As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 152 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

Quando por fim Francisco de Assis ajusta a espada à ilharga magra, Leonor de Távora, que o olha junto da janela aberta sobre a varanda, sente um súbito desfalecimento; cambaleia com uma lividez doentia, têmporas humedecidas e uma agonia fina a trespassá-la, num presságio ruim que mais parece um aviso. Mas nos braços do marido que corre a ampará-la sorri feliz, tentando apaziguar o coração a bater aflito no peito, ao qual levara as mãos trémulas.

Francisco de Assis abraça-a, beijando-a na boca como sempre quando estão sós, e ela entrega-se cedendo à paixão que continua a fazê-los vibrar junto do corpo um do outro. Mas desta vez Leonor de Távora afasta-o, desconhecendo ser a última vez que o vê e beija, embora adivinhando a desgraça a rondar à sua volta, roçando nela a ponta da veste negra.

Ele ainda insistiu:

– «Vem comigo, amor da minha vida, vem comigo!» E sai insatisfeito por ter de ir sozinho ao baile da Feitoria Inglesa, para o qual ambos estão convidados.

Senta-se ela na borda da cama cobrindo os olhos a tentar sossegar e, julgando-se mais calma, levanta-se, a sentir de novo o coração oprimido pela dúvida que a toma de assalto.

Lá fora o sol demora-se nos jardins, onde os netos correm a esconder-se por trás dos grossos troncos dos cedros ou a refugiarem-se na mata um pouco mais ao fundo. Ouve-lhes os gritos e as risadas e dá conta da chegada da pequena Leonor, que em vez de brincar com os primos sempre prefere ir para junto dela, numa ligação estreita firmada uma com a outra. Cumplicidade que crescera nos dias seguintes ao Terramoto, na casa do Campo Pequeno, transformada numa espécie de hospital para os feridos vindos de Lisboa e onde toda a família se refugiara.

Atrás de si alguém entra sem bater. Volta-se e vê a neta a olhá-la, semicerrando os olhos, e mal lhe abre os braços a menina corre a refugiar-se neles, que se fecham em seu redor. Mas logo D. Brites Fernandes, sua dama de companhia, lhes interrompe a conversa, murmurando aflita:

– Senhora Marquesa, estão a dizer que tentaram matar El-Rei!

Leonor de Távora sente a vista toldar-se, e um inesperado gosto a fel amarga-lhe a boca; sem demora ordena que aprontem a carruagem a fim de mandar os netos para junto dos pais. A menina, não querendo deixá-la, chora sem ruído, comportada como é de educação e feitio. A avó acalma-a, desatenta, o pensamento em Francisco de Assis, ansiosa por tê-lo de volta e ouvi-lo garantir serem boatos e invenções o que dizem, a confirmar-lhe estar tudo sereno e calmo.

Lembra-se de ter estranhado a acalmia que durante o dia rondara a sua casa, habitualmente ruidosa. Sentira-se mesmo aliviada por ter tido tempo para si própria, coisa tão rara, e ao recordar-se disso Leonor de Távora é percorrida por um calafrio que a abala.

Veste à neta a capinha de veludo azul-cobalto, ajustando-a ao seu corpo espigado, a defendê-la do frio agreste daquele Dezembro triste. Em seguida empurra-a com ternura, a apressar-lhe o passo retardado e miúdo, até ao carro para o qual a menina, auxiliada pelo cocheiro, sobe a contragosto a juntar-se aos primos.

Não sem antes se terem despedido a olharem uma para a outra, estremecidas, como se adivinhassem o futuro. Leonor de Távora a tentar disfarçar a aflição que lhe vai na alma, Leonor a querer fixar para sempre o azul-violeta dos grandes olhos rasgados da avó.

Depois o carro afasta-se e a menina, virando-se, fica a olhar pelo vidro da janela traseira até perder de vista o alto portão de ferro com as armas dos Távora.

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