As Luzes de Leonor
Despedida de Maria para Leonor
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DESPEDIDA DE MARIA
PARA LEONOR
Tão somente no silêncio me digo, e a ti minha irmã,
tão próximas que já estivemos e não agora, nestes dias que nos consomem longe uma da outra, e nesta longitude sempre descubro nossas dissemelhanças e parecenças. Mas apesar de sermos duas, continuamos metades como laranja cortada ao meio, cheiro intenso no matiz ácido do hálito, Leonor, que o rosmaninho crescido sob as janelas dos nossos antigos quartos secou quando partiste, ágil na pressa de fugires, deixando-me para trás. Sei de cor em mim este desgosto e sentimento de injustiça, pois nunca a sorte me dotou senão de angústias, embora eu nunca deixasse de sorrir, e até tu me ralhavas acusando-me da minha transparência e riso fácil, sem saberes quanto eu chorava às escondidas; e tudo o que comia era engulho demais para o meu estômago.
Febre numa vibrante tensão encoberta, enquanto tu, mana, muito concentrada lias, e quando ambas escrevíamos jamais os meus versos aos teus se igualavam, conhecedora eu dessa diferença apesar de simular o contrário, pois jamais me foi difícil fingir a alegria, mesmo quando, ao pôr os vestidos que deixavas por já não te servirem, me remoía por dentro; e nos meus cabelos lisos, ao contrário dos teus, atava os laços que não querias de ruços que estavam, e neles eu sentia ainda o calor dos dedos da mana, posta breve no olhar demorado que tinha, quando os poetas vinham encontrá-la na grade onde os recebíamos, faceira ou terna conforme calhava, e eles a chamarem-na diversa ou diva, mais deusa que musa dos poemas que escreviam.
Tal como nós fazíamos versos no silêncio da cela,
eu numa tal reinvenção de ti, que confundia mais do que se fôssemos gémeas, em simulação de tudo, Leonor, e eu tremia afastando o sono, a preferir então tomar do fel o gosto; e isso me afundava e perdia, reconheço, agora que te foste de mim e me lamento sem ter mais tempo para o usar contigo, e por isso te escrevo como quem fala, irmã, sem perceber porque te digo mais dos desfavores que dos acertos das duas, ambas as partes da nossa face inteira, que nos separam e nos juntam, mana, e ainda assim tanto nos diferenciamos.
Nesta simulação de vida que não tenho longa, mana, a escapar-me já por entre os dedos; e talvez por isso subo, me ergo e voo no espaço onde o sonho é tudo o que me resta. Réstia de luz onde me agarro e largo, me solto e de novo me seguro ou levito, o coração tão leve que nem o sinto no peito, nem o rubi do sangue nas veias do meu corpo; cereja de gosto escondido em tal gozo, minha irmã, que isso me assombra e assusta tanto que retorno, fecho as asas e baixo, desço, assento os pés no chão do quarto, deito-me ao comprido na cama onde ardo, me gasto; lastro de sorriso amargo ao ver as Parcas dia após dia avizinhando-se; minha flor, não contes tornar a ver-me pois estou perto do fim, onde tudo é negro e nefasto, ao contrário do arco-íris do nosso início, quando os actos e as cousas nos desafiavam as ideias e nos acendiam a vontade de saber. Já nem sei colar os estilhaços da alma, confesso, e assim me quedo no fundo do abismo, a tocar o avesso de todos os meus antigos motivos de esperança.
Deste modo me diluo, me esqueço e desvaneço, Leonor; desejando estar mais perto da tua força que da minha fraqueza, pois só hoje verdadeiramente te entendo irmã e te aceito no alvoroço da ida para longe. A viagem permitindo a amplitude que também poderia ter sido a minha, porque afinal só nela inteira a dor se disfarça, repousa o desencanto todo na soleira das lágrimas e eu me vou e escapo e esgueiro, me alteio na fibra do que é calmoso e desperdiçado, desmanchado num árduo labor no sufocar dos dias que me restam e guiam através do meu destino imposto. Tu bem o sabes, jamais te submetendo, rebarbativa e insolente. Maneira de te afirmares e de existires, espelho onde se reflecte a minha tristeza.
Desse modo me apago mais ainda, desapareço, aceitando os caracteres celestes que isso determinam; e este será o meu fim, sem que por tanto me enfraquecer alguém se compadeça da mulher mínima e medíocre em que me cumpro, no contrário de ti, mas sem desgosto nem nenhuma inveja. Motivo pelo qual te peço: não me chores, irmã, nem deixes que te apaguem o brilho, a cintilação vigorosa, nem largues a ambição, a arma escondida do assombro e da determinação. Nunca troques, Leonor, o fogo pela sombra, nem iludas a paixão, a força de vontade, o carácter forte.
E deste modo te aprontas e também te aproprias da escrita,
que é da salvação a única maneira.
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