As Luzes de Leonor
Diário
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Acabo de pedir a Sua Majestade uma licença para que Carlos Augusto possa vir ter comigo e com as nossas filhas a Portugal, trazendo com ele Henriqueta e Carlos Agrário. Tenho esperança que nos seja concedida, pois se é preciso esperar em Paris, onde tudo é tão caro, seria então preferível que ele o fizesse em Lisboa. «Sua Majestade vê evidentemente as razões que obrigam a isso», e ninguém duvida do desejo de meu marido servir e de ser útil ao nosso país.
A resposta deverá ser positiva, caso não passe pelo crivo de Martinho de Melo.
Lisboa, 3 de Junho de 1788
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Às vezes acontece-lhe sentir inesperadamente o cheiro inconfundível da clausura, numa mistura do sebo das velas consumidas até ao coto e entornando-se ao longo dos candelabros de bronze e de prata, do azeite queimado pelas lamparinas bruxuleantes de luz difusa postas aos pés das imagens, do ferrete da humidade a supurar nas paredes de pedra grossa e depois em pequenas gotas, que tremeluzem como lágrimas.
Nesta amálgama confusa, encontra-se também o toque a podridão da água das flores olvidadas nas jarras dos altares da capela do convento de Chelas, e o rastro cediço dos sangues aquecidos do corpo, escusos e furtivos, a escorrerem por baixo dos hábitos das freiras, fedendo quando um passo mais largo ou apressado lhes ergue as saias pesadas. Assim como a acre mistura de suores reprimidos e de hálitos azedos, que nem a doçura da madressilva e da lúcia-lima vinda da cerca do mosteiro abrandava.