As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 213 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

Pintar Carlos Augusto foi para ela mais um exercício de contenção do que a sublimação de um autêntico desgosto. No entanto deixa que se acredite tê-lo pintado a fim de mitigar saudades, prantos, aflições de um coração desamado; desse modo idealizando-se na imagem de viúva inconsolável. Apesar dos versos de riso que na mesma altura escreve, traindo-a, a propósito do jogo que constituira para si o misturar das tintas, o rebuscar das cores fugidias, deslembrando-lhe os vícios e os excessos, pois em sua vida ambos os haviam iludido.

Hábil a manejar o pincel e a encontrar os pigmentos, os tons com os quais obteve a expressão distante e austera que os filhos devem guardar do pai.

Quando dá o retrato por terminado, retira-o do cavalete e pendura-o na parede caiada, lisa e fria da sala de visitas, onde passa a ser a única mancha colorida, não obstante da sua tela se desprender uma incomensurável secura.

Que só ela detecta.

 

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CADERNO

 

Vou manejando o meu tempo que por aqui é bem mais dilatado do que em Lisboa: leio muito, pinto, escrevo poesia e traduzo as Máximas de São Francisco de Sales.

Trabalho também num catecismo que consiga captar melhor o interesse de Frederica, de Juliana e de Henriqueta; há que cuidar com rigor da educação das crianças, passar-lhes valores e princípios, por demais importantes.

Pus de lado Claude Fleury, Charles Rollin e o próprio Fénelon, que o meu Pai impôs para a minha educação, e que além do mais obriga a precauções no que diz respeito ao ensino da poesia, sobretudo às raparigas. Em De l’éducation des filles, Fénelon vai ao ponto de advertir que a poesia pode ser uma leitura perigosa para as mulheres.

Em que conta se têm, então, as poetisas?

Preferi seguir os ensinamentos de Rousseau e as suas ideias inovadoras, apesar de nem todas se aplicarem também ao sexo feminino! Regras que não irei seguir, embora partilhe os outros princípios do mestre, sobretudo no que se opõe à coacção e ao castigo das crianças.

Perplexa, releio Julie, ou la nouvelle Héloïse.

Almeirim, 14 de Outubro de 1793

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Sem o comunicar aos amigos, Teresa recolhe ao Convento de Santos. Bastam-lhe agora as imagens sagradas e os círios, os vitrais dobados pela claridade que filtram; não a incomodando os cheiros pesados de humidades de pedra antiga e saibro do Tejo, nem a enjoando o incenso nem o fartum das velas de sebo e das candeias de azeite, que mal alumiam os sombrios corredores e as escadarias onde se cruzam os ventos.

Ela não vai enganada, entende o que a espera.

Não tendo por hábito idealizar as situações nem as pessoas, sabe da mutilação dos sentimentos e das emoções, da perda do mundo. Para trás largara as regalias, as intimidades e os títulos, o direito a viver a própria vida. As Luzes ficaram nos espaços claros que abandonara, mergulhando consciente e de olhos bem abertos no escuro implacável dos interiores fechados, dos odores contaminados, das mentalidades retrógradas.

Conhece bem a ignorância, a tacanhez da maioria das noviças, das monjas, das freiras, as suas mentiras e intrigas, escapulários pendurados nos pescoços esgalgados, olhares de esguelha e manha, a adormecerem como quem reza durante as matinas e as vésperas, terços a escaparem-lhes dos dedos enfermiços, cilícios ferindo-lhes as carnes escondidas debaixo das vestes, feridas a deixarem cicatrizes na pele gretada que as unhas rasgam, desenhando uma teia apertada de arranhões ressumbrando sangue: pequeníssimas gotas que a estamenha dos hábitos absorve, tal como os suores, a urina e os corrimentos dos corpos das mulheres, cujos emanações se misturam com as da podridão das águas retardadas das jarras de altar com flores de caules fenecidos.