As Luzes de Leonor
1788-1789
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O mar e o sal das vagas fazem-lhe bem, acalmam-na e apaziguam-na. No crivo das ondas, o paquete frágil corre o mais que pode, e ela passeia vagarosa no convés, sempre sozinha, cabelos húmidos e revolvidos pelos ventos livres do oceano.
Secretamente ansiosa por não chegar a nenhum lado, para sempre prisioneira de um eterno mar de palha, que em torno dela fechasse o seu torpor acalentado pela natureza. Ao fim das manhãs as meninas aparecem pela mão de Angélique, sobem no pequeno degrau junto à amurada, e demoram-se por sua vez a olhar em frente, um pouco atemorizadas. Juliana prefere ficar dentro do barco, diverte-a andar de sala em sala, a ver os homens sentados diante das mesas de pano verde a jogarem às cartas e aos dados, enquanto as mulheres conversam entre si, bebem chá de groselha em chávenas chinesas, ou anis em pequenos cálices translúcidos.
«E as minha ilusões, onde ficaram?», parece perguntar Leonor a si mesma. Mas as suas ilusões desabaram com a morte do Príncipe D. José e do arcebispo de Tessalónica, com a queda do poder da Princesa Maria Francisca Benedita e com a depressão da Rainha, consciente de ter perdido os seus maiores apoios na Corte.
De momento nem a poesia consegue embelezar-lhe os sonhos.
À medida que ganha distância dos acontecimentos, lamenta muitos dos seus actos, mas também a aflige não ter aproveitado o tempo passado em Almada para se aproximar de Leonor Benedita, pois sempre que podia fugia para o Paço a juntar-se à Soberana e aos seus ministros, às princesas com os seus poderes menores mas reais, que sempre iam servindo para lhe acalentar a esperança.
À noite, recostada nas cadeiras do convés, às vezes parece-lhe que voa, outras julga retardar-se sobre as ondas, durante o seu regresso tranquilo e felizmente demorado a casa, vendo Frederica e Juliana encantadas com a viagem, enquanto ela aproveita para descansar, momentaneamente livre de obrigações e fardos que sempre arrasta atrás de si. Sem nada que a sujeite, apenas dependente dos ventos, das marés,
e do temperamento dos mares.
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Espera-a com saudade, mas assusta-o o seu regresso.
A acalmia que a sua vida ganha quando Leonor parte termina com a sua vinda, transportando consigo o fascínio e a inquietude que o levam à perturbação. Carlos Augusto conhece-lhe a estranheza, as pétalas abertas no reverso do peito que sempre transforma em versos. Diversa das outras mulheres, aquietadas no próprio sossego.
Exasperante e intranquila, ela desassossega-o e também o derruba, condenando-o e apaziguando-o, como aliás demonstram as suas cartas enviadas de Lisboa, nas quais lhe dá conta tão depressa dos avanços como dos recuos da sua actuação na Corte, junto da Rainha e dos seus ministros, em relação aos negócios dele que a tinham levado a Portugal.
Por seu lado, em vez de ficar com os filhos em Marselha, deixara-os para trás à guarda de estranhos, e fora para Paris, a gastar o que não podia com o dinheiro que ela lhe mandava.
Hoje vai esperá-la a Toulon, sentindo o peso da culpa.
Com preceito metódico abotoa a farda, endireitando-a com os dedos firmes, a espada a acompanhar o declive delgado da ilharga, sem dar conta de como a lâmina implacável, apesar de embainhada, lhe bebe com sofreguidão o calor do corpo. Olha-se no espelho a querer descobrir nos olhos neutros a centelha de alguma perseverança que nele faça manter acesa a derradeira chama da vontade.
Só poderá haver grandes silêncios no encontro de ambos.
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Thèrése depressa dá conta de que o conde de Oeynhausen anda à deriva, tentando encontrar apoios onde já não existem, querendo fazer frente às dívidas que todos os dias aumentam; transmitindo ordens inúteis para a embaixada de Portugal em Viena, para onde enviara um secretário.
À noite chega muito tarde, passando o resto das madrugadas em branco fechado no escritório, e os seus criados particulares contam que, se adormece já de manhã, só se levanta quando a noite começa a devorar os tons do crepúsculo. Anda à deriva pela casa, pálido como um fantasma, e se aparece nos aposentos das crianças, estas olham-no assustadas e desconfiadas, tendo Thèrése de as empurrar para os seus braços.
A princípio, Leonor não sabe o que fazer para o ajudar, mas depressa compreende os indícios, escuta os boatos que lhe chegam: ele não só continua a sentar-se às mesas de jogo, como tem casos breves com mulheres de passagem; e quando em súbitos assomos de virilidade assume o papel de chefe de família, tomando decisões que dizem respeiro a todos, ela encoleriza-se e recusa-se a cumpri-las.
Entretanto tinham conhecido o poeta Jacques Delille que os aconselhara a deixarem Avignon por Marselha, onde ficam no Hotel Brantes. A partir desse momento Carlos Augusto acalma, parecendo recobrar um certo equilíbrio. Leonor julga ser altura de regressar à escrita, retomar o gosto pela leitura, reaproximar-se do pensamento das Luzes, dos enciclopedistas, que a ajudam a destrinçar a claridade das trevas.
Thèrése pensa com alívio que a mudança para Marselha fez bem a todos: as crianças andam mais tranquilas e alegres, mesmo o menino tão mirrado e de respiração custosa ganhara alguma cor e peso; Frederica parece menos pensativa e Juliana mais encantadora do que nunca; por seu lado Henriqueta não chora tanto, e parece aceitar finalmente as regras e os limites que a mãe exige a todas.
Mas depressa Leonor recomeça a ficar inquieta.
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As notícias chegadas de Paris garantem-lhe ser lá que começa a ser jogado o futuro de França, e quem sabe se do mundo. Quando tem portador, Germaine, agora de Staël, envia-lhe cartas, bilhetes, mensagens; chama-a com insistência para junto dela; fala de tudo um pouco numa mistura jubilosa e inesgotável.
Curiosa, Leonor começa a observar à sua volta, prestando atenção até àquilo a que Carlos Augusto e aqueles com quem convivem teimam não passar de boatos e rumores, ou invenções de mentes exaltadas. No entanto, ela dá conta de sussurros encobertos, de gritos ainda abafados, de risos sobressaltados, inesperadamente soltos. Ao mesmo tempo apercebe-se de muitos passos furtivos e céleres que atravessam a noite a altas horas; e também de como as palavras liberdade e igualdade começam a ser pronunciadas por toda a parte; mesmo se ainda encobertas e embuçadas.
Nas ruas, nas praças, nas vielas, por onde caminha ao acaso dirigindo-se ao cais, de pedra escurecida e húmida, onde gosta de assistir à chegada e à partida dos navios, Leonor vai atenta aos murmúrios, aos papéis passados de mão em mão, ao brilho aceso do olhar daquelas e daqueles com quem se cruza.
A cada dia que passa, o vermelho dos xailes e dos lenços, dos vestidos das mulheres e das saias a enfunarem-se em torno das suas pernas ágeis, parece incendiar-se mais.
Como bandeiras rubras.
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Carlos Augusto, temeroso do que possa vir a acontecer em França, alvitra-lhe a hipótese de partirem no primeiro paquete a zarpar de Marselha ou Toulon. Leonor olha-o boquiaberta, e sem hesitar diz-lhe que vá com os filhos e os poucos criados que lhes restam, mas ela pretende ficar. Em silêncio ele escuta-lhe os argumentos – escassos, embora sustentados com veemência pelo seu teimoso entusiasmo –, e responde-lhe:
– Eu fico contigo, Nelly. Mas vais prometer-me ter cuidado.
Em vez de a atemorizar, o perigo revigora-a, e se é verdade temer pelas crianças, também logo as esquece pelo meio do tumulto que está tomando conta da sua vida. Nunca mostrando receio de sair sozinha, acaba por se demorar cada vez mais nas ruas onde, agitada, vai dando conta da revolução crescendo à sua beira, sem que a saiba ainda nomear como tal.
Mudando já o destino de todos.
A desencadear nela o amedrontamento, mas a mergulhar em claridade o lugar do negrume.
O que dizem as vozes por ela escutadas?
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Enquanto os lírios e as rosas-de-alexandria fenecem tristemente nas jarras de Sèvres e de cristal do Petit Trianon e o silêncio toma conta do Palácio de Versailles, as bandeiras começam a aparecer desfraldadas ao vento, as forquilhas e as gadanhas transformam-se em armas.
Leonor entusiasma-se, curiosidade cada dia mais desperta.
Quer ver de perto o que se passa.
Fala com Carlos Augusto, que a fita admirado ao dar-lhe a conhecer a sua intenção de ir a Paris.
– Viajar pode ser perigoso – responde-lhe ele com frieza.
Mas ela já mandara Thèrése fazer-lhe as malas, e escrevera para Germaine a preveni-la da sua viagem. Antes de partir despede-se dos filhos, mas só o menino se agarra a ela, bracinhos fracos apertados em redor do seu pescoço; Frederica fita-a de longe ressentida, enquanto Juliana a olha indiferente, dúctil no seu vestido de organdi com folho e laço de fita de cetim. Leonor inclina-se para a pequenina Henriqueta sentada no colo da ama e aperta-a ao peito sobressaltado, a tentar fixar na memória o seu cheiro alvo de criança pequena. Por fim beija na boca o marido e pede-lhe para não a acompanhar até ao carro, cansada de despedidas dolorosas.