As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 136 de 289

Páginas do PDF

As Luzes de Leonor

Diário

A memória do deleite e da amenidade afligem-na. O total esquecimento seria o supremo alívio.

Mas como fazer para deslembrar Leonor?

Desde a saída dela do convento, um leopardo começara a aparecer-lhe durante as noites, correndo em silêncio em torno da pequena cela, onde as humidades turvam de névoa o ar que ela respira. De madrugada, debruçado nos seus lábios,

ele bebe-lhe o delírio.

 

†

DIÁRIO

 

É insensato relembrar o passado.

Assim como é imprudente não esquecer quem ficou para trás, âncora que nos prende pela saudade à desordem dos sentidos, nada acrescentando já ao nosso presente.

Tenho para mim ser preferível manter a atenção num projecto de futuro, elaborado com cuidado e rigor a partir do pensamento e da reflexão, diante da complexidade e da perplexidade da dúvida.

Oh, a dulcíssima neblina do esquecimento!

Viena, 15 de Junho de 1783

†

Carlos Augusto recua, quando o Imperador José II, que o convocara de urgência ao palácio de Schönbrunn, lhe diz sem contornar a questão:

– Vossa Excelência pode mandar dizer à Rainha de Portugal, que se a Infanta D. Maria Teresa, minha sobrinha, não tem valia para casar com o Príncipe da Beira D. João, a Princesa sua filha D. Mariana Vitória muito menos a tem para casar com o Arquiduque Maximiliano Francisco, meu irmão!

†

O Imperador afasta o olhar endurecido da palidez cadavérica do conde de Oeynhausen, que considera um ministro plenipotenciário civilizado e até cordato, com quem foi fácil negociar os gorados contratos de casamento de seu irmão e sobrinha com os príncipes de Portugal.

Informado por espiões colocados nos lugares certos, está ciente de que no centro de toda aquela intriga quase caricata se encontra o conde alemão, a quem muitos fidalgos portugueses não perdoam ter-se casado com a melhor descendente dos Távora, protegida ilustre da própria Rainha.

Desse modo, o plano ardiloso do qual fazia parte a ida a Florença, com o pretexto de examinar a jovem arquiduquesa Maria Teresa, sua sobrinha, e em seguida denegri-la diante da Soberana de Portugal, levando-a a desmanchar o casamento já aprazado por ambas as partes, tinha como finalidade a queda do embaixador português em Viena.

Mas embora lamente vê-lo em semelhante situação, o Imperador não voltará atrás na decisão de ruptura. Para ele, deixara de haver qualquer possibilidade de futura negociação nupcial.

†

Que tristeza é a de Maria, senhora minha Mãe?

Nas cartas que minha irmã me envia, há um marulhar de lágrimas docemente oculto sob as mais ternas palavras, na tentativa de acalentar-me o ânimo cabisbaixo: com a sua habitual bondade, olvidando-se a si mesma, sem pensar em queixar-se, numa humildade tão extrema que poderia correr o risco de ser interpretada como soberba. Ninguém melhor do que ela para me acolher as melancolias, me acobertar os desmandos, me consolar os desalentos, me embalar as tristezas mal cicatrizadas, sem jamais aflorar as próprias mágoas, a não ser pelo lado da superficie das águas inquietadas e limosas de uma penumbrosa cisterna.

Que tristeza é a de Maria, senhora minha Mãe?

Dos seus infortúnios a mana nunca me fala, como se o seu trato fosse com a felicidade; mas no uso da transparência não pode haver disfarce para a devastação, por onde suspeito evadir-se. Tal como ela conheço a aflição da perda de um filho, dor imensa a arrepanhar as entranhas, o único desgosto que o tempo não esbate; mas pressinto haver na sua atitude um outro negror, um desespero mais ferido, senhora minha Mãe, a impeli-la sem remédio para o fundo do precipício, aprisionada a devaneios sem retorno. Ocasionando-lhe os delírios e os desfalecimenos, alimentando-lhe as visões que se multiplicam e intensificam, a deixá-la exaurida.

Que tristeza é a de Maria, senhora minha Mãe?

A que anjos e arcanjos se refere a mana em arrebatamento esquivo, confessando-se transportada em sonhos na travessia de desconhecidos espaços, como se trespassada já pelas farpas do martírio, que na sua ânsia desmedida a levariam à sublimidade? Em busca da transcendência impossível! A que orações ela se entrega a desapegar-se do mundo? Tão nova e já afastada dos prazeres da vida, preferindo transes e levitações a que se entrega, subindo até ao cimo da luz de onde se despenha. Distanciando-se, desacertada na lonjura, etérea e alada naquilo que escreve, me escreve, cada dia mais grave e meiga em desapego solto.

Que tristeza é a de Maria, senhora minha Mãe?

«Não basta já de casamentos nefastos na nossa família?» – perguntou-me a mana na sua última carta, referindo-se ao mano Pedro, que por aceitar a vontade de nosso Pai se vê aprisionado por laços dados em ligação indesejada; desta maneira confessando-me Maria o próprio mal e infortúnio, fruto do seu casamento infeliz, prefiro dizer fatal. Mas sempre vos ouvi gabar os benefícios e as bondades do conde da Ribeira Grande, a quem sem custo nem qualquer hesitação minha irmã foi cedida, no desrespeito da própria vontade. Por isso indago de novo: que tristeza é a de Maria, senhora minha Mãe?

†

Depois de interrompidas as converesações para o seu casamento com o irmão do Imperador da Áustria, voltam a deixá-la na ignorância do que está a ser decidido sobre a sua vida embora saiba ser o centro das negociações políticas entre sua Mãe a Rainha de Portugal e o seu tio D. Carlos III, Rei de Espanha.

De cabeça baixa, a princesa Mariana Vitória terá de aceitar o que lhe imponham; consciente de a sua sorte estar a ser dobada, espécie de novelo de lã, por mão afeita aos fios cardados. Lágrimas recalcadas na escuridez dos olhos melancólicos, silenciosa e triste, a infanta, depois de muito escutar pelas frinchas das portas, por trás dos cortinados de veludo, ou dissimulando-se por entre os arbustos dos jardins do Palácio de Queluz, acaba por entender que vai casar com o Infante D. Gabriel de Espanha.

†

Existe em Maria uma faceta perturbadora de obscuridade translúcida, inexplicavelmente matizada por inesperadas reverberações, cintilações, laivos de cristal lapidado na sua falsa mansidão propícios aos desvanecimentos, a esvaimentos absurdos e desmaios súbitos.

Um lado de oferta total de si mesma na entrega, de aceite e anuência e receio de pequeno animal a ser preparado para o sacrifício. Deslaçamento dos sentidos na tendência para a imolação através da dádiva do corpo, sem esquecer a preferência do espírito, maneira esquivosa de se aproximar do sacrifício; e isso a fragiliza, a expõe, equívoca na sua quase transparência austera e severa delgadeza: cada dia que passa mais vulto, mais sombra dela mesma, sumida na teima de desvanecer-se no queixume que solta, quando ele ao senti-la escapar a prende nos braços, possuindo-a, para em seguida a esmagar sem dó nem piedade.

O conde da Ribeira Grande gosta de vê-la quebrar-se pela cintura, sem o esboço de um gesto de defesa, numa palidez de morta, espalhando à sua volta um odor a pétalas fanadas, a caules de flores apodrecidas, a êxtases.

A sua indiferença desperta nele a desordem, a crueldade viciosa, a violência tórpida, incontrolável, grosseira e avassaladora, que simultaneamente o desgasta e enlouquece, invadido por uma raiva surda que o inunda, tomado por um cupidez já sem controle. E a sua mão sobe, suspende-se durante um breve segundo para logo descer, atravessar rápida o curto espaço que os separa, a atingi-la de lado golpeando-lhe a fonte e a testa; e a mão bate com a força que pode, no seu rosto de ossos à flor da pele, em seguida na cabeça, nos ombros delicados; depois, em baixo na maciez do ventre, no peito quase liso de menina assustada. O braço erguendo-se e vindo, os dedos como garras, anel de brasão a deixar um rasto de negrume na pele alvacenta. Furor enlouquecido a querer chegar ao sangue dela, ansioso por magoá-la, por mutilá-la, por estilhaçá-la, estilete de ódio a penetrar com vagares de sedução no seu coração de gelo, para em seguida lhe aflorar a morte com os lábios ávidos.

O conde da Ribeira Grande gosta de assistir à sua queda, que no último instante impede arrastando-a para a cama, pois é quando mais goza ao possuí-la à força. A desejá-la na recusa, no desdém, na esquivação, na tentativa de escapar ao peso do seu corpo, enquanto ele a empurra de bruços na colcha de cetim.

Por vezes finge desistir, com o prazer que o predador sente ao enganar a presa, deleite de marido a usar o que lhe pertence, afastando-lhe os cabelos negros a fim de lhe observar a cara e tentar atingir-lhe a alma através do olhar assombrado.

Lábios brancos como cera ou flor de magnólia onde introduz a língua invasora, a degustar o ligeiro travo a láudano do seu hálito e da saliva toldada. E quando Maria geme, repugnada, ele morde-lhe a curva da garganta, sobe-lhe o vestido de seda verde-líquen ao longo das pernas, que tentam unir-se numa fraca e última defesa. Mas ele afasta-as, a dobrá-la para a frente, a arregaçar-lhe as saias até à cintura, rasgando-lhe com os dentes o corpete e com as unhas afiadas a camisa solta, as meias, as culotes com uma nuvem de rendas na bainha estreita.

Depois de a ter desfrutado levanta-se descomposto, excitado por a ter violado. Vencedor, olha-a como um despojo, largada e lívida, enrodilhada sobre si mesma; desacordada, corpo imóvel e exangue, trilhos de sangue a escorrerem em dócil lentidão por entre as coxas esquálidas.

Em nenhum momento sentira despontar em si a compaixão, a piedade. A única emoção que o conde da Ribeira Grande conhece é o regozijo. Demora-se a fitá-la inanimada, mais do que nunca sua depois de a ter forçado, amo e dono, a atenção fixa nos lenhos, nos golpes, nos hematomas, nas nódoas negras dos seios de rola, nas ancas lisas, nas contusões da pele violácea esfolada, no corpo de compleição febril espancado, a fim de lhe apreciar melhor a dor quando rememorar a cena e desse modo tornar a assistir à destruição de Maria, dela retendo apenas a ferida simbólica

de rosa de Alexandria.

†

Tal como das outras vezes, o marquês de Alorna hesita em quebrar o lacre da carta da filha rebelde e desobediente que tantos desgostos lhe tem dado desde a saída do convento. Se bem que já antes julgara adivinhar, debaixo das devotadas palavras de submissão e humildade, um preocupante tom de rebeldia camuflada. Desconfiara, também, da sua sobressaltada defesa de autores cujas ideias e filosofias traziam consigo o travo revolucionário das leituras clandestinas.

Abre a gaveta onde guarda as outras cartas que acabara por ler empurrado pela curiosidade e prazer da sua leitura, mas às quais nunca dera resposta. De sobrolho carregado desvia os olhos, a mão intranquila parecendo afagar a faca de marfim com a qual acabará por cortar o selo de lacre. Mas antes levanta-se para trancar a porta do escritório, e volta a arrastar o passo, com vagares de empenho na própria demora.