro, deitada num berço improvisado.

O nascimento banal de Henriqueta

não tem qualquer história que ela possa vir a contar, a não ser as águas terem-lhe rebentado em Marselha quando se preparava para tomar a carruagem de volta a Avignon, onde Carlos Augusto a esperava contrariado com a sua imprudência e teima em viajar num estado tão adiantado de gravidez. Apesar do acontecido com Carlos Agrário, que por pouco não nascia na estrada.

Leonor recebe a filha robusta que a parteira lhe estende, idêntica às outras quando nasceram,

excepto Maria Regina com a sua misteriosa beleza ruiva.

As duas repousam agora na mesma cama desmanchada, das mantas e dos lençóis manchados. Sente junto ao seu corpo o calor da menina mansa, como se nela estivesse a aconchegar-se. Os olhos castanhos, que poderão vir a mudar-se na cor bravia do cardo, estão abertos.

As mulheres cuidam também do desalinho do quarto da estalagem: queimam incenso, a tirarem os cheiros acres e ácidos das entranhas que as dores do nascimento deslaçam, afastam da sua vista as bacias de louça e os jarros vazios, as compressas, os pensos e as toalhas ensanguentadas, a placenta, a tesoura de cortar o cordão umbilical.

Leonor pensa na insensatez daqueles partos consecutivos, como se a fertilidade fosse um perigo oculto a ameaçá-la.

†

Mal empurra a porta, um sininho de prata vibra e toca na penumbra da sua livraria preferida em Marselha, onde compra os livros que não manda vir de Paris, da Áustria ou da Alemanha. Deste modo Leonor aumenta a biblioteca que lhe fora roubada em Portugal e que entretanto refizera.

Os volumes da Encyclopédie, conseguiu-os de Filinto Elísio; com eles chegaram Voltaire, Diderot e também Corneille e Rousseau. O abade Correia da Serra enviara-lhe Teresa de Ávila, ao passar por Espanha a caminho de Paris. Ao deixar Viena trouxera consigo Schiller; em Estrasburgo encontrara profecias e versos de Hildegarda de Bingen. De Goethe tem o que comprara em Frankfurt. E Carlos Augusto, já em Avignon, ofereceu-lhe as Rimas de Petrarca e uma velha edição da Arte de Amar de Ovídio.

Mas na livraria de Marselha Leonor faz mais do que adquirir livros. Passa na sua penumbra tardes inteiras, a correr os dedos pelas prateleiras gastas, a tactear as capas duras mas de pele macia; a admirar de perto as lombadas gravadas a ouro, sentindo o gosto que lhe dá virar devagar as suas páginas leves, com a mesma tremura das pálpebras.

Platão, Sócrates e Pitágoras.

Compra tudo o que pode e descobre no seu vistoriar aturado. Foi assim que encontrara Aristóteles, Marco Aurélio e Maquiavel, levando-os até às suas insónias, arrumados que estão sobre a secretária do quarto; ao lado de Dante, de Christine Pizan e de Leonor de Aquitânia.

Senta-se num banco de madeira, a um canto da livraria de Marselha, onde lhe é permitido ficar lendo, numa leitura voraz de poemas, de ensaios, de diários e memórias, até resolver o que levará consigo ou deixará para trás, contrariada.

Por vezes hesita: Galileu ou Robert Boyle? Condorcet ou Turgot? Joseph Butler ou D’Alembert? Marmontel ou Madame de Châtelet? Indecisa, acaba por os colocar junto do seu saco, para só à hora da partida concluir quais deles mais a empolgam e lhe fazem bater o coração desordenado, no imenso prazer da descoberta e da dúvida:

Descartes ou Newton? Leibnitz ou Montesquieu?

Só mais tarde chegará o deleite da leitura.

Habitualmente, quando sai da livraria já desceu o crepúsculo, negrume a ganhar as ruas estreitas, onde os candeeiros de azeite ainda não estão acesos. No ar há sempre uma espécie de neblina salgada que a arrepia e a faz tremer de frio, até entrar no abrigo mofento da carruagem que a espera para a levar até à estalagem onde pernoita na companhia dos livros comprados.

Por sua vontade voltará no dia seguinte:

empurrará a porta, a escutar com prazer o sininho de prata, entrará com a pressa de quem vai para um encontro amoroso. Ofuscada pela claridade da rua, mal distinguirá o vulto dos volumes alinhados nas estantes, em desordem nas mesas ou no chão em pilhas altas. Parará tentando habituar-se à pouca luz coada pelas vidraças sujas das janelas pequenas, comprazendo-se com o cheiro adocicado das encadernações de carneira, à mistura com o odor espesso do papel antigo. No ar reconhecerá o perfume acre da tinta, do lacre, das páginas novas das edições recentes, a gozar aquele clima vagamente sigiloso e secreto, misterioso e também desalmado,

adiando a partida.

A seu lado irá pousando os livros à medida que os escolhe, envolvida no seu xaile de lã a defender-se do frio no anelo dos ombros. E recomeçará tudo do princípio:

debruçar-se-á sobre as mesas, afastará os originais, textos e versos que, vindos do passado, se amontoam sobre os velhos volumes antigos; irá procurar nas estantes, subindo os estreitos degraus do escadote de madeira até às prateleiras mais altas.

Retomará a procura.

– Há muito pó aí, Senhora Condessa – previnem-na sempre. Mas no descuido ela já trepa e desce e senta-se e ergue-se, para voltar a subir as escadas e descê-las, sentar-se no banco e ficar a ler perdida do tempo. Investiga e escolhe, perde-se na busca do conhecimento, que a torna inquieta, a ensina a voar.

Salvando-se e ao mesmo tempo prendendo-se.

Na livraria de Marselha, esquece-se de si mesma.

†

Espera! – manda ela, desdizendo o desejo do próprio corpo, para logo o procurar febril e incontida, dedos tropeçando na pressa com que sempre o ama.

Deixa-me! – diz-lhe Leonor, empurrando-o quando ele a abraça, para mais tarde o buscar anelante, cabelos soltos pelas costas nuas de pele muito branca.

Não quero! – exclama ela, reclamando da posse que não pretende mas ansiando-a já, contraditória diante do gosto que o marido sempre nela desperta, ardente a tomá-lo para si.

Desata-me de ti! – reclama Leonor, sufocada pelo olhar com o qual ele a persegue, algemada à sua obsessiva presença, voltando a voar pela casa.

Carlos Augusto encanta-se com aqueles inesperados anelos, modo de ela o repelir para logo o tomar, nunca parecendo ceder mas já a apetecê-lo, corpo incendiado pelas labaredas da avidez, gemendo a querê-lo mais do que quando é ele a fazê-la sua.

†

Carlos Augusto nunca sabe se Leonor estará em Marselha, se em Arles ou em Nîmes. Se passeia a cavalo pelos bosques que se adensam já longe das muralhas da cidade, se segue a pé até às matas de carvalhos e cedros, onde gosta de se demorar sozinha, a roda do vestido a prender-se nos arbustos e nos espinhos, pés escorregando nos seixos dos riachos que atravessa, ou equilibrando-se nas arestas das pedras que juncam os atalhos onde vai sentar-se à sombra estriada de luz, frinchas estreitas entre ramos e folhas por onde o sol se esgueira. Nos jardins da casa ela aborrece-se com a monotonia das dálias e das begónias, das frésias e dos jacintos cor-de-rosa pálido. Às vezes julga ouvi-la respirar e sente o intenso odor a gardénia do seu corpo, enquanto fecha os olhos para melhor tomar o gosto da vertigem que ela continua a despertar nele.

Carlos Augusto nunca sabe se Leonor estará em Montpellier ou se rumara em direcção a Madrid, pois é em Montpellier que ela sempre se arrepende de entrar em Espanha. E regressa, olhos marejados do orvalho da manhã antes que o sol aqueça. Às vezes julga vê-la durante as caçadas, chegando a confundir-lhe a silhueta com o vulto delgado da gazela, ambas flexíveis e esbeltas: o nascimento dos filhos passa pelo seu corpo sem deixar rasto. Ele sabe como os silêncios da casa a entediam, e a dilaceram os gritos das crianças; é então que parece vê-la desprender-se, evadir-se na ideia de partir, entregando-se à ânsia de viajar. Por isso em segredo a guarda tanto, com medo de a perder, ora apática, livro esquecido no regaço, a pena a secar no tampo da secretária, ora febril, mergulhada nas páginas dos volumes que compra, ou debruçada nos cadernos a evadir-se nos próprios versos. E tudo isto ele sente como formas ínvias de se libertar de todos e da casa.

Carlos Augusto nunca sabe se Leonor se encontra em Nevers, em Lyon ou em Aquitânia, onde o espírito de uma outra Leonor a atrai com a sua diferença. Afinal quem sabe se em vez de ter passado a fronteira a caminho de Espanha, ela não voltará como sempre para casa, exausta de ter partido, a estranhar a lua da madrugada vista pela pequena janela da carruagem. Ou talvez se encontre em Nantes, provavelmente em Limoges, depois de ter pensado ir até Paris, certa de que a meio caminho regressaria, ansiosa por tornar aos seus braços. E Carlos Augusto sobe a escada, arrastando o passo, amparado ao corrimão de madeira polida. Indeciso… Mas quando passa diante do quarto dela acaba entrando, nunca sabendo se a irá encontrar. Coração aquietado mal a descobre adormecida debaixo das cobertas, ao alcance da sua mão, quando chegara a imaginá-la a caminho

de Auvergne? De Grenoble? De Lisboa?

†

Pedro achou mais prudente mandar a notícia ao cunhado:

Maria morreu.

Como um pássaro ferido.

Olhos azuis voltados para a luz entornada vinda da janela aberta, como se alguém tivesse entrado ou saído por ela.

Voado.

Quando D. Branca Alice, dama de sua companhia, já na alvorada entrara no quarto a vigiar-lhe o sono, encontrara-a exangue e atravessada na cama, sobre os lençóis revolvidos e molhados – se de suor ou de lágrimas ninguém jamais saberá –, sangrando pela parte mais íntima do corpo muito magro.

Mancha de rubi na alvura da camisa de dormir.

Na escrivaninha estava uma carta lacrada e dirigida à irmã, que D. Branca Alice escondera do conde da Ribeira Grande sob a capa em que se envolvia, a proteger-se do frio húmido e esfiapado daquela madrugada de dezanove de Novembro.

†

Quando Leonor assoma à porta da sala ainda o vê ocultar na algibeira da farda a carta que imagina ter acabado de chegar de Lisboa. Desviando dela o olhar, Carlos Augusto recua em silêncio, a tentar ganhar o tempo que ela merece de apaziguamento, antes de a mergulhar no desgosto.

Desconfiada, constatando a perturbação por demais evidente do marido, Leonor não sabe se será preferível desconhecer o que viu, coração apertado por uma inesperada premonição de desgraça que a tolhe encostada ao contador de madeira lacada. Mas como não é de sua natureza iludir a verdade, avança depressa e num repente tira-lhe a carta, logo reconhecendo a letra do irmão. As mãos tremem-lhe tanto, que não consegue decifrar a caligrafia difícil de Pedro, recusando-se a entender o que está escrito na folha desdobrada à sua frente.

Sem fala, Carlos Augusto fita-a, suspenso da sua face que de súbito se torna muito pálida, boca crispada, grito preso que a língua não solta no rebordo dos lábios.

Petrificada, Leonor sente-se amputada, decepada de metade de si mesma, e a meia imagem que lhe resta sangra em carne viva. Misericordiosamente a dor parece extinguir-se, para dar lugar a um vazio absoluto. Mesmo assim cambaleia, sem que nada lhe valha: a vertigem, a náusea a revolverem-lhe o estômago, olhar vago e atordoado, a caminhar às cegas sem reparar por onde anda.

Assustado, Carlos Augusto quer ampará-la, mas Leonor recusa-lhe a mão, olhar acuado de animal ferido que ainda ignora a extensão do mal que lhe fora inflingido. As pernas a vergarem-se, a cederem ao peso do desgosto, acabando por cair desamparada no chão, onde fica enrodilhada,

desacordada e lívida.