As Luzes de Leonor
Convite
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«O Conde de Oeynhausen cumprimenta a Vossa Excelência o Senhor Conde de Colloredo, Comendador de Ordem de Malta; a quem tenho a honra de pedir que esteja presente amanhã dia 31 de Outubro às dez e meia na Sacristia maior junto ao grande Altar da Catedral de Santo Estevão, para assistir à Cerimónia da recepção ao cavaleiro da Ordem de Cristo, Monsenhor Gomes Freire de Andrade e Castro. O Monsenhor e Comendador achou por bem querer encontrar-se com o manto e as máscaras da Ordem.
Conde de Oeynhausen
Viena, dia 30 de Outubro de 1780»
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Sempre que entra na Catedral de Santo Estevão, Gomes Freire de Andrade sente-se prisioneiro da sua grandiosidade, que simultaneamente lhe eleva o espírito e lhe faz sentir com exactidão a pequenez da condição humana.
Encurta o passo largo, permitindo a Carlos Augusto que se distancie um pouco pela nave central, em direcção ao majestoso altar-mor diante do qual a condessa de Oeynhausen já se encontra ajoelhada ao lado da condessa de Thun; o ouro de tons diferentes dos cabelos de ambas, semeados de pregos de rubis e nozinhos de brilhantes, tem o efeito de um halo luminoso na penumbra movediça da catedral, cortada apenas pela fraca iluminação das velas e das lamparinas acesas diante das imagens sacras, em luta com a maior escuridade espalhada em torno, como um lago nocturno.
A Gomes Freire de Andrade parece que, ao vê-las, o embaixador português hesita, como se cambaleasse um pouco, e ele próprio admira-se de encontrar duas fidalgas da Corte de Viena naquele espaço por regra viril, onde terá lugar um ritual estritamente masculino do qual as mulheres desde sempre são excluídas. No entanto, tranquilas na sua imprudência, elas parecem decididas a assistir à cerimónia na qual ele será armado Cavaleiro da Ordem de Cristo.
Seja o que for que o conde de Oeynhausen lhes tenha dito em surdina, Leonor não se move um milímetro, expressão neutra, indiferente às palavras do marido. Mas Maria Wilhelmine perturba-se, e sem uma palavra levanta-se, puxa a amiga pelo braço a arrastá-la consigo, relutante e obstinada, para fora da basílica.
A distanciar-se desta cena que finge não ver, Gomes Freire de Andrade segue na direcção da sacristia maior onde o aguarda o seu camareiro com o manto e a máscara para ele usar. O conde de Oeynhausen tratara de tudo, esmerando-se em cumprir até aos mais ínfimos pormenores as directivas da Corte de Lisboa. Não será portanto de admirar que toda a cerimónia decorra com a solenidade devida aos desejos e ordens de Sua Majestade a Rainha D. Maria.
Sereno e decidido a que o seu desempenho corresponda às mais firmes convicções, Freire de Andrade dedica-se com rigor a cumprir o cerimonial. Mesmo a voz, que de si já tem forte e grave, ganha ainda maior volume e intensidade mal começa o juramento:
«Eu, Frère Gomes Pereira Freire de Andrade e Castro, Cavaleiro da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, faço profissão a Deus, e a vós Senhor Conde Ernest de Herbstein, Bispo d’Eucape, Cónego capitular das Igrejas Catedrais de Passau e Freising, Provisor da Igreja, Colegiada de Santo André, Oficial e Vigário Geral da Diocese de Passau e Áustria Baixa, em nome da Rainha Nossa Senhora, como Governadora, e perpétua Administradora da dita Ordem cuja pessoa representais…»
Miríades de velas entretanto acesas nos lustres de cristal e nos múltiplos castiçais e tocheiros de prata lavrada e de madeira entalhada fazem sobressair as flores e cintilar as pedras preciosas das coroas e das vestes longas dos santos, levando-lhe o olhar a seguir o seu oscilar tremeluzente. Acostumado no entanto à disciplina a que se obriga, o tom usado por Gomes Freire de Andrade ao pronunciar o seu juramento vai subindo de intensidade à medida que a solenidade prossegue, num encadeamento que ele sabe de cor:
«… obediência, castidade conjugal, e Pobreza conforme os Estatutos desta ordem até a minha morte, a Sua Majestade, e a todos os Mestres, e Governadores que ao diante em minha vida canonicamente à dita ordem vierem. E prometo de viver, e morrer nela guardando inteiramente seus Estatutos, e definições…»
Inesperadamente, dois vultos surgem do fundo do templo num silencioso passo alado, a dissimularem-se pelo negror das naves laterais, presos a cada uma das palavras do juramento que termina com extrema singeleza:
«… por cuja fé e testemunho fiz e assinei esta Carta de minha mão nesta Catedral de Viena d’Áustria aos 31 de Outubro de 1780.»
Apesar de ter seguido sem hesitações até ao termo da cerimónia, ele não deixara de reparar na lenta movimentação dos intrusos através dos negrumes da Catedral, adivinhando-lhes no andar e na postura rígida os corpos contraídos e tensos dissimulados sob as amplas capas de veludo negro.
E quando o vêem dirigir-se ao seu encontro, os embuçados esgueiram-se cosidos às colunas da igreja. Antes de desaparecerem, porém, detêm-se por momentos a cruzarem o seu olhar de lume com o aço do olhar de Gomes Freire de Andrade.
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Minha Condessa