As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 10 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

Desembarcados que são da armada da Índia no porto de Lisboa, beijada a família, afagados os netos que ainda não conheciam e cumprimentados os fidalgos que os esperam, distrai-se Leonor de Távora, demorando o passo, a olhar o céu de Portugal, azul-cobalto naquela manhã de estio, antes de aceitar a mão desenluvada de Francisco de Assis para subir os dois degraus da carruagem enviada pela Coroa a fim de os levar ao Paço.

Haviam partido a caminho da Índia com as despedidas solenes e a confiança de El-Rei D. João V, entretanto morto, e no regresso deparam-se com a ausência da Corte, sinal da hostilidade gélida de D. José entretanto coroado Rei de Portugal, que encontram na companhia do seu secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo. Homem baixo, ainda novo, lábios de lâmina afiada, olhos pequenos, argutos e escuros que neles se fixam, como se pretendessem ler-lhes a alma; particularmente atento à marquesa de Távora, que estremece ao sentir a sua atenção fascinada, arrepio a subir-lhe no corpo delgado vestido de seda natural cor de amora selvagem, plumas tom da aura dos anjos a temperarem-lhe o toucado com langores imprudentes.

No semblante fechado do Rei, não obstante as suas palavras amáveis, está patente a vontade de os afastar, impaciente por vê-los partir, a ponto de interromper o marquês de Távora quando este relata os últimos tempos passados em Goa.

Varre-se então dos lábios de Leonor de Távora o hermético sorriso de circunstância e, em vez de se manter afastada dois passos atrás do marido como impõe o protocolo da Corte, avança com a ousadia destemida e destemperada por demais conhecida dos que com ela convivem, temível e soberba na determinação altiva. Mas lindíssima também, tanto na doçura como na agressividade que naquele momento lhe marca as feições.

Atento à sua beleza que o deslumbra, Sebastião José entende o perigo no qual Francisco de Assis não repara, e avança, cruza-se com ela, fixa-lhe fugazmente o olhar violeta e detém-na, ao inclinar-se à sua frente enquanto lhe diz em voz baixa: «Creio que a senhora Marquesa gostará de saber a extrema satisfação de El-Rei com a argúcia política e as vitórias alcançadas por vosso esposo o Marquês, enquanto Vice-Rei da Índia…» Voltando-se em seguida para o marquês de Távora, acrescenta: «Tenho a honra de comunicar ter sido V. Ex.a elevado ao cargo de Inspector General de Cavalaria do Reino.»

«Como se fosse uma esmola dada por favor» – pensa Leonor de Távora, sabendo não poder o marido recusar a nova dignidade, mas ansiando por isso. Aliás, daquela audiência, estranha e detesta tudo: a aspereza mal encoberta do Soberano, a falta do fulgor habitual em recepções do género, a mesquinhez da dádiva, a mediocridade do disfarce do ódio recolhido do secretário de Estado. Mas ensombrece mais ainda quando este passa a elogiar os serviços prestados por ela enquanto estiveram em Goa, permanecendo num silêncio contrariado até ao fim do hipócrita discurso laudatório. E torneando com habilidade a obrigatória resposta agradecida, pede a mercê de serem levados à presença da Rainha D. Mariana Vitória e de D. Maria, Princesa do Brasil.

Enquanto seguem o camareiro pelos corredores sombrios até à real câmara, sente Leonor de Távora o coração desacertado numa espécie de aviso, premonição de negrume.

Angústia recolhida a apertar-lhe o peito.

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