As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 13 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

entretanto já lava incandescente.

A primeira vez que tal lhe acontece, Leonor, que continua ajoelhada, inclina ao de leve a cabeça para o chão sem fechar os olhos, e junto aos pés lá está: uma pequena mancha húmida, com o cendrado brilho da cereja pura; sangue da nascente do seu corpo, a escorrer num vagar moroso e espesso ao longo das coxas, a sujar-lhe as culotes, as meias brancas, e por fim a orla já esfiada da saia azul-escura.

Mais tarde é a mãe que, de olhos baixos, lhe explica, envergonhada, a causa daquele sangue de mulher, sem doença nem ferida. Nessa noite Leonor dorme com ambas as mãos a cobrir o cimo das pernas, sonhando com S. Sebastião.

Golpeado.

 

†

DIÁRIO

 

Há freiras em Chelas usando cilícios debaixo dos hábitos, a lacerá-las em torno da cintura ou no cimo das coxas até ficarem em carne viva.

Por penitência – garantem.

Os joelhos rasgados pelas promessas.

Os corpos lacerados pelas disciplinas com que se açoitam.

Revolta-me a grande ignorância de que padecem, e as levam a causar o maior dano a si próprias, tornando-se também perigosas para quem as rodeia.

As leituras apaixonantes que faço mostram-me o pensamento arrebatado, mas jamais a martirização obscura de quem vive mergulhado no negrume.

Chelas, 4 de Abril de 1765

†

As freiras afligem-na com constantes frases acusadoras, temerosas profecias, ameaças divinas, previsões de catástrofes bíblicas, obrigações de promessas e rezas, de castigos corporais para atormentar a carne pecadora; e diante de Leonor elas vão nomeando cada um deles com vagares de delícia.

Enumerando ainda os objectos de mortificação, que a muitas delas – dizem – têm levado a ganhar os céus, amparadas e transportadas por anjos, nimbadas com o brilho imaculado das santas mártires, e por isso mesmo ainda mais amadas pelo Senhor Deus.

Penitentes e arrependidas.

Com uma morbidez sombria mas deleitosa puxam-na para um qualquer canto obscuro de humidades frias e, com os dedos secos mas febris, vão-lhe desenhando no corpo frágil os lugares a serem castigados com os instrumentos de penitência…

Cilícios e vergastas.

Açoutes e disciplinas.

Azorragues e cadenilhas.

E à medida que, com regozijo matizado de crueldade, as religiosas cercam Leonor, a agarram, lhe manipulam os lábios, o pescoço e os ombros, os braços, o peito, descendo em seguida para o ventre liso, deslizando até às coxas onde se detêm ameaçadoras, a murmurarem em latim secretas palavras com laivos de exorcismo, fazem-na estremecer assombrada. As noviças recuam, evitando ser testemunhas do que se passa diante dos seus olhos, sem saberem depois como mitigar a culpa; elas mesmas temerosas, a refugiarem-se na igreja ou nas celas, a cobrirem melhor com os hábitos as cicatrizes, as feridas infectadas, as crostras recentes, as pústulas que não saram.

Abstinência, abstinência…

†

Fitam-na com a voracidade dos seus olhares ameaçadores, chegando a segui-la num leve crepitar adejante, roçagando os altos degraus da escada do coro, ou ao longo dos corredores de pedra carcomida. Como quem está ansioso por apanhá-la em falta gravosa.

Maria faz troça delas, Leonor vomita.

Ao longo da madrugada escuta-as a pararem, murmurando em surdina, diante da porta do quarto que continua a partilhar com a irmã. Outras noites entram de rompante, antes de cada hora canónica, arrancam-na da cama, estremunhada, e arrastam-na até à igreja. Quando voltam demoram-se a fazer-lhe o elogio da mortificação, do sofrimento, da flagelação.

Leonor de Lorena dá conta das olheiras, da magreza e da tristeza da filha, uma melancolia, uma névoa, uma bruma que lhe alaga os olhos inquietos; e ao aperceber-se da pressão religiosa a que ela está a ser sujeita, vai pedir satisfações à madre superiora, mostrando-lhe o seu imenso desagrado. Mas quando esta lhe responde, «é minha obrigação e das outras freiras mostrarmos à filha de Vossa Excelência que professar é a única maneira de ela se salvar, de lavar os grandes pecados da sua família, e ao mesmo tempo libertar-se da ira do secretário de Estado, o senhor conde de Oeiras…», olha-a boquiaberta, não querendo acreditar na monstruosidade acabada de ouvir.

†

Antes de recolher à cela e apesar da aragem fresca que Outubro levanta, Leonor vai sentar-se debaixo da árvore da cerca do convento, rosto entre as mãos abertas a cobrirem a extrema palidez: nauseada, estômago tolhido por uma intensa cãibra de fome que a faz dobrar-se sobre si mesma. Há dois dias que não come, jejum imposto por disciplina religiosa; apenas a água parece aliviá-la, refrescando-lhe os lábios ressequidos e gretados.

Aterrada com o que lhe dizem as madres, secretamente manobradas pelos jesuítas entretanto expulsos, de o convento representar para ela o único refúgio seguro à perseguição de Sebastião José de Carvalho e Melo, passara as últimas semanas a rezar na igreja, reflectindo na possibilidade de tomar o véu.

As noites leva-as sem dormir, seguindo apaixonadamente a leitura dos poemas e outros escritos de Teresa de Ávila, o que a conduz à meditação e à espiritualidade, mas também à consciência da tibieza da própria vocação. Pede a opinião de frei Alexandre da Silva, seu confessor, que a aconselha a não se precipitar, a escutar o que lhe diz a razão e a aceitar os conselhos da mãe, a demorar a decisão o mais possível. Depois abana a cabeça e olha-a com um ar dubitativo.

Leonor hesita cada vez mais em aceitar o destino de clausura que os padres e as freiras de Chelas insistem ser para ela a salvação possível, ciente do fastio que lhe dão as missas e rezas, das muitas dúvidas e revoltas que a assistem, do sono que sempre a vence durante as novenas e as horas canónicas, morta de aborrecimento, enquanto, no seu oposto, a tentação do estudo e o fascínio pela sabedoria é constante e forte. Então, castiga-se, embrenha-se em orações na busca da lisura e da transparência da alma que continuam a escapar-lhe. O seu pensamento é demasiado rico e ágil para ceder a prisão alguma, e os Exercícios Espirituais a que a submetem não chegam para lhe domar o carácter ousado, ambicioso e rebelde.

A humildade não vinga à sua beira.

Sob a influência clandestina da Companhia de Jesus duplicam-lhe os dias dos Exercícios, apesar de já serem vinte aqueles que carrega, na tentativa inútil de a submeterem, tentando que ceda, que opte pela submissão cega. Mas, desobedecendo, ela continua a preferir o universo da Luz ao mundo das trevas, para o qual o clero lhe aponta.

Aliás, não é a fé total e obscura que desejam dela?

É tarde, a hora de deitar passara há muito. Iluminando a noite, o céu espalha os seus luzeiros ao longo do negrume do vale. Sentada nas macias folhas do outono que entretanto chegara, Leonor fixa as estrelas lá no alto, sentindo a mão do pai na sua, como quando em liberdade ambos iam pelos jardins da casa a descobrir os astros. E finalmente sabe com exactidão aquilo que quer fazer da sua vida.

Então recua, recusa, nega-se a professar.

Para prisão basta-lhe a que lhe impõem há seis anos, sem que jamais, por um só dia, tenham conseguido proibir-lhe o sonho. A partir desse momento a decisão está tomada: escolhe o destino entretecido pela poesia.

Não carece de outra desmesura.

†

«Como cresceu depressa!» – pensa frei Alexandre da Silva, olhando Leonor que, de olhos baixos e de joelhos, reza à beira do altar, depois de se ter confessado. Desde a sua chegada a Chelas ainda menina, é ele que a tem escutado em confissão, entusiasmando-se com a sua cintilante inteligência e invulgar maturidade, sensibilidade extrema e perspicácia.

Entretanto, ganhara-lhe afeição, verdadeiro carinho, e quando pode defende-a da má vontade e das intrigas das religiosas que dela se queixam ao arcebispo, ao próprio Sebastião José de Carvalho e Melo, recente conde de Oeiras, ou até a El-Rei D. José.

Reconhece ter-lhe ouvido ao longo dos anos, muitas vezes mesmo sorrindo a coberto da penumbra do confessionário, os seus remoques e comentários impiedosos mas argutos a propósito da vida no convento de Chelas onde tem crescido, assim como sobre a maioria das freiras, a quem na intimidade trata por esdrúxulas. E quando a Companhia de Jesus, servindo-se de todos os meios, tentara levá-la a professar, recomendara-lhe prudência e reflexão, sabendo que ela acabaria por tomar a decisão acertada.

Rapariga já quando criança, e agora quase uma mulher, diversa e cheia de ambição e de vida, ansiando por alcançar o esplendor e nele cumprir um destino desmedido. Admira-lhe o saber, a cultura, as Luzes raras no sexo feminino amordaçado, e até mesmo na grande maioria dos homens portugueses. Sem hesitação nem receio, tem vindo ao longo dos anos a incentivar-lhe os estudos solitários, reconhecendo e elogiando-lhes as qualidades, tal como as ousadas leituras necessárias para o desenvolvimento da mente. Neste momento, porém, estremece com a rebeldia dos versos que ela lhe entrega, confiando-os ao seu discernimento.