As Luzes de Leonor
Diário
Recusara ambos os convites, o que torna agora impossível aceitar o de Catarina que, interdita, dá conta dos olhos marejados da amiga.
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DIÁRIO
Há demasiada dor na minha dor.
Descrevo-a por verso, como se a impusesse a mim mesma e também aos outros. Não me refiro tanto à natural e branda mágoa que faz parte do luto por Carlos Augusto, mas à outra dor maior, mais forte e antiga, com a sua acidez de lâmina afiada cravada até ao sangue que jorra no interior do meu peito; dor que em mim se alenta e de mim se alimenta, sendo eu pão e leite, seu fruto e flor de sal.
Melancolia ou espinho envenenado
a dilacerar-me os lugares vulneráveis do corpo, os silêncios da alma. Depois de tantas lutas e decepções, desencantos e humilhações, de tanta esperança lograda, preciso de algum tempo sozinha, longe da Corte e fora de Lisboa, a ganhar forças para começar o futuro. Irão supor que cumpro o meu papel de inconsolável viúva portuguesa.
Ao calar-me, eu consinto.
Lisboa, 22 de Março de 1793
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Pedro volta de Inglaterra na semana seguinte à morte do cunhado. Vem desencantado, descoroçoado com a sua primeira experiência de guerra, frustrado e sem ânimo para passar à irmã, que encontra trancada em casa como em Portugal é dado fazerem as viúvas. Mas não por certo Leonor que, arredia a nostalgias e a superstições, sempre contrariou hábitos, tradições e preconceitos.
E diante dela não cuida de disfarçar a estranheza e o desagrado que o seu comportamento lhe provoca, considerando-o impróprio do seu temperamento e mentalidade.
«Desde quando começaste a desistir de ti própria?» – pergunta-lhe. E ela cora de vergonha, sem no entanto negar a melancolia onde sente afundar-se, num abandono de si desconhecido, acabando por confessar de um só fôlego:
«É o desânimo, Pedro, é o desânimo, sem vontade que estou de me impor a mim mesma e ganhar forças», não entendendo já se necessita da turbulência da poesia ou do descanso enovelado dos livros. Teresa recomenda-lhe Almeirim, Catarina quer levá-la para a sua casa de Sintra, o pai puxa-a para Almada, num subterfúgio de quem apenas pretende voltar a ter perto de si Leonor Benedita, sua neta de eleição.
À pergunta muda e aflita dos olhos da irmã, apenas lhe responde:
– A escolha é tua, mana, apenas tua. Aliás, tu sempre sabes o que queres para a tua vida.
Leonor encolhe os ombros com desânimo. Afinal, só os versos lhe valem. E mal o irmão parte, volta a mergulhar nos poemas de Goethe.
Como quem se refugia.
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Depois de decidir o que quer fazer da sua vida, Leonor vai ao Palácio de Queluz para dar conta à Princesa Carlota Joaquina da sua intenção de passar uns tempos em Almeirim, na quinta cedida por seu pai, «que como Vossa Alteza tem conhecimento, continua a viver na casa de Almada».
Vai vestida de seda e rendas negras da Holanda. Usa um pequeno chapéu sem véu, de penas pretas, que lhe tolda de sombra o dourado do cabelo basto e encaracolado.
Carlota Joaquina, que a recebe nos seus aposentos reclinada em almofadas e envolta num xaile de caxemira, estende-lhe a ponta dos dedos morenos e vê-a curvar-se um tudo-nada, como se Leonor fosse aflorá-los com a boca sem carmim, mas na verdade deixando o beijo suspenso na comissura dos lábios.
A Princesa do Brasil, que sempre a achara orgulhosa mas também bonita, inteligente, ambiciosa, e gosta de a ter entre as suas damas de protecção, olha-a condescendente, sem no entanto esconder o seu desagrado quando ela lhe dá parte da decisão de se afastar da Corte; acabando secamente por lhe negar a permissão para tão impensável distanciamento quando mais necessita da sua companhia. «No momento de dar à luz, quero ter a senhora condessa por perto!»
Leonor desce os olhos ao colo de seda, a pesar os prós e os contras da ordem que a futura rainha de Portugal acaba de lhe dar. E antes que o silêncio entre ambas tome um carácter demasiado pesado, levanta o seu olhar de disfarce para a Princesa do Brasil, e com palavras simples agradece a honra que lhe fora concedida.
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As cartas que lhe chegam de França confirmam os seus piores pressentimentos: o sangue continua a correr nas ruas de Paris, Avignon e Marselha, de onde lhe escreve Delille, que em certo passo indaga com desânimo:
«Tudo isto, senhora condessa D. Leonor, em nome de que liberdade?»
Assusta-se sobretudo por causa da intensidade apaixonada de Théroigne, conhece-lhe as posições políticas extremadas e o carácter arrebatado que a leva a mandar-lhe bilhetes curtos e aturdidos, repletos de um entusiasmo todo ele feito de utopia.
Ela vive em pleno sonho.
Sophie de Condorcet, pelo contrário, faz-lhe relatos demorados, minuciosos e preocupados, como se estivessem vivendo numa perigosa situação sem saída. Já Germaine de Staël mistura o tom e a visão de ambas em palavras voadas, apressadas, numa esperança retardada e temerosa, a temperar um desencanto e a esconder uma melancolia sem medida.
Leonor percebe
que Paris nunca mais será solução para a sua vida.
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Gonçala sente estar a adoecer.
Dorme mal, emagrece, tem tonturas e desmaia na capela do convento, de joelhos na pedra gelada e toldada pelas humidades do rio, que no inverno parece querer inundar o vale de Chelas. E nessa espécie de transpiração malsã, demora-se a rezar o terço, cumprindo todas as horas canónicas, num esquecimento e estremecimento dos sentidos que já lhe esmorecem.
A vara e o bastão não se encontram do seu lado. Antes sim o côncavo, a nesga, a fenda, a racha, a escassez do pouco que resta de si mesma. Ergue os olhos para a imagem de Santa Rita de Cássia, sem já saber o que é real ou inventado, de infortúnio e maciez feminina, acrescentando o nada e o pleno às palavras sagradas que antecipa, com quem as recorda e as traz ao cimo da verdade.
Evangelho segundo Maria Madalena…
– Habibi… Habibi…
«Não me poderás tocar» – adverte-a Yeshoua, mas ela sente-o com os dedos do corpo e vê-o com os olhos da paixão – «apostola apostolarum»…
Gonçala sente-se cercada pelo negrume.
Oblívio… Oblívio…
Oblívio, ousa finalmente enunciar num murmúrio; e se ao fundo do túnel ainda há alguma luz, por elipses momentâneas e escassas, ela vem da volúpia de pronunciar o nome de Leonor, de o reter intacto na sua memória vacilante. Amiga afastada há tanto tempo, que Gonçala não consegue mais determinar quanto. Mas ao tomar conhecimento da sua viuvez, um fio de brandura sedosa à mistura com o espinho da crueldade despertara nela uma vaga clareira de esperança, levando-a a imaginar ser possível o seu regresso ao convento como tantas outras viúvas solitárias.
Sem Leonor não se entende, nem nada existe, sem Leonor não sabe desejar cousa alguma. E os joelhos esfolados de arrastar em vãs promessas às santas iluminadas por círios votivos postos nos castiçais de prata dos altares, deixam um rasto de sangue na pedra salgada pelo travo do mar que o Tejo arrasta, numa mistura de oceano
e lágrimas.
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É bom que eles continuem a entreter-se com os versos, pensa Pina Manique, satisfeito, ao vê-los distraídos do que se passa no país, longe dos sobressaltos políticos.
Só a condessa de Oeynhausen lhe dá preocupação com a sua irrequietude determinada na ousadia, mesmo se ensimesmada no seu sobressaltado luto de viúva recente; sem no entanto iludir o desafio crispado dos lábios, a determinação do claro olhar revolto ou as cartas que recebe vindas de Paris e Marselha.
Suspeita das ligações dela ao estrangeiro, das suas amizades duvidosas, dos livros perniciosos que manda vir de fora divulgando ideias revolucionárias, obras de filosofias que levam ao desacato, à violência e ao caos, como está a acontecer em França. Farpas, gumes e lâminas prontas a cruzarem a fronteira do peito ou a precipitarem-se no pescoço apetecível da realeza.
Por tudo isso o Intendente-Geral da Polícia está atento a Leonor de Almeida, que apesar da fidalguia e apessoamento feminino delicado, educação conventual e rígida, segundo ele, guarda um ânimo varonil que o confunde e agasta, coração agrilhoado por sentimentos ruins a seu respeito.
Nos últimos tempos, porém, julga vê-la a participar mais comedida nas reuniões da Nova Arcádia que ele mesmo faz questão de espiar; mais empenhada em dissertações literárias do que em dicussões políticas, envolvendo-se na análise dos versos que declamam, sem levantar procedimento de cuidado.
Mas Pina Manique teme que não tendo os poetas pouso certo, se fartem e desistam, se dispersem e afastem do seu oculto controle, semeando a inquietude e a rebeldia sabe-se lá por onde. Ultimamente Bocage fora visto pelos «moscas» a beber em botequins e tabernas, boémio e afrontoso, sátira de faca afiada a retalhar tudo e todos sem dó nem piedade.
Não obstante, a condessa de Oeynhausen, mesmo depois da morte do marido, continua a recebê-lo na sua assembleia literária, onde se reúnem os artistas de momento mais conhecidos. Sempre que vem a propósito não deixa de lhe elogiar o talento, protege-o junto da Princesa Carlota Joaquina, tendo esta já cometido a imprudência de o convidar para serenins e concertos no Palácio de Queluz e até para algumas caçadas na tapada de Mafra.
O Intendente-Geral da Polícia chega à conclusão de que é melhor criar condições para os árcades poderem acalentar a sua inofensiva imaginação poética, enquanto ele vai, habilidosamente, dando laços que acabarão por os ligar ao poder. Assim, num aparente gesto de generosidade, disponibiliza-lhes instalações no Castelo de São Jorge para lá estabelecerem a sede da Nova Arcádia.
E, no cumprimento de um plano perfeitamente elaborado, convoca-os a celebrarem, durante uma sessão no Paço da Ajuda, o recente nascimento da princesinha D. Maria Teresa.
Constrangidos, eles acabam por aceitar, embora incomodados e cabisbaixos com a cedência que os apouca e os compromete com a Corte, por eles tantas vezes sarcasticamente criticada.
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O Príncipe D. João boceja, ansioso por regressar a Queluz, desinteressado dos versos e dos poetas estranhos à Corte, canhestros nos fatos coçados mandados engomar à pressa para a Real Sessão na qual se celebra a vinda ao mundo da princesinha da Beira, Dona Maria Teresa, sua filha.
Atento apenas aos momentos musicais, quando os poetas actuam D. João afasta-se. Não antes de procurar com os olhos o Intendente-Geral da Polícia, a tranquilizar-se com a sua presença, e a verificar se sua mãe a Rainha continua calma junto da condessa de Oeynhausen que, atenta, lhe compõe de vez em quando o vestido e o manto em torno das pernas.
Só depois D. João vai refugiar-se atrás das cortinas de damasco, onde toma assento numa cadeira de espaldar forrada de cetim dourado, desatento às palavras empoladas dos vates, que sem grande convicção se levantam dos mochos onde estão sentados para declamarem de pé os poemas decorados, ou que ali mesmo improvisam, como Bocage, em verso heróico.
Um torpor irresistível, no entanto, acaba por fazer cabecear o Príncipe, que depressa cai num sono sobressaltado, defendido pelos cortinados lavrados de verde. O lábio inferior pendente e grosso, rosto moreno cheio e apático, ressonar brando e discreto.
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Vestida de cetim negro com rendas de Bruxelas, Leonor encontra-se junto de D. Maria, que se mantém calada e entorpecida devido ao láudano que o dr. Tamagnini lhe receitara e D. Mariana de Arriaga, sua dama de honor, lhe dera a beber em pouca quantidade, não fossem os desacertos e os desabafos depressivos e espavoridos da Monarca estragar o festejo.
Tão habituados à sua apatia como às suas aflições, poucos reparam no olhar perdido da Rainha, ora pousado na afilhada à sua beira, ora nos poetas sentados em mochos ao fundo do salão, com ar contrito e cabisbaixo.
Por seu lado Pina Manique, sem deixar de vigiar Leonor, de quem segue os movimentos de impaciência mal contida, temendo que ela destrua a apatia da sessão com os seus imprevisíveis arrebatamentos, acaba por se dirigir à camareira D. Maria Xavier Botelho, sua amiga, a pedir-lhe que a mantenha ocupada junto da Soberana. Mas só descansa quando Bocage, entusiasmado, improvisa em verso heróico a propósito do nascimento da princezinha da Beira, e Francisco Joaquim Bingre, tão pouco dado a falar em público, acaba por fechar a sessão improvisando em prosa.
Perto dos cortinados por trás dos quais se refugiara o Príncipe D. João, o Intendente dá conta de um desconhecido que, tal como ele, tenta entender o sentido do olhar de seda dobada de Leonor de Almeida, no qual se reflecte a desaprovação irritada com a inesperada atitude amistosa e ridente dos poetas da Nova Arcádia. Os dois acompanham-lhe de longe os movimentos, leque a ocultar o rosto, quando ela se afasta de junto da Soberana para ir refugiar-se num canto de recato, a defender-se do luzimento dos tocheiros, das velas do lustre de cristal e das chamas trémulas dos candelabros dispostos nas mesas de pau-santo.
E quando Nicolau Tolentino a descobre enovelada na sombra e lhe oferece companhia, ela sobe a mão enluvada de noite no seu braço, fitando-o agradecida pela galanteria e a delicadeza do trato. O vestido de negrume acentua-lhe a palidez da pele, afina-lhe o porte, tornando-a mais magra, mais nova e grácil.
Pina Manique tenta avaliar-lhe o desalento na enigmática expressão do rosto, de quem cede na razão em prol dos sentimentos. Mas reparando-lhe na vivacidade dos olhos que, segundo ele, contraria em tudo a indiferença do modo derrubado, desconfiado de tamanha languidez e abatimento, por parte de alguém com o seu carácter voluntarioso,
manda dois dos seus sicários segui-la.
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Luísa Todi repara como as rendas de luto da condessa de Oeynhausen sublinham a sua magreza pálida mas não menos altiva do que há alguns anos atrás, quando se conheceram em Viena e ela lhe fechara a porta de sua casa.
Atenta, acompanha-lhe a lentidão dos movimentos, o vagar ensimesmado com que move o leque negro junto à face, jeito artificial a querer arranjar disfarce para o olhar letal que de raspão lhe lança.
Rancorosa.
Admira-lhe a constância do ciúme e da hostilidade, mesmo agora com o marido morto. Julgando e condenando a sua infidelidade de que, aliás, jamais teve provas. E nenhuma das duas desvia os olhos uma da outra; entre elas estão as memórias, diversas, que guardam de Carlos Augusto.
Um mesmo arrepio envolve-as e trespassa-as, cabelos revolvidos pelo vento que de súbito se levanta do Tejo, aragem fria subida até às amuradas de pedra grossa do Castelo de São Jorge onde se encontram, fustigando os convidados que vieram até à Casa Pia a fim de ouvir Todi interpretar a cantata de Cavi, La Preghiera Exaudita.
Em homenagem à princesinha da Beira.
Perdendo de vista Leonor de Almeida, a cantora sobressalta-se e dissimuladamente procura-a, mas logo adiante pensa adivinhar-lhe o vulto delgado esgueirando-se na sua direcção; inquieta, julga-se perseguida, mas logo se apercebe do engano e pára enervada, envergonhada.
Rodando, afasta-se,
erguendo com os dedos trémulos o vestido magenta com o delicado forro de seda em tons de malva, a aparecer por entre a fina racha quase encoberta pela roda da saia.
De súbito estonteada, ampara-se a uma das ameias, que lhe magoa o braço enluvado. Fecha os olhos admirada consigo mesma, descobrindo-se temerosa diante de tamanha turvação dos sentidos.
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Entre os inúmeros vestidos mandados fazer por Carlota Joaquina para usar nos festejos em sua honra, pelo nascimento da primeira criança que põe no mundo, a infanta Maria Teresa, a Princesa do Brasil acaba por escolher, para levar à inauguração do Teatro Real de São Carlos, o de seda vermelha, de corpete lavrado com diamantes e ametistas. Aquele que melhor combina com os seus nervos desabridos desde o parto da princesinha, logo entregue às amas do Paço. Trouxeram-na duas ou três vezes a visitá-la, sumida nas cambraias e nos tules, nas rendas rosadas e brancas, touquinha de fitas a descer-lhe na testa morena; mas impacientara-se diante do seu olhar ausente, amodorrado, e recusara-se a pegar nela.
– Levem-na! Levem-na! – gritara, o abundante leite dos peitos a encharcar o peitilho da camisa de noite que, enojada, cobre com a romeira de lã arrepelada pelas unhas frementes.
Decepcionada consigo própria.
Delgada desde pequena, seios de fruto, lisa de ventre, a cintura fugidia, rebela-se agora diante do espelho, ao dar conta do novo talhe do seu corpo: barriga dilatada e coxas grossas a repuxarem a saia, larga nas ancas e nas ilhargas que o vermelho do fato de gala sublinha, amplia. Impaciente, batendo com o pé descalço no tapete de Arraiolos, manda que lho dispam.
E atirando para o chão o colar de rubis e safiras, arrancado do pescoço alto, decide-se pelo vestido preto, esperando com ele parecer mais delgada, embora os rigores da Corte proíbam o negrume do traje em circunstâncias de júbilo.
Seda nocturna a contrastar com o cabelo de fogo mal domado, onde coloca uma tiara de pérolas e turquesas, em torno da qual se frisam os caracóis rebeldes em desalinho, mal encobrindo a penugem húmida da nuca, mas a enquadrar-lhe a longa face transtornada pelo carmim excessivo.
D. Joaquina de Mendonça, sua camareira, pinta-lhe os lábios e sublinha-lhe as pálpebras pesadas com um fino traço de açafrão dourado; ainda assim a Princesa acha-se pálida, esvaída, devastada. Nas últimas semanas só bebera água de rosas, presa de um golpe de febre alta, que os físicos da corte diagnosticaram como sendo devida à subida do leite nos seus peitos doridos.
Recusara os remédios e as sangrias.
E mesmo febril, deixara o ninho da cama onde deveria guardar resguardo durante meses, e com a ajuda das suas damas abrira o boudoir a quem lhe aguardara o regresso aos folguedos de Queluz, onde passou a divertir-se com os jovens fidalgos que de imediato acorreram aos bailes e aos concertos improvisados. Com as suas damas espanholas voltou a entoar em castelhano malaguenhas dolentes, numa mistura sensual onde o português por vezes assomava, fazendo confundir as letras harmonizadas pela música.
Olha-se então ao espelho, vestida de negro, parecendo-lhe mais finas as generosas curvaturas da sua figura alta; e manda buscar a capa de seda verde forrada a cetim branco debruado a ouro e com as armas da coroa portuguesa bordadas a diamantes e safiras junto ao ombro direito. Antes, porém, coloca ela mesma nas orelhas pequenas os pendentes de brilhantes e pérolas, tal como as sete escravas de ouro nos pulsos morenos, pois gosta de escutar o seu tinido de sino longínquo, ao baterem umas nas outras rolando desordenadas ao longo dos braços. Por fim diz a Leonor para lhe escolher o leque e as luvas, que desde menina ela detesta, preferindo manter nuas as mãos ossudas e escuras de cigana.
Era já tarde quando partiram do Palácio de Queluz a caminho de Lisboa, para a inauguração do Real Teatro de São Carlos, no faustoso coche que é devido à sua condição de futura rainha de Portugal.
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A lâmina da guilhotina, onde por um brevíssimo segundo se reflecte o sol ácido da primavera, precipita-se rápida sobre o pescoço muito branco e frágil de Maria Antonieta, a golpeá-lo de chofre, fazendo a sua cabeça rolar para longe, mas de imediato erguida e segura pelo cabelo basto, rosto distorcido e lívido de cera ensanguentada que o carrasco mostra à multidão apinhada e uivante; passos que ele mede andando em torno com vagares de teatro, no chão nauseabundo do cadafalso.
Leonor, que começara por se recusar a acreditar na notícia mandada por Germaine em carta reenviada de Lisboa, acaba por ser obrigada a aceitá-la, aturdida com os pormenores macabros; revoltada com a maneira humilhante como a Rainha de França fora levada numa carroça imunda até ao cadafalso, vestida com o seu puído fato branco, meias pretas de seda e sapatos cor de abrunho, touca com duas fitas de nastro e um pedaço de crepe negro cedidos pela carcereira apiedada com a sua sorte. Pulsos amarrados um sobre o outro com uma corda grossa e cortante, cruzada duas vezes e crivada de nós corridos.
No entanto, muitos julgam adivinhar nela a mulher altiva que tinham conhecido ao vê-la caminhar para a morte no dia 16 de Junho de 1793, imagem fixada aliás por David num esboço impressionante: sentada na carroça logo atrás dos cavalos, faces devastadas e olhos gastos pelas lágrimas, lábios esmaecidos e cabelos brancos, momentos antes cortados à tesourada pelo verdugo Charles Henri Sanson.
Leonor recorda-a de uma beleza esplendorosa, mas lembra-se também do seu sobressalto dos últimos tempos, olhar de desordem já toldado por uma onda de negrume e medo, embora o orgulho ainda assomasse por entre um novelo de sombras. E todas as vezes que relê a carta de Germaine, parece sentir de novo o odor intenso da pele leitosa de Maria Antonieta, entretecido pelos perfumes de rosas e violetas, numa mistura de chama.
Para sempre apagada.
Sentindo as pernas trémulas, Leonor apoia-se melhor ao tronco grosso e áspero do carvalho, debaixo do qual fora buscar refúgio, como se a natureza a ajudasse a respirar melhor, conseguindo afastá-la da terrível notícia recebida.
Pensamento distante, a rememorar as palavras da Imperatriz Maria Teresa de Áustria quando, fragilizada pela doença, num último e demorado particular, lhe falara da filha que enviara para França a fazê-la rainha contra sua vontade: «Tornei a minha filha uma mulher muito infeliz, senhora Condessa de Oeynhausen!» – desabafara em surdina, como se falasse consigo mesma, remoendo culpabilidades.
Leonor ergue os olhos, parecendo querer abarcar o céu toldado de chumbo, sem conseguir distinguir uma só estrela entre a chuva e as lágrimas.