As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 135 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Eterna, porém, continua a ser a minha admiração por Alcipe.

E só por isso consigo imaginar ser ainda possível haver entre nós um novo encontro.

Aguardando resposta de Vossa Excelência.

Filinto Elísio

Paris, 15 de Abril de 1783

†

Passam tardes sozinhas, misturando a curiosidade com as dúvidas, as incertezas e as contradições confessadas uma à outra. Exacerbamentos e risos que lembram a Leonor outros tempos de amizade com Joana Isabel Forjaz. E em momento algum Carmen, duquesa de Alba, lhe parece inferior à primeira, quer nos langores, quer no empolgamento e empenhamento nas artes, quer nos esquivamentos súbitos e nas tristezas sem causa, quer ainda na riqueza das opiniões, ou mesmo nas discussões acerca de princípios e ideais em que se demoram, comparando-se entre si, sem noção do tempo que passa em correria. Debatem as novas ideias filosóficas, a modernidade em relação à escrita.

Discorrem sobre Teologia, Física e Matemática.

Mas durante os longos crepúsculos que a ambas afligem, preferem a poesia. Nunca se esquecendo Leonor de Camões, de Soror Violante do Céu e de Goethe, nem Carmen de Novalis, Shakespeare e Teresa de Ávila, poetas que tantas perturbações levantam com a sua leitura.

 

†

DIÁRIO

Há que manter em sossego o coração, fazendo com que o pensamento não se perca. Nunca se deve ceder à tentação do fácil nem à envolvente adulação que amacia a face da secura, quando a esta por demais se esteve acostumado. A severidade cansa e predispõe ao gosto do esplendor, seu oposto. Há que tentar suster a ansiedade, conter a pressa de ir, sem se saber porquê nem como, atrás de qualquer promessa inusitada.

Torna-se necessário alicerçar a razão e a sensatez

quando o coração parte à desfilada.

Viena, 25 de Maio de 1783

†

O arcebispo de Tessalónica percorre os corredores do Palácio de Queluz à procura dos ministros Aires de Sá e Melo, Martinho de Melo e Castro e do marquês de Angeja, que se encontram no Paço para despacho com a Rainha. Esta, no entanto, mantém-se recolhida nos seus aposentos.

De cenho franzido, o arcebispo evita Pina Manique que tenta detê-lo, mais adiante ignora o aceno do visconde de Vila Nova de Cerveira que o chama, e vai estugando o passo, hábito branco dos carmelitas a rojar os tapetes persas e de Arraiolos, cruz de ouro maciço pousada no peito corpulento, até ao oratório dos aposentos da Princesa D. Maria Francisca Benedita onde, não a encontrando, se persigna sem se ajoelhar na almofada de veludo vermelho colocada diante da imagem da Nossa Senhora del Carmen, e torna aos frígidos corredores do Paço.

No segredo do confessionário, D. Maria abrira-lhe a alma no respeitante à situação delicada em que Portugal e os condes de Oeynhausen passaram a encontrar-se diante da Coroa austríaca, a partir do momento em que, regressado de Florença, o enviado português dera parecer negativo acerca da presumível futura noiva do Príncipe da Beira, a Infanta Maria Teresa que, segundo o escandalizado espia, se mostra suspeitosamente interessada na leitura e no estudo de matérias como Filosofia, Geografia e Matemática, impróprias do seu sexo e da condição de uma futura Princesa de Portugal; e como se não bastasse, dedica-se ela também à Geometria e à Física, por certo descuidando prendas mais femininas.

Apercebendo-se da ardilosa cilada preparada pelos detractores de D. Leonor de Almeida e seu marido, o arcebispo de Tessalónica, prisioneiro do sigilo a que o obriga a confissão, só a muito custo consegue controlar a raiva. Embora não saiba ainda como, irá tentar tudo para remediar a grave situação na qual os condes de Oeynhausen foram colocados. Para isso continua atrás dos ministros, principais cabeças daquela conjura, que poderia ser considerada como traição caso D. Maria não fosse uma soberana tão pusilânime.

De semblante carregado, tropeça numa das anãs negras favoritas da Rainha, e aborda com modos ásperos a sua camareira-mor D. Mariana de Arriaga, querendo saber se a Soberana já fora para a Sala dos Despachos, na direcção da qual logo ele se encaminha. Sem se dar conta de que, como uma sombra, no seu traje negro, apoiando a mão balofa e enluvada na guarda de prata do espadim, Diogo Inácio de Pina Manique o segue em silêncio,

colando-se às paredes.

†

Gonçala desejaria ser uma assombrada de Cristo.

A sua ardência, porém, é já um incêndio incontrolável e o pensamento está cada dia mais distante e inconformado. Perturbada, recolhe-se na capela do convento, respirando a custo o pesado odor dos círios votivos e das flores enviadas todas as semanas pela Casa Real, por vontade expressa da Rainha.

Refugia-se no jejum, nas mortificações e nas penitências, cilícios a dilacerarem-lhe a pele dos rins e da cintura, cravando-lhe as suas farpas na carne até ao sangue. Foge de si mesma pelas veredas das perdas de consciência, dos torpores, das turvações, da privação dos sentidos, das febres inesperadas, nas vertigens por onde tomba até ao fundo de precipícios infindáveis.