As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 283 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Mais uma vez o destino malévolo traiu-a, com a habitual constância no empenho posto em destruí-la. Forçando-a a partir numa situação por demais aviltante, porque aparentemente submetida,

vencida por Pina Manique.

 

†

DIÁRIO

 

Recomeço o diário num novo caderno.

Os outros foram levados pelo Intendente-Geral da Polícia, à mistura com papéis, cartas, versos e os estatutos da Sociedade da Rosa.

Nas minhas derradeiras horas em Portugal, sem saber quando poderei regressar, tento encontrar inutilmente uma explicação razoável para o que está a acontecer-me.

Cedo à vontade de ir até ao jardim, a tomar o cheiro leve das malvas, que em breve será coberto pela intensidade acre do almíscar. Quero ainda passear por entre as árvores de fruto, onde algumas vezes pensei antever a crina alva de um unicórnio, imóvel à minha espera.

De manhã tentarei encontrar-me com D. João.

Quero ouvi-lo confirmar não ser a minha partida de Portugal uma expulsão, mas antes uma habilidosa maneira de iludir Napoleão Bonaparte.

Ou será que a minha combinação com o Príncipe Regente não passa de pura ilusão do meu espírito? Na verdade, a viagem tão esperada e cuidadosamente preparada por mim deixou de ser o que eu imaginara.

Subitamente mudada em pesadelo.

Transformada em exílio.

Lisboa, 27 de Fevereiro de 1803

†

O Palácio de Queluz encontra-se mergulhado num silêncio profundo. D. Maria acorda inquieta antes do alvorecer, na solidão da cama larga e fria onde fica a escutar a leve brisa e o esvoaçar dos pássaros da alva, que confunde com a própria respiração sobressaltada. Não sabe porque acordou nem se lembra com precisão do que sonhara, mas desse sonho parcialmente esquecido recorda D. Leonor de Almeida a ser expulsa de Portugal, de partida para o exílio.

Alarmada, a Rainha senta-se no breu estilhaçado pela esvaída claridade toldada do borralho, que se amortiça no ninho de cinzas da lareira ao fundo do quarto. As madrugadas continuam agrestes e ela leva as mãos à romeira de lã macia tentando agasalhar-se melhor, a ajeitar o debrum de cetim em torno do pescoço.

Apoiada nos almofadões, tenta recordar-se…

E uma após outra as imagens, obedientemente, retornam do passado, a desenredarem uma trama de intriga palaciana urdida com mentiras e traições mesquinhas mas implacáveis, tão suas conhecidas. E D. Maria estremece já arrependida, tentando recuar diante das memórias avassaladoras que nos últimos anos ela tem conseguido manter submetidas ao irracional e persistente afecto materno, que continua a fazê-la aceitar um diagnóstico falseado de doença mental incurável.

Para grande alívio dos que sempre a quiseram afastada do trono. Cientes de ela se calar, tudo passara a ser contado e até confessado à sua beira, sem qualquer cuidado por parte do filho, o que a tem mantido a par de maquinações e conflitos, de boatos, perfídias e falsidades, congeminados até contra si mesma. Desta vez, porém, não é ela a ser apunhalada pelas costas.

A Soberana lamenta não estar na sua mão impedir o cobarde desfecho daquela história absurda, da qual é protagonista a neta dos marqueses de Távora e antiga valida da Rainha que ela fora. Lembra-se bem da sua beleza delicada a contrastar com os vestidos rubros que usava, a insubordinar a Corte de Almeirim onde a seu convite passara o verão, saída há pouco do convento de Chelas.

Corte ainda de luto, que D. Leonor animara com poemas e ideias novas, discussões filosóficas e projectos políticos revolucionários, impróprios para serem defendidos por uma mulher. Mas à liça por ela viera sempre o Príncipe do Brasil, defensor das artes e dos mesmos ideais das Luzes.

E a Rainha que, por temer a aproximação das crises de melancolia, costumava saber evitar a devastadora recordação do seu filho José, príncipe perfeito tão cedo morto, assusta-se. Nos últimos anos, os seus ataques de depressão, pelos outros transfigurados em loucura, têm devastado a sua vida, num acumular de sofrimentos, penas e agravos. Diagnóstico de insanidade assinado pelos físicos da Corte e de que ela é, afinal, conivente com a morte na alma, perdida no seu próprio mistério.

Apesar de tudo D. Maria volta a serenar no abrigo do escuro, que a aurora ainda não ilumina com o seu traço de ruividade.

A iludir nela o tumulto do coração alvoroçado.

†

D. João acha preferível afastar-se quer do Palácio da Bemposta quer do de Queluz, onde D. Leonor de Almeida irá procurá-lo caso consiga iludir o Intendente Pina Manique. Portanto, antes do fim das matinas e do começo das laudas já se afasta de Lisboa a caminho de Mafra, carruagem correndo ao raiar da alva, fechadas as cortinas carmesim de damasco, a privar de claridade o interior do carro já abafado onde ele se abriga a coberto do anonimato; sigilo exigido aos fidalgos que com algum recato o rodeiam a cavalo.

Atrás segue o mordomo-mor, contrariado, e junto dele alguns moços da câmara, entre os quais João Diogo de Barros Leitão de Carvalho, que o Príncipe habitualmente distingue. Distanciadas, caminham as mulas puxando as carroças onde se sentam três dos cozinheiros do Paço e alguns ajudantes de avental de estamenha atado no pescoço por nó de fita grossa. E ainda os moços da água, ao lado do passavante de coxim, que tentara esquivar-se de ocupar o lugar que lhe é devido, junto do cocheiro do carro real. Há ainda um atabaleiro, que à última hora se introduzira na comitiva, levando sobre os joelhos a caixa de cobre onde guarda o tambor com a forma de meia laranja, a tentar meter conversa em surdina com os camareiros a seu lado.

Cavalgando perto das janelas da carruagem, vão Francisco Rufino de Sousa Lobato, primeiro guarda-roupa e homem de confiança do Regente, seguido do reposteiro D. Martim de Lorena, que sempre gosta de estar onde possa haver caça.

Indiferente ao burburinho abafado da comitiva que o segue, o Príncipe Regente dormita, alheando-se, desresponsabilizando-se do plano urdido contra a condessa de Oeynhausen por alguns dos seus ministros e Diogo Inácio de Pina Manique, contrariando a vontade de sua mãe a Rainha, a de sua tia a Princesa Maria Francisca Benedita e sobretudo a de sua mulher Carlota Joaquina, que tomará como provocação e afronta pessoal o exílio da sua primeira dama de honor. Mais tarde haverá ainda o confronto com o marquês novo de Alorna, que o inquieta com a sua inteligência arguta e o orgulho desmedido.

Na penumbra do carro D. João desliza mais no banco de veludo adamascado, ansiando por chegar a Mafra, onde logo se embrenhará de bom grado no frescor da tapada, perseguindo com acintes inusitados os javalis que os cães acossam ladrando alto. O Príncipe fecha de novo os olhos inflamados pela insónia, tentando sem esperança encontrar o sono fugido há semanas da sua cama, a acentuar-lhe o carácter deprimido.

Pensamento e coração presos a Eugénia de Meneses.

†

O aturdimento em que ficara, quando o Intendente-Geral da Polícia saiu da casa na Boa Morte, foi-se esvaindo ao longo da noite. Começar a escrever um novo diário serenou-a. E Leonor apoia-se na balaustrada da varanda do quarto, tentando iludir os alvores da manhã quase a despontar, por demais consciente do muito que irá ser obrigada a largar para trás.

Sem saber até quando.

Do lado de fora dos portões gradeados, dá conta dos vultos dos guardas deixados por Pina Manique com o fim de impedi-la de sair a tomar providências, tentando utilizar as suas derradeiras mas ainda importantes influências.

É com isso que o Intendente conta.

E Leonor acaba por descer até ao jardim, toldado ainda pelas brumas nocturnas já a misturarem-se com as neblinas da aurora. Detém-se primeiro junto dos canteiros onde plantara as rosas damascenas, pelas quais perpassa agora ao de leve a ponta dos dedos, a tactear-lhes as pétalas carnudas. Depois, segue pelas pedras musgosas do negrume da noite a desfazer-se aos poucos, até perto dos canteiros de miosótis e petúnias. Passa ainda junto das gerberas de fogo e das margaridas, que ladeiam o tanque redondo do repuxo.

Procura as pervincas e as camélias junto ao muro alto, por onde sobem as rosas trepadeiras para irem debruçar-se sobre a Rua da Boa Morte. Mais adiante, a circundarem as margens do lago aquietado, estão as glicínias que, tal como as madressilvas, soltam a leveza dos seus perfumes delicados. Por último desvia-se até aos vasos de frésias, dos amores-perfeitos e das ervilhas-de-cheiro, permitindo-se um pequeno momento de antecipação da saudade.

Leonor despede-se.

Chegara o momento de agir: iludir a Guarda e ir ter com Catarina, a pedir-lhe que apazigue o coração do marido e lhe empreste a sege, a fim de se dirigir ao Paço Real de Caxias em busca do auxílio da Princesa Carlota Joaquina. Em seguida irá tentar falar com o Regente ao Palácio da Bemposta, onde ele passa agora a maior parte dos dias. E como as poucas horas que lhe restam não bastam para que Pedro chegue de Almeirim antes de ela partir, terá de entregar Luiza, Henriqueta e Frederica ao cuidado de Leonor Benedita e de Juliana.

Já no boudoir troca o vestido por um mais leve e alegre de tafetá vermelho com finas riscas brancas. Escolhe um chapelinho de palha, que prende aos cabelos com pregos de granadas, calça luvas de renda que lhe deixam a descoberto os pulsos. E apertando o saquinho de cetim ao arfar do peito, atravessa rápida os corredores interiores da casa até à porta dos fundos que dá para a travessa das Almas, na tentativa de encontrar o caminho livre e sair sem ser vista, iludindo a polícia.

†

Jerónimo Esteves abre em cima da secretária de pinho o passaporte em branco que irá ser da condessa de Oeynhausen. O Intendente-Geral da Polícia ordenara-lhe com voz pedregosa que tivesse o documento pronto, sem hipótese de falta, no início da tarde. Entretanto, o visconde de Balsemão já lhe enviara o secretário, a fim de indagar do andamento daquele que Esteves deduz ser um importante trabalho.

O oficial da Repartição dos Passaportes, da Polícia e Vigilância dos Estrangeiros levanta as abas da casaca comprida, senta-se na estreita cadeira de espaldar alto, pega com cuidado no copo de vidro grosso onde deita a água da bilha que a mantém fresca naqueles dias já quentes, e dá com satisfação um gole rápido. Olha ainda as horas no relógio de pé, encostado na parede à sua frente, e em seguida, com aplicação e vagares demorados, volta a molhar a pena na tinta preta do tinteiro de louça ao lado do qual está a lente, o areeiro e o lenço bem dobrado, onde de tempos a tempos limpa as mãos suadas.

Em seguida curva-se, sem pressa, ponta da língua entalada entre os dentes, e começa a desenhar as letras das palavras formulares do passaporte.

†

Cosido à parede da esquina, tricórnio tombado sobre os olhos de negrume e, apesar do calor crescido no início da tarde, capa escura cruzada sobre o peito e subida ao rosto na tentativa de esconder as feições, Diogo Inácio de Pina Manique, desejando refrescar-se, aproveita a sombra esgarçada dos ramos grossos do carvalho que, dentro da quinta dos condes de Niza, deixa por cima do muro alto pender as suas folhas para o lado da Travessa das Almas, praticamente frente às traseiras da casa da condessa de Oeynhausen, cercada à sua ordem pela Guarda Real da Polícia.

Mas essa demonstração de força não lhe basta, quer usufruir ainda de maior regozijo, gosto supremo de ver com os próprios olhos D. Leonor de Almeida a ser proibida de sair, surpreendida a infringir a determinação por si mesmo deixada a Luís de Ataíde.

Impedindo-a assim de ir à falsa fé, em desespero de causa, jogar com o poder que lhe resta junto dos Príncipes Reais, do Cardeal Patriarca e até, quem sabe, de alguns fidalgos poderosos, enquanto dama de honor de D. Carlota Joaquina, valida e afilhada da Rainha D. Maria. Por certo desejando a condessa evitar ou pelo menos adiar o exílio, frustrando a ordem de expulsão que ele lhe dera para transtorno das suas ridículas pretensões políticas.

O Intendente-Geral da Polícia conhece-a demasiado bem para acreditar na sua quietude; ganhando peso a certeza de que, no anseio de iludir a Guarda que a cerca, tentará encontrar caminho livre precisamente por onde menos se esperaria – o pátio que dá para a porta de serventia à cozinha e aos quartos da criadagem.

Sabe-a encurralada, perscrutando, tacteando o ar atenta aos sinais, como uma presa ferida que a todo o custo luta por salvar-se, pois as dúvidas e as dificuldades jamais a detiveram. Pelo contrário, costumam até empurrá-la, acicatá-la, desafiá-la.

Pressentindo-lhe já a aproximação, dá conta da sua raiva impotente, cheira-lhe à distância o ódio, como se lhe escutasse o pensamento, e embora jamais o admita, receia o que nela desconhece da alma feminina, esbarrando sempre naquilo que considera ser determinação e coragem de homem, carácter forte, viril, que segundo ele não fica bem a uma mulher, sobretudo a uma fidalga da sua estirpe.

«É uma mulher perigosa, como a avó!», murmura, atento ao mínimo movimento na casa: leve ondear de uma cortina de renda, vulto esquivo a espreitar por entre as gelosias. «Ela virá», sabe com a experiência ganha dos muitos anos que leva de segui-la, lendo-lhe as cartas, os versos, os bilhetes, na tentativa da devassa do coração.

Uma ligeira vertigem fá-lo cambalear, e por uma fracção de segundo turva-se-lhe a vista. À sua volta o sol vai zunindo na madeira chapeada da tarde, com um brilho intenso a magoar-lhe os olhos. Esgueira-se mais no aconchego da sombra zebrada das folhas do carvalho, por entre as quais a luz perpassa, cintilando em tons esverdeados. E o Intendente, sentindo-se oscilar, apoia-se melhor ao muro, dissimulando-se quanto pode na sua esquina, teimando em manter-se postado de vigia com cuidados desconfiados e ríspidos de carcereiro. «Ela virá», está convicto. Nervoso, leva a mão grossa e húmida ao pescoço encharcado de suor, abafando na roupa.

Sem alarde, Luís de Ataíde surge com os seus homens, tal como ele ordenara, a rodear os jardins de onde sobe um odor espesso a madressilva envolto na maciez do rosmaninho e na brandura um tudo-nada acerba do alecrim, que por seu turno lhe chega entrançado com o perfume translúcido e almiscarado das rosas-chá.

Julgando desfalecer com a canícula, Diogo Inácio limpa sem alívio a cara com a ponta da capa subida, tricórnio a sombrear-lhe as fendas a que os olhos estão reduzidos, pálpebras descidas sobre o olhar de aço, determinado porém em esperar a condessa D. Leonor, que de uma vez por todas se verá obrigada a quebrar a arrogância desabrida, herança directa da marquesa de Távora.

Entontecido, vê-a finalmente sair pelos fundos, donaire de donzela quando empurra a porta, palmas das mãos abertas, saquinho bordado a pender-lhe do pulso magro. Preso da expressão do seu rosto, Manique suspende a respiração ao vê-la aproximar-se da cancela baixa, do lado de fora da qual a aguarda, hirto, Luís de Ataíde. E se o diálogo entre os dois lhe escapa, não perde o franzir irado da sua boca delicada, dentes a morderem as palavras.

Impetuosa e sem temor algum.

E quando ela se vira para tornar a casa, há nos seus modos rígidos um desdém intacto, a emprestar à derrotada um ar de vencedora que a faz parecer ainda mais altiva.

Esquecido da vertigem que o atormenta, o Intendente-Geral da Polícia estremece de raiva e de zelo frustrado, dedos curtos crispados em torno da guarda de madrepérola do espadim, lâmina escaldando na sua própria brasa.

†

Luís de Ataíde vê-a assomar, resoluta, à soleira de uma das portas das traseiras que dão para a Travessa das Almas. Vestido de tafetá escarlate riscado de branco a modelar-lhe a silhueta esbelta, chapelinho de palha posto de lado nos cabelos dourados que lhe emolduram o rosto comprido.

O Intendente-Geral da Polícia estava ciente de que ela iria infringir as suas ordens e tentar sair de casa, a querer contrariar-lhe o propósito de a levar sob escolta até à fronteira espanhola, pelo que se precavera deixando uma força especial da Guarda Real a cercar-lhe os jardins. Luís de Ataíde está ali no comando desses homens, que mais parecem recuar frente ao claro desdém com que Leonor os olha, ao suspender o passo ligeiro.

O oficial endireita-se, coração contrafeito debaixo do peito fardado, leva a mão à guarda de prata do espadim que sente a aflorar-lhe a coxa, e tentando aparentar uma calma inexistente, adianta-se, dizendo-lhe em voz pausada e muito baixa:

– A senhora Condessa vai desculpar-me, mas sou forçado a impedi-la de sair desse portão.

– E quem me dá tal ordem?

– Eu próprio, senhora Condessa, por determinação do senhor Intendente-Geral da Polícia.

– Está a dizer-me que o Intendente Pina Manique me quer presa na minha própria casa?

– Estou a dizer a Vossa Excelência para voltar para dentro, pois aqui ninguém vos quer fazer mal, e muito menos eu gostaria de vos obrigar a cumprir o que por enquanto peço.

– E se eu ignorar esse pedido?

– Vai levar-me a utilizar a força, senhora Condessa, cousa que não desejo.

Luís de Ataíde recua um tudo-nada, sempre a fitá-la nos olhos de anil ardente, brilhantes de raiva. Consciente de que, dependendo desse ódio, já estaria morto, não hesitando D. Leonor de Almeida nem um pouco em derrubá-lo. Mas ela acaba por afastar-se em silêncio, passo largo a fazer rojar a bainha da saia no lajedo do pátio.

†

Querida Mãe

da minha alma

A primeira reacção que experimentei foi de espanto e de incredulidade, quando no final da manhã o meu marido voltou a casa, contristado, com o propósito de me preparar para aquilo que no Ministério dos Negócios Estrangeiros lhe haviam contado sob sigilo: Pina Manique propõe-se expulsar Vossa Excelência de Portugal a qualquer momento.

Enevoou-se-me a vista, minha querida Mãe! Peito apertado de tristeza e de desamparo antecipando saudades, apesar do nosso maior afastamento nos últimos tempos, empenhada que tem andado Vossa Excelência na política do Reino, o que haveria de levar ao presente desfecho.

Revoltam-me as manobras torpes e traiçoeiras do Intendente, minha Mãe, a fim de derrotar com arrogância a mulher portuguesa de maior valimento do nosso tempo. Supondo ele ganhar influência ao dominar-vos, rejubilando por vos ter vencido no jogo do poder.

Tudo tentei para conseguir chegar até vós, mas tudo me foi negado. Mesmo a meu marido e vosso grande admirador recusaram qualquer contacto com Vossa Excelência, e ao procurar ele o Regente no Palácio da Bemposta, e depois no Palácio de Queluz, acabou por ser informado ter o Príncipe partido para Mafra às primeiras horas da madrugada.

Apenas Luís de Ataíde, frequentador habitual das minhas assembleias, compadecido com a aflição em que me encontro, acabou por me prometer fazer chegar até vós esta carta, único meio encontrado por uma filha aflita para demonstrar o amor sofrido em que a mergulha a perda da presença de sua amada Mãe, que se vê forçada a abandonar a Pátria como uma traidora, quando jamais alguém amou tanto Portugal.

Muito desgraçadas vamos ficar as cinco, sem vos ter por perto a esclarecer-nos e a enriquecer-nos com a vossa cultura e vosso pensamento esclarecido. Perdidas como eu sentem-se por certo minhas irmãs, sem apesar de tudo conseguirmos valer a Vossa Excelência. No entanto, em tudo o que diga respeito às manas mais novas, pode a minha Mãe partir em descanso, pois tanto eu como Leonor Benedita, e por certo o tio Pedro, nos comprometemos a tomar conta delas com cuidado e carinho.

Temendo estar com lamentos e minúcias a aguçar a dor do coração já despedaçado de Vossa Excelência, multiplicando em vós a aflição e o desgosto, termino esta longa e inútil carta assegurando-vos ser muita a constância do meu amor por minha amada Mãe. Ficando a aguardar com ansiedade notícias de vossa parte.

De Vossa Excelência

Filha mais terna e obediente

Juliana

Lisboa, 27 de Fevereiro de 1803

†

Depois de ter tentado em vão, por diversos modos, sair de casa, contactar com as filhas e os amigos, Leonor considera-se prisioneira. Apesar de tudo, não desiste de inverter a situação em que se encontra e, numa última tentativa, escreve ao Príncipe Regente.

Apesar de saber pela carta de Juliana que ele se ausentara da Corte de Lisboa, Leonor, continuando a acreditar na sua palavra e salvaguardando o segredo de tudo de que este a incumbira, senta-se à escrivaninha, tentando concentrar-se naquilo que crê ser necessário deixar claramente dito a D. João.

«Senhor:

Pedi licença a Vossa Alteza Real para tratar directamente os meus negócios, na sua presença. Como Pai dos seus vassalos e como primeiro cavaleiro do seu Reino, pois que eu era senhora sem marido e mãe de muitos filhos, obtive imediatamente esta generosa licença; e, como nunca pus na presença de V. A. R. senão cousas justas e dignas do seu beneplácito, mais rapidamente que nenhum outro requerente obtive este beneplácito. E se parte dos benefícios que V. A. R. me fez ou quis fazer se frustraram, não teve nisso parte nem a inteligência nem a justiça de V. A. R., mas sim as constantes intrigas dos seus Ministros, que não permitiram a ninguém este método suave e consolador de mostrar a verdade e obter justiça.»

Pára por um instante, a lâmina do orgulho a apunhalar-lhe o peito por demais ferido. Mergulha a pena no tinteiro de prata cinzelada, e depois de uma pausa inicia um novo parágrafo:

«Fui encarregada de uma diligência muito importante, em que interessava a glória de V. A. R., a utilidade do Reino, o serviço da Religião e da honra; e, não obstante a permissão que tinha de ir directamente manifestar a V. A. R. os negócios, duvidei prudentemente se esta licença se estendia a tratar dos seus. Para que estes me interessassem, não era preciso licença: o primeiro dos meus deveres – a fidelidade – me impunha a lei de os preferir ao meu descanso e a todos os meus interesses.»

Hesita por segundos antes de continuar:

«V. A. R. há-de fazer-me a justiça de lembrar-se que a energia com que lhe falei foi autorizada pela sua ordem, e quando a minha timidez e respeito me fechavam a boca, V. A. R. me ordenava, e sempre, que dissesse sem receio o que entendia. Longe de prejudicar-me este método, recebi da boca de V. A. R. muitos agradecimentos, pelo sentimento que V. A. R. distinguia nas minhas palavras. Também os recebi pela boa vontade com que me ofereci a servi-lo num negócio delicado. Recebi as suas ordens para aprontar-me, e tirei o filho do colégio, renunciei à minha vida solitária e lancei-me sem vacilar no golfo das negociações, só porque delas se seguia a conservação e utilidade de V. A. R.»

De tão cansada, embrulha-se-lhe a letra e turva-se-lhe o olhar. Mas num arroubo, acrescenta, convicta:

«Não, Senhor! Eu não seria digna vassala de V. A. R., se temesse perder-me, defendendo interesse tão sagrado. Quando juro, juro, e V. A. R. sabe que jurei defender esta causa. Para que V. A. R. não me argua deste juramento, lembre-se que deu licença para se fazer e que, se a não deu em público, a confirmou sempre em particular, e que na sua presença mesma se celebrou este juramento.»

Tomada pela dúvida que a aflige, Leonor argumenta, levando até ao limite a sua posição sobre o assunto que acabara por colocá-la na situação absurda em que se encontra:

«Se os povos devem ser fiéis aos reis, os reis não têm menor obrigação de ser fiéis aos povos, e não há caso nenhum em que uma inteira fidelidade da parte de um vassalo dispense um príncipe ou um rei de lhe ser fiel. Vossa Alteza Real sabe se neste ponto tenho que reclamar da sua delicadeza, e o sem-número de provas de que à sua glória, ao seu serviço queria consagrar esses tais ou quais talentos que me deu a natureza, merecia que me entregasse sem piedade à manobra surda de uma intriga baixa, digna só de homens habituados aos expedientes do vício e a nenhuma elevação nos procedimentos.»

E sem ceder à exaustão, continua:

«Quando avisei a V. A. R. de que os franco-mações tinham roubado a memória que escrevi, para V. A. R. ler, fácil era conhecer que dez mil libertinos, tendo por chefes os mais consideráveis membros do Estado e por camaradas todos os franceses jacobinos de Lisboa, assim como o Secretário da Legação Francesa, poriam em uso todos os meios de perder-me, se V. A. R. com a sua mão poderosa me não defendesse muito fortemente.»

E conseguindo a custo suster o tremor da mão que vacila, lembra com amarga ironia:

«Por meu irmão me mandou Vossa Alteza Real segurar que nada me havia de suceder, que ficasse descansada. Quis descansar, mas, passado pouco tempo, sem respeito a nenhum dos privilégios que me decoravam, o pobre e iluso intendente da polícia, querendo atacar a franco-maçonaria, veio…»

«Encurralada e prisioneira do Estado na própria casa pela ferocidade despótica de Pina Manique», Leonor, apoiada só na determinação e na vontade, continua a expor ao Príncipe, durante mais algum tempo, os agravos a que tem sido sujeita.

†

Desde o nascimento de José Trazimundo, Leonor Benedita nunca mais foi a mesma: grandes tonturas confundem-lhe o pensamento, coração parecendo parar por breves segundos, nervos crispados à flor da pele muito branca, pesadelos cruéis a envenenarem-lhe o sono, conturbação da vontade e do ego já de si demasiado fracos. Turbações e sofrimentos que ela teme virem a aumentar com o nascimento em breve do segundo filho.

Acentua-se nela a falta de gosto pela vida, para logo se tornar necessidade contrária: ora fogo a assanhar-se no seu corpo esculpido pela magreza, ora longos esvaimentos de afogada, sem salvação possível.

Sentidos delicados a desejarem tornar-se sôfregos. Passando do arroubo para o apagamento de vela. Apatia que naquela manhã a faz atrasar o passo lento, enquanto alheada vai pelas áleas geométricas diante da casa de Benfica, tão idênticas às de Versailles criadas por Le Nôtre; buxo rente contornando e sublinhando as doze estátuas mitológicas, das quais prefere Afrodite, mãos erguidas num suspenso gesto inacabado. Ao percorrer os jardins Leonor Benedita sempre se apazigua. Ancas alargadas pela gravidez adiantada, ela debruça-se da balaustrada do grande lago da Galeria dos Reis, e fica a escutar o rumor da água das fontes, corredia e transparente.

Quando desvia a atenção daquelas funduras, levanta os grandes olhos castanhos sublinhados pelas espessas sobrancelhas escuras a juntarem-se já no princípio da testa alta, ofuscados pelo sol de verão. E ao baixá-los estremece com um pressentimento de mau agouro, ao aperceber-se da inusitada presença de Juliana àquela hora, dirigindo-se-lhe num passo estugado de quem traz má nova.

A notícia da expulsão da mãe, obrigada a sair de Portugal naquele mesmo dia, perturba-a mais do que confessa a si própria, como é hábito, dividida e desavinda a seu respeito: mistura de alívio e de lágrimas, vontade recusada de atar os braços ao pescoço materno, mas igualmente de lhe morder a face. Semelhante e estrangeira, como jamais deixara de senti-la desde o seu definitivo regresso de França rodeada de filhos, dos quais só conhecia, e mal, Frederica e Juliana. Na verdade continua a acusá-la de a ter abandonado, mãe que a deixara no berço cedendo à vontade mais forte de partir, tomando as estradas do mundo.

Estremece de aflição, enquanto a irmã a fita emudecida, avaliadora das suas emoções, a adivinhá-la novamente cindida. Olhar de pervinca, atento, que tanto a irrita em Juliana, e por isso pergunta, desabrida:

– O que pretende a mana que eu faça? Que vá ajoelhar-me aos pés de Pina Manique?

– O pouco que se podia fazer já foi feito, aliás sem autorização de nossa Mãe, e não surtiu efeito. Só vim dar-lhe conta do acontecido. Além do mais, o Intendente não permite que ninguém se aproxime da casa da Boa Morte, nem para se ir buscar as manas, que vão ficar connosco.

No seguimento de um silêncio pesado, a cavar precipícios entre ambas, Leonor Benedita comenta numa voz de vidro estilhaçado, lividez súbita na face inexpressiva:

– Melhor assim, há despedidas que matam.

†

Catarina nem sequer pensa em pedir autorização para ir ter com Leonor. Assim que o marido a informa do que está a passar-se, adivinha o resto, não iludindo o importante papel desempenhado por ele em todo o plano gizado por quem tanto odeia como teme a amiga. Ainda não se esqueceu da conversa travada entre ele e o ministro João de Almeida de Melo e Castro, por si escutada involuntariamente há poucos meses. Diálogo guardado por si como um segredo de Estado, atitude que acabara por fazer dela uma cobarde, arrependida e envergonhada perante Leonor.

Dispensando a criada, veste-se num ápice. Ordena que lhe aprontem a sege e parte desabrida, abrindo e fechando com as mãos crispadas o leque de marfim com embutidos, coração pesado de culpa. E ao avistar a tropa cercando a casa da Boa Morte, indigna-se, ordena ao cocheiro que páre o carro junto do portão de grades, e sem aguardar que lhe abram a portinhola lacada, salta para o chão mandando com voz afoita afastar os guardas hesitantes diante do seu faiscante olhar e porte decidido.

– Sou a viscondessa de Balsemão e venho visitar a condessa de Oeynhausen – afirma autoritária, num tom de quem não admite oposição alguma.

Apesar de intimidados e pasmados com tanta ousadia e exaltação, que só parece aumentar-lhe a beleza, os soldados de Pina Manique resistem interpondo-se entre ela e a entrada fechada da casa para a qual Catarina torna o olhar, parecendo-lhe distinguir o esguio vulto de Leonor por trás das cortinas rendadas de uma das janelas. Isso dá-lhe o alento suficiente para jogar, falar o mais alto que conseguia:

– Caso não me deixem passar, receio termos aqui um grave problema. O meu marido é o visconde de Balsemão, Luís Pinto de Sousa Coutinho, ministro dos Negócios Estrangeiros e amigo pessoal do Intendente-Geral da Polícia.

E vistoriando em torno, com evidente desdém, pergunta:

– Quem deixou o Intendente no comando da guarda? Não me lembro de ver tamanho desleixo, nem nunca fui tão enxovalhada!

Mas já Luís de Ataíde se encaminha para aquela que tantas vezes ouvira dizer poesia nas suas assembleias, sem jamais ter conseguido nenhuma proximidade; ao chegar diante dela inclina-se, disfarçando a tremura dos dedos, e indaga com voz contida:

– O que pretende de nós a senhora viscondessa de Balsemão?

– Pretendo visitar a condessa de Oeynhausen, que escandalosamente a polícia mantém presa na própria casa.

Luís de Ataíde endireita-se, tentando manter-se impassível.

– Possui Vossa Excelência um salvo-conduto, alguma autorização a permitir a visita a D. Leonor de Almeida?

– Quer guerra senhor Luís de Ataíde? Então vamos ter guerra!

Sem pressa, Catarina encaminha-se de volta à sege depois de o atingir com um expressivo olhar de desprezo. Ele estremece como se tivesse sido esbofeteado, retorquindo num tom enrouquecido:

– Pelo contrário, senhora viscondessa, sou um homem cordato. Longe de mim querer entrar em contenda com uma dama de vossa estirpe e sedução.

Vê-a deter-se de imediato e voltar-se quase sorrindo.

A luta tinha acabado e ela ganhara.

Com galanteria, Luís de Ataíde faz questão de ser ele mesmo a franquear-lhe o portão, consciente da dificuldade que terá para explicar a Pina Manique uma atitude tão complacente da sua parte.

†

É a Catarina que Leonor acaba por entregar os poucos papéis que escaparam à busca dos sicários de Pina Manique: alguns bilhetes e versos, por estarem guardados numa pequena gaveta de segredo da escrivaninha da sua saleta de trabalho; pequenos mapas e planos, escondidos no fundo de um armário, deixados à sua guarda por Henri Forestier.

Através de Catarina despede-se de todos: manda palavras de mágoa e de adeus ao irmão, assim como a cada uma das filhas casadas, pedindo-lhes que tomem conta das irmãs, em estado de choque com a notícia de ficarem em Portugal.

Confia à amiga, igualmente, uma longa, secreta e perigosa carta para a Princesa Carlota Joaquina, da qual só deverá ser dado conhecimento a Pedro, e outra, acabada de escrever, para o Príncipe Regente.

Antes de a deixar, enchendo-se de coragem, Catarina conta-lhe a conversa que escutara entre o marido e o ministro Melo e Castro, assim confirmando as piores desconfianças de Leonor. E nos braços uma da outra fazem promessas de amizade eterna, que sem desfalecimento haverão de cumprir.

Nenhuma delas chora.

E quando Catarina sai, vai de mãos livres, bolsinha de cetim creme bordada com fios de seda frouxa pendurada no pulso. Transporta no corpo, disfarçados, os versos, as cartas para entregar pessoalmente aos Príncipes, e os documentos secretos que antes de partir Henri Forestier pedira a Leonor que guardasse.

†

João Ulrico anda sem tino de um lado para o outro na casa desarrumada, e ora corre para o jardim a fugir de Henriqueta e de Frederica, ambas em lágrimas a quererem apertá-lo nos braços sobressaltados, ora torna de olhos baixos, tentando desviar incomodado o olhar de Luiza, que o fita com ferocidade e despeito, como se fosse culpado de ter sido escolhido pela mãe para viajar com ela.

Rapazinho espigado e magro, onze anos desajeitados e solitários numa casa de mulheres, ele vai e vem em desamparo, por entre as arcas, os sacos e os baús espalhados a esmo no chão dos quartos, juntamente com as malas a serem feitas um pouco ao acaso, enquanto, desatenta, a mãe tão depressa se perde em devaneios de quem já não está onde ainda se encontra, como, nervosa e activa, deixa atrás de si um visível rasto de devastação: livros e cadernos à mistura com roupa branca e de rendas, fazendo lembrar nuvens de espuma; tecidos bordados, vestidos, saias e blusas, os chapéus com as suas plumas e fitas, e ainda os casacos, as calças e as camisas dele.

Tudo isto dobrado ao acaso, em cima das cadeiras e das camas, a fim de ser empilhado, levado naquela viagem tantas vezes projectada, prometida e sempre adiada, ao ponto de já nem se lembrar dela.

Agita-se em silêncio receando partir, mas envergonhando-se daquele súbito medo inconfessável que o apanha desprevenido e ele tenta iludir diante dos outros. Na verdade todos o ignoram, e se de passagem lhe dirigem a palavra esquiva-se, num encolher de ombros desanimado.

Apenas Luiza, nos seus dez anos determinados, imaginando a própria reacção caso tivesse sido ela a escolhida para partir, o julga jubiloso, calando o prazer que o domina, a fingir o contrário.

– Sonso! – acusa, enquanto o espia.

†

Jerónimo Esteves mal acabara o passaporte da condessa de Oeynhausen quando é chamado ao gabinete do Intendente-Geral da Polícia, que depois de examinar atentamente o documento o entrega ao irmão. E o oficial da secretaria estremece zeloso do seu trabalho, ao ver este guardar o passaporte com descuido no bolso da sobrecasaca e, sem pronunciar uma só palavra, sair pela porta falsa.

Inclinando a cabeça numa ligeira vénia a Pina Manique, já distraído da sua presença, Jerónimo Esteves por sua vez desliza por trás do cortinado a tempo de se esgueirar pela estreita fresta que os batentes já unem a retomarem o seu iludidor disfarce, e passando pelos «moscas» e os guardas armados que nem sequer o vêem, cosido na sombra, segue Joaquim António Manique quando este se apressa pelas traseiras, torna à direita a descer já o beco íngreme e, dobrando a esquina que o leva à Travessa da Cruz dos Anjos para onde dá a frontaria do edifício da Secretaria Geral da Polícia, se dirige a uma misteriosa carruagem negra parada à sua espera.

Num passo leve e ardiloso, Esteves aproxima-se mais, conseguindo vê-lo levar a mão sapuda ao bolso, por certo a confirmar a existência do passaporte, enquanto espera que o estribeiro lhe abra a portinhola lacada; e mal entra na escuridão do carro ouve-se, vinda dela, uma voz troante que o oficial da secretaria reconhece ser do ministro João de Almeida de Melo e Castro, ordenando ao cocheiro para seguir rápido a caminho do ministério, no Terreiro do Paço.

Só depois de a carruagem desaparecer ao fundo da rua é que o oficial da repartição se recorda de outros curiosos pormenores, tal como o do inusitado interesse demonstrado na véspera pelo visconde de Balsemão acerca do passaporte da bela condessa de Oeynhausen, que ele agora desconfia estar a ser vítima

de uma elaborada intriga.

†

Leonor da Câmara só ao começo da tarde recebe a notícia da iminente expulsão da tia.

Incrédula.

Escuta o irmão contar-lhe o pouco que sabe, preocupado sobretudo com Henriqueta, prima de quem tem vindo a tornar-se cada vez mais íntimo, tão parecidos um com o outro que jamais se estranham ou desentendem.

Na verdade, o que sobressalta José Maria é o facto de não poder aproximar-se de Henriqueta e tomá-la pela primeira vez nos braços a defendê-la. É sabê-la incomunicável até à partida de sua mãe, prisioneira com as outras irmãs na casa da Boa Morte. Por tudo isso revolta-se, exasperado, contra o Intendente-Geral da Polícia.

– Afinal quem é que ele se julga para exilar a nossa tia Condessa de Oeynhausen e retê-la com as filhas na própria casa?

A irmã cala-se, e José Maria repara, admirado, na sua palidez doentia, mão direita levada ao coração, olhar quebrado fixo atrás das costas dele como se visse alguém que muito a perturbasse.

Perplexo, José Maria vira-se, a confirmar o compartimento vazio na normalidade da tarde; e no entanto ele tem a inexplicável sensação de haver mais alguém na sala, por onde perpassa uma oculta respiração mínima, um tudo-nada ofegante, à mistura com um levíssimo aroma translúcido de pétala destroçada. Estremece, mas nessa altura a janela da sala abre-se de par em par, como se impelida pelo vento agreste, embora de fora apenas chegue a friagem da primavera.

Então, torna a voltar-se para a irmã, a tempo de ver os seus cabelos ondulando ao de leve como se estivessem a ser soltos por uma mão invisível a desmanchar-lhe suavemente o penteado severo. Arrepiado, José Maria dá conta das suas pálpebras descidas, do pescoço alto um tudo-nada inclinado para trás, como se supõe fazerem as crianças ao serem acariciadas pela mãe, cabeça encostada no seu colo. Mãe que ele guarda na memória através da descrição alheia, mas também como fruto do seu próprio imaginário: com a configuração de um lírio decepado.

Mais da natureza do mito do que da maternidade.

†

Escolhe sem hesitação as jóias que pretende levar consigo a caminho de Espanha: um fio de esmeraldas oferecido por Carlos Augusto, uma aliança de brilhantes que fora de Maria e uns brincos de ouro e topázios encimados por ligeiros rubis, a roçarem-lhe ao de leve a maciez dos lóbulos das orelhas.

Dera-lhos a mãe quando Leonor Benedita nascera.

Apoia-se ao de leve no rebordo talhado do toucador, madeira macia a reconfortar uma parte obscura de si própria. E ao erguer os olhos, admirada com esse sentimento inesperado, acha-se irreconhecível no espelho à sua frente:

olhar vazio sublinhado pelas olheiras escuras, boca crispada, faces vincadas que a palidez alonga.

Embora ainda inconsciente do abismo

para o qual está a ser empurrada.

†

Sabe que Pina Manique por nada deste mundo irá perder a oportunidade de ser ele a dar-lhe a ordem de partida para o exílio.

Na sala maior da casa, onde entretanto mandara repor a ordem desfeita na véspera pelos guardas do Intendente, Leonor senta-se num dos cadeirões, rodeada pelas filhas chorosas que a olham já em despedida. Aperta Luiza ao peito sem saber como explicar-lhe o motivo pelo qual Manique não a deixa levar juntamente com o irmão.

Leonor veste um vestido cor de malva demasiado ligeiro.

Na mesa junto à porta, encontram-se as luvas e o chapéu envolto num véu protector do pó das estradas. Alinhadas no chão da entrada, encontram-se as malas, as arcas, o saco dos livros e os baús já fechados. A seu lado pousara o estojo de escrita que usa durante as viagens, contendo os aparos, o afiador, o areeiro e o tinteiro com íman no rebordo interior da tampa de prata, onde mandara gravar a primeira letra do seu nome quando vivera na Áustria. Sobre a escrivaninha pusera os livros de versos tirados da estante para levar junto dela no banco da carruagem: os sonetos de Camões, os poemas de Goethe e de Schiller.

Desde que se apercebera da impossibilidade de chegar à Princesa Carlota Joaquina, na Quinta Real de Caxias, abandonara qualquer ilusão acerca da sua sorte. E rodeada por Frederica e Henriqueta, a quem proibira lamentos e lágrimas derramadas, Leonor limita-se a aguardar com aparente serenidade o Inspector-Geral da Polícia.

Está certa da sua vinda, exorbitando na arrogância e na grosseria, brandindo a ordem da sua expulsão. Mas Inácio Pina Manique fará sobretudo gala na assinatura do Príncipe Regente

no documento que a levará ao exílio.

†

A camareira D. Juliana Xavier Botelho corre a contar à Princesa Real que a condessa de Oeynhausen está a ser expulsa do país, notícia trazida com carácter de urgência pelo marquês de Sabugal. D. Carlota Joaquina, que aguardava já impaciente a chegada da sua primeira dama de honor à Quinta Real de Caxias, queda-se incrédula no centro das fidalgas e damas da Corte que, nos seus vestidos coloridos e transparentes, se reclinam em almofadas de cetim e renda de Bruxelas nas pequenas esteiras delicadas, a descansarem com evidente agrado à sombra perfumada das árvores.

Alguém ajuda a espalhar o langor na fímbria da tarde, tocando à viola um bolero dolente e sofrido que o ruído translúcido das águas da cascata sublinha, indo em surdina transformar-se no banho de Diana, rodeada por ninfas toldadas por um leve vapor a cristalizar-se nos repuxos cintilantes dos lagos.

Harmonia

que a Princesa do Brasil quebra ao erguer-se desabrida, atirando para longe o leque de seda pintada, voz estrídula na sua mistura de português e castelhano, línguas que ela sempre atrapalha uma na outra quando é tomada pelo destempero:

– Por Dios, que me dices D. Juliana?! Malditos!

E a partir dessa altura a notícia da expulsão da condessa de Oeynhausen espalha-se como um rastilho, apesar de ninguém parecer mover-se do lugar onde se encontra, olhos em baixo e rostos inexpressivos.

Apenas a açafata D. Mariana Pereira de Carvalhal, filha do marquês de Santarém, lembrada da intervenção de Leonor de Almeida junto da princesa do Brasil no caso do seu contrariado romance amoroso com João do Rego, permite que lhe perpasse fugazmente pelos lábios um sorriso de júbilo, logo prudentemente apagado.

Sentindo-se de novo desautorizada pelo marido, que jamais perde uma ocasião para a ferir e humilhar, desse modo tornando evidente quanto é irrisório o seu desejo de intervenção no governo do Reino, a Princesa Carlota Joaquina, entendendo-se desobrigada de qualquer contenção, alimenta já de bom grado com as achas da própria ira o lume de raiva surda que, ao incendiar-lhe o peito, acaba por lhe aliviar a alma.

Seguida pelas fidalgas enfadadas, pelas aias prestativas, pelas infantas distraídas mofando umas das outras e pelas açafatas contrariadas, apressa o passo arrastando a bainha do vestido bordado a ouro pela poeira dos labirintos dos jardins de buxo aparado e corredores de verdura, pelos quais chegará mais depressa aos seus aposentos na ala central do Palácio, onde a aguarda o marquês de Sabugal. À medida que escuta o que ele tem para lhe dizer, os seus olhos vão-se toldando por uma nuvem de ódio.

Sem assistir ao lançamento do aeróstato há semanas aguardado com entusiasmo por todos, volta a Queluz à hora do crepúsculo, mas não encontra o marido que, prudentemente, continua em Mafra. Impotente, revolve-se, revolta-se, dedos nervosos segurando e erguendo a roda do vestido, enquanto percorre de um lado ao outro os corredores do Palácio. E durante a madrugada insone não é necessário estar-se atento para lhe ouvir o raivoso desabafo:

– Io los mato, cabrones de un raio! Io los mato!

†

Depois de ter mostrado a Leonor de Almeida, com todo o regozijo possível, a ordem para o seu afastamento de Portugal assinada pelo Príncipe Regente, e não encontrando nela nem a palidez nem a resistência exaltada, Pina Manique, desiludido, prefere afastar-se para o interior da sua carruagem, onde fica atento a todas as movimentações em redor da casa.

Diante do portão, no sentido da subida da calçada estreita, espera-a a carruagem rodeada pela Guarda Real da Polícia. E quando ela aparece, trazendo o menino a seu lado, inclina-se para a frente, a adivinhar-lhe, mais do que a ver-lhe, o olhar de safira nublada, rosto erguido para receber a intensidade do sol. Quem sabe se a detectar o perfume listrado das rosas trepadeiras de um vermelho intenso, debruçadas e a descaírem já dos muros altos, matizando o cheiro encorpado da madressilva em flor que àquela hora sempre inunda os quintais e as áleas silenciosas, os caminhos dos jardins e das quintas em direcção à Basílica da Estrela.

Suspeitoso, o Intendente tenta adivinhar pela última vez o seu pensamento e também o seu sentir. E de súbito, estupefacto, dá-se conta que, se bem lhe conhece o orgulho e a mente fantasiosa, é muito provável que D. Leonor de Almeida esteja convicta de partir ao serviço da Pátria, desempenhando a secreta tarefa de que, segundo ela, o Príncipe Regente a teria incumbido.