As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 18 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

Elas cultivam a desobediência e os rancores, sarcásticas e vingativas. Regem-se por regras próprias na recusa das nossas, das quais sabemos que zombam, pois deste mosteiro nada aceitam de bom grado, nem tão pouco nos respeitam, chegando a confrontarem-me, a afrontarem a minha figura de prioresa há tantos anos do convento de Chelas, Senhor Arcebispo da Lacedemónia.

Elas questionam os dogmas, duvidam da fé, não cortam a raiz da tentação e das dúvidas como boas católicas; por isso também os seus pensamentos jamais se harmonizarão com os nossos princípios. Corre-lhes nas veias sangue envenenado e ruim dos Távora.

Elas espalham a desordem,

Senhor Arcebispo da Lacedemónia.

 

†

CADERNO

 

A razão sem o coração, assim como a inteligência sem a emoção, acabará por se transformar em esterilidade, infecunda e inútil.

E isso desagrada-me.

Mais do que nunca, hoje é necessário descobrir, encontrar o cerne, o núcleo da harmonia.

Da sua metáfora.

Para a nomear, ou para a iludir?

Chelas, 22 de Outubro de 1768

†

Quando Leonor faz dezoito anos, Pedro António Correia Garção, além de lhe dedicar um belíssimo poema que lê alto no parlatório, dá-lhe uma turmalina vermelha encastoada em platina, pendente de um fio de ouro, que ela esconde na palma da mão fechada e, sonhadora, leva em seguida aos lábios.

– É a vossa pedra solar – explica ele, olhos cor de avelã meigos e sérios como sempre.

Leonor admira-o e respeita-o. Gosta de tocar ao de leve nos seus ombros magros e sentir o cheiro a sândalo, a tabaco e a livros encadernados a couro que dele se desprende. Ninguém como Correia Garção sabe escutar-lhe os versos, adivinhando nela já a mulher debaixo dos vestidos demasiado simples para a sua idade: seios altos a despontarem sob a seda e a treparem ávidos nos decotes pequenos, cintura estreita a recusar espartilho. Sem carnes, no requebro do corpo, que estando embora a ganhar formas continua a guardar uma doçura esgarçada de menina.

Mais tarde, no abrigo da cela, Leonor olha a turmalina de cereja carmim, no repouso macio da palma da mão entreaberta, e dirige-se para o espelho mal dissimulado entre os inúmeros desenhos colados na parede. Nele, fita as largas íris de cinza-azulada que a imagem lhe devolve, desaperta a faixa da cinta e encosta uma cadeira alta à fraca fechadura da porta. E só depois, com vagares de quem hesita, desabotoa um por um os botões de madrepérola do vestido que lhe cai aos pés, e em seguida as saias de sombra com ruídos de cetim ou tafetá. Por fim, deslaça os cordões cruzados do corpete, e num súbito gesto tira pela cabeça a curta camisinha transparente.

Está quase nua quando, soerguendo os braços, retira as travessas de tartaruga e os ganchos de prata da ondulação dourada dos cabelos, que como uma cascata de veludo resvalam tépidos pelas costas despidas, e só então pendura no pescoço de cisne a corrente de ouro com a pedra escarlate, que fica suspensa, pingo de sangue entre os seus pequenos peitos nus, mamilos apertados de frio. Mas sobeja ainda roupa para ela tirar: os saiotes de pano cru com goma, as culotes de linho, e por fim as meias de lã escura e grossa, que faz escorregar ao longo das compridas pernas arrepiadas.

Leonor olha-se atenta, permitindo que as mãos passeiem, indecisas, por sítios até aí interditos, reconhecíveis apenas pelo tacto esquivo; lugares que os dedos têm evitado e agora descobrem, desvendam, com uma curiosidade sôfrega, prestes a ceder ao insistente desejo. Com acanhamento afasta devagar as virilhas que mal desviadas logo cedem a entreabrir-se, deitando-se ela tremendo na cama estreita, a perceber espantada que, apesar do inverno antecipado no frio de Outubro, o seu corpo escalda, queima, palpita, estremece, e pela primeira vez lhe escapa.

Instintivamente acaricia o velo de cedro penumbroso, bosque arruivado a ensombrar-lhe o cimo das coxas; curva-se de novo e, admirada, vai tão longe quanto pode na abordagem tímida dos lábios de anil da molhada boca do seu ventre. A separá-los: penetrando, afagando-os, a sentir nos dedos uma humidade lenta, um orvalho dolente, uma resina turva.

Ali, onde há sucos e gosto sem ferida.

Ali, onde há fenda, há céu, há mar.

Mato de se perder na busca da vertigem no assombro da ousadia do acto; gosto e travo a rosa insatisfeita, odor de chuva, de cardo, de almíscar. Perfume de nardo a desatar-lhe os nervos, enquanto persegue o improvável mapa do delírio: mais acima a mina, e logo abaixo o poço.

Modorra de papoila a florescer no alto, a entumescer ao tacto.

Prazer diverso e gozo que a muda, e ela transgride, voa, cresce. E tanto no clítoris como na vulva, o bordado a cheio vai-se enredando, matizando, vai-se demorando nas caprichosas cores, nos desenhos, nas misteriosas linhas de agulha onde se enleia. Veia que o fogo entorna, toma e incendeia. Na procura do êxtase.

E Leonor ondeia.

Rola enovelada em cima do leito onde se distende, roda e cede a galgar o parapeito de si própria, deixando a razão apagada à cabeceira.

Rodopia.

Resvala.

Mãos descendo e subindo, indo e vindo, na descoberta dos desvãos, do topo, dos secretos recantos de segredo, em todos os lugares e tempos que o orgasmo guarda.

Entorna.

Derrama.

Grita e explode.

Gemendo sob o pulso que lhe amordaça a fala pelo próprio avesso. Assim leve, assim solta, assim livre, Leonor corre, voa, nada, desvenda.

E finalmente foge.

Consigo mesma.

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