As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 200 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

Mansa.

Imensos olhos de pervinca parecendo fitá-la.

 

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CADERNO

 

«Eu sou uma criatura do mundo e não de um estado, de uma cidade em particular», escreveu Diógenes. Afirmação que neste final do século XVIII continua a ser de uma surpreendente modernidade.

Soubesse eu manter até ao fim dos meus dias, em coerência e ousadia, o desprezo que ele sempre demonstrou pela opinião dos outros, e conseguir viver em conformidade! – Invejo-lhe o cosmopolitismo…

Lisboa, 7 de Dezembro de 1789

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Pelo meio das suas visões, dos seus espantos e tristezas por onde se move aterrada, D. Maria consegue fixar o pensamento em Leonor e falar-lhe em surdina. Voz que se turva e quase se extingue, abafada pelo ruído da chuva e dos trovões, do vento uivando lá fora, dos raios iluminando de quando em vez as vidraças das janelas.

Supersticiosa, a Rainha manda as aias correrem os cortinados de veludo e espevitarem as chamas que, baixas e incertas, mal penetram as humidades que os madeiros ainda verdes trazem entranhados, fumando na lareira de borralho mortiço.

Mas a Rainha não se queixa de frio, nem das correntes de ar que, céleres, percorrem os seus aposentos durante o inverno. Romeira curta em lã fina a agasalhar-lhe o peito mal coberto pela camisa de dormir, ela encolhe-se inteiriçada, deixando o terço escorregar do colo e cair no tapete persa, onde fica enrolado sobre si mesmo.

Olhar semicerrado pela vaga de medos que novamente a ganham, esvai-se num desmaio lento e sem alarde. Vendo-a desfalecida, Leonor debruça-se sobre ela e, tentando chamá-la à realidade, dá-lhe a cheirar os sais que a camareira lhe traz aflita, logo correndo a procurar ajuda. E vendo-se sozinha com a Rainha, agora desperta e mais calma, agarrando-lhe os dedos gelados e trémulos, tenta num atropelo lembrar à Soberana o pedido que lhe fizera há meses, a fim de Carlos Augusto ser nomeado para um importante posto do Exército.

– Vossa Alteza prometeu-me!

Apesar de aturdida, D. Maria dá-se conta da súbita dureza agreste da voz da sua valida, da impiedade do seu olhar inflexível.

†

Como estamos distantes

amiga da minha vida

sem nos aproximarmos uma da outra. Longe mantém-se o teu pensamento e o teu coração desde que regressaste, para mim nada sobrando do batimento dele, neste tumulto onde me perco em sobressalto, sem nenhum direito à satisfação a nosso respeito, ao mero contentamento. Aflige-me ver-te, Leonor, do modo como chegaste, tão calada, tão distante, tão apática, volvendo o pensamento para situações e momentos que tu mesma tornaste inexistentes, na altura em que os traíste ao largá-los, trocando-os por este teu presente.

Mas terei direito a queixar-me? Afinal, o que poderei eu dizer-te que já não saibas sobre o desassossego dos afectos, o desacerto do corpo perante a sua desmesura, as tantas contradições que nos dilaceram, o eterno duelo entre a razão e o coração? Embora continuemos ambas a fingir-nos de gelo.

Mal desembarcaste, grávida, verificando a tua ansiedade, não pude deixar de sofrer a representação do teu desgosto, sem entender a razão oculta da tua tristeza, da tua fadiga, o segredo da tua apatia, teimando em me afastares, embora de maneira delicada e fugidia.

Aflita e duvidosa, tenho vindo a calar o pensamento, sem querer voltar a incorrer em precipitados juízos, pois entretanto, Leonor, aprendi a respeitar o direito das pessoas ao seu silêncio.

Mais do que nunca, «posso afirmar-te que não me passa pelo pensamento escandalizar-me que não me confies quanto te pertence»: os teus segredos são da condição dos teus mistérios.

Ofendes-me se me achas capaz de te julgar quer pelos teus actos quer pelas tuas ideias, «além de que ninguém me constituiu tirana dos corações das minhas amigas; mas já me julgas com justiça se crês que sinto como próprios os teus interesses».

Só te peço que lembres com carinho esta tua eterna amiga, e de mim te aproximes quando o ânimo ou a vontade to permitir.

Deus me preserve do desgosto de te perder.

Tua fiel e cativa

T.

Vimieiro, 30 de Dezembro de 1789

†

O menino doente está sempre à espera que a mãe o vá agasalhar à cama: mãos de seda a aconchegarem-no, alisando a dobra fina do lençol de linho bordado, junto ao seu rosto.

Mesmo no escuro apenas iluminado pela lamparina ou as frestas das portadas das janelas por onde entra o luar, adivinha-a a aproximar-se, passo leve e deslizante ao longo do corredor. Odor a nardo e a gardénia quando sobre ele se debruça, palma fresca a tactear-lhe a ardência da testa.

Inquieta.

Carlos Agrário tenta prolongar o prazer acicatado pela aflição materna e a tristeza pardacenta que lhe enlanguesce as pupilas se ele piora, sentada na cadeira a seu lado a humedecer-lhe com água de rosas os lábios gretados, a secar-lhe os suores da febre. Reconhecendo, mesmo no delírio, os pulsos dela a voarem perto dos seus olhos, conduzindo o movimento alado dos seus dedos leves numa espécie de carícia intocada, a amaciar-lhe as têmporas e as pálpebras doloridas.

Cada dia mais fraco, erra entre as horas de torpor e o momento em que torna a si a procurar-lhe o halo da silhueta. E se em vez dela encontra a figura de Thérèse e o seu cheiro áspero, chora de mansinho sem força já para os soluços, teimando em manter-se consciente até à chegada da mãe.

Há noites em que lhe parece escutar as ondas batendo no casco do paquete, como se ainda viessem de viagem, manta enrolada nos joelhos a defendê-lo do vento, ou de quando o pai o levava ao colo até ao extremo do convés e, zangada, ela se erguia num grito sufocado, temendo que ele piorasse.

Sem saber como aliviar o filho, Leonor ora o tira de entre as roupas, ora o deita e tapa, ora o embala, ora o larga e foge do clima sufocante do quarto fechado, a cheirar a morte. Tanto o rejeita como o guarda, protegendo-o dos outros, a afastá-lo de todos.

Inconstante.

Mas até da sua inconstância o menino gosta, a contar os minutos, se for preciso as horas, à espera de ela voltar, a fingir-se alegre, como se continuasse a ser possível ele vingar, crescer até se fazer homem, fugindo-lhe do colo onde agora se enrola, se aninha como um pássaro moribundo, febril e sonolento. Mesmo quando dócil estende o bracinho franzino para a lâmina do estilete que o sangra.

Cada vez mais débil, o mal a invadi-lo com acinte.

Doença que Carlos Agrário deseja, porque isso ata a mãe a seu lado, debruçada junto à cama, de onde acaba por levantá-lo para o apertar ao peito, deixando-o assim provar o mel dos seus cabelos soltos ao longo do pescoço morno, ao qual ele encosta os lábios crestados. E a partir desse momento vê o quarto ganhar um tom mate tingido pelo matiz dourada e sobrenatural, numa luz refulgente tingida pelas brasas e as chamas que trepam pelos toros e as achas na lareira, como última tentativa de amenizar o crescente frio que Leonor sente estar a invadir o quarto.

Por vezes ela embala-o, e não querendo que o filho morra, leva-o de novo ao peito tentando prendê-lo a si mesma. O menino ainda se apercebe do seu gesto apertado, desesperado, mas embora deseje muito fazer-lhe a vontade, não pode continuar a viver: o seu corpo sem alento não tem salvação possível.

Numa tarde estiolada, julgando adormecer nos seus braços, respirando-lhe o perfume da pele clara, Carlos Agrário escancara muito os olhos verdes, como se quisesse escapar ao crescente negrume que tudo cobre e tolda à sua volta.

E finalmente perde-se em si mesmo.

†

Quem a convida para ir a uma reunião da Nova Arcádia é Francisco Ferraz Bingre, que conhecera pouco antes de ele se ter afastado de Lisboa.

A primeira sessão a que Leonor comparece passa-se em casa de Teresa de Mello Breyner, onde o grupo se reúne às segundas-feiras para discutir literatura. Privilegiam a poesia, lêem versos, dão motes uns aos outros a partir dos quais glosam, tecem, improvisam, a fazerem-na recordar os outeiros de Chelas, por entre as grades do convento, impregnados do cheiro dos círios e do incenso que chega da capela.

No entanto não passam de meras semelhanças pois a realidade é bem diversa, começando pela liberdade de que agora usufrui, a ausência de Correia Garção, de Filinto Elísio, de Sebastião José Ferreira Barroco, de quem nunca mais teve notícias. Substituídos agora por Curvo Semedo e Catarina de Lencastre, Caldas Barbosa e António Ribeiro dos Santos.

Ela e Teresa são as únicas vindas dos outeiros, habituadas pois ao debate, à agilidade do raciocínio, ao improviso, ao uso das palavras, ao jogo dos versos, a tomarem para si as raízes da arte poética. Agora, porém, para além da poesia há ainda a filosofia, a música e não raras vezes a astronomia, a botânica, a matemática. Em tardes mais leves e alegres, cantam modinhas brasileiras, esboçando passos de dança.

Discutem sem entraves todos os temas, numa entusiástica troca de ideias e pensamentos livres, sempre partindo ou chegando à política, enquanto bebem chá ou licores em translúcidos cálices de cristal. Havendo ainda o toque de requinte encontrado pela amiga: amêndoas e fruta cristalizada, tâmaras e figos servidos ao crepúsculo em pequenos pratos da Companhia das Índias.

Nas jarras do salão de Teresa, as begónias e as orquídeas adormecem de tédio.

Às quartas-feiras, as reuniões realizam-se em casa do conde de Pombeiro, onde Leonor raramente vai, mas conhecendo-lhes os pormenores por Catarina de Lencastre: durante longas horas almoçam perdizes estufadas, empadas de lebre ou arroz de pato. Sobre a mesa comprida coberta pela toalha de linho bordada a crivo, os criados vão pousando as terrinas dos enchidos, enquanto outros servem o vinho tinto. No final, já no escritório, tomam café em chávenas de prata cinzelada, e bebem vinho do Porto e de anis, licor de poejo e de limão, de casca de laranja amarga.

Logo nas primeiras assembleias em casa de Teresa, um rapaz magro, sombrio embora truculento, muito pálido mas de face viva, onde ardem uns inesperados olhos azuis, cabelos revoltos do tom da madeira clara, chama a atenção de Leonor. Perguntara à amiga quem ele era e ela respondera-lhe, sorrindo, tratar-se de Manuel Maria Barbosa du Bocage. Mal o ouve declamar, gosta do arrojo dos versos, da vergasta arrebatada e corajosa, da ousadia cruel e sarcástica; demorando-se com gosto na novidade e no atrevimento, no incêndio desabrigado daqueles poemas.

Implacáveis.

– A vossa pena não poupa nem perdoa nada a ninguém? – acaba por lhe perguntar numa tarde quente, enquanto se demoram junto de um longo renque de acácias no jardim dos condes do Vimieiro. Respondendo ele com a audácia do sedutor e a ambiguidade cortês que também sabe usar: