As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 156 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Na penumbra retalhada de sol, que se esgueira pela frincha da porta, Philippe espera-a, junto à grande pia de água benta.

Intranquilo.

Ao contrário dela,

o mistério do amor eterno perturba-o.

 

†

DIÁRIO

 

Chegou-me o livro que encomendei a uma livraria de Paris: De l’Infini de l’Univers et des Mondes, de Pierre Borel, que mistura, numa linguagem aparentemente precisa, matérias científicas com temas filosóficos e princípios teológicos.

Na sua leitura reencontro com satisfação as estrelas da minha infância, mostradas então por meu Pai, desde sempre interessado pelos astros. Afinal, bem mais científico do que Borel, que nos propõe a entrada «nestes altos globos» a fim de encontrarmos a eternidade!

Phillipe descobre encantado o meu interesse pela Astronomia e pela Botânica, e troça do gosto de Borel pela vida eterna. A ele basta-lhe a poesia e viver com paixão.

Com fulgor.

Os nossos passeios a cavalo pelas matas e pelos bosques nas cercanias de Avignon enchem-no de um tal prazer, que lhe fazem cintilar como constelações os imensos olhos verdes.

Avignon, 30 de Agosto de 1785

†

Ainda o conde de Oeynhausen está longe de Portugal, já a Corte fervilha com mil suposições sobre o que teria levado o embaixador em Viena a abandonar o seu cargo na Áustria, para vir desavisado até Lisboa,

meter-se na boca do lobo.

O arcebispo de Tessalónica corre em alvoroço a contar o boato à Rainha, mas ao encontrar a Princesa do Brasil nos corredores do Palácio de Queluz, e conhecendo-lhe a grande simpatia por D. Leonor de Almeida, confidencia-lhe a sua grande preocupação, pois tendo sido pela boca de Martinho de Melo e Castro, opositor confesso do conde de Oeynhausen, que soubera a novidade, logo também ficara ciente, pelo seu tom de escárnio, da mesquinharia dos comentários a respeito da sua próxima chegada.

D. Maria Francisca Benedita mostra-se igualmente apreensiva e promete interferir jundo da irmã, a Rainha, no sentido de esta receber o conde e julgar com brandura os seus motivos e explicações.

Mas o arcebispo, bom conhecedor do Paço, detectara no ar o cheiro a fel da cilada e da intriga; contribuindo para a sua perspicácia, o ter avistado a um canto da Sala da Música, em íntima conversa, o visconde de Vila Nova da Cerveira e Aires de Sá e Melo,

olhares enviesados em torno,

de quem combina planos escusos, em voz de segredo, por demais comedida.

Também Teresa de Mello Breyner é informada da vinda do marido da amiga pela sua tia Josefa de Menezes, camareira-mor da Rainha D. Maria. Só dias mais tarde receberá a carta de Leonor, a pedir-lhe para influenciar o duque de Lafões a favor de Carlos Augusto, no sentido de o ajudar a singrar pelos meandros da política portuguesa e a defender-se dos ministros do Reino que, alegremente, tentarão destruí-lo.