As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 130 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

Junto de Teresa mergulhada no sono,

o Rei D. José relembra os seus olhos esmeralda, ainda mais verdes devido à tez morena e à cerração dos cabelos, à espessura das sobrancelhas e às pestanas longas a sombrearem-lhe a face adormecida. Debruça-se sobre ela com vagares de predador não querendo despertar a presa incauta, e os seus dedos grossos parecem ir desenhando no ar os contornos da ilharga breve e nua que o lençol não contém e ela enrodilhara ao fundo da cama com os pequenos pés descalços, na pressa de ser tomada em entrega fogosa, a ele que preferia refugiar-se na penumbra tentando esconder as chagas das pernas com a manta que ela rejeitara.

Mesmo durante as intermináveis reuniões com os ministros ou as prolongadas conversas com Sebastião José, o Soberano lembra-a assim, no requebro em que se encontra agora: oferecida e frágil na magreza esquiva e um pouco doentia.

Num deslumbre.

Sente-lhe o perfume almiscarado das axilas, que gosta de colher com os lábios: odor intenso e vibrante a glicínia e a murta, a encobrir o adocicado cheiro da pestilência que as suas feridas largam, levando os outros a recuarem em jeito de disfarce e precaução temente.

No final da sua vida, a marquesinha de Távora representa a última tentação a que se sente com direito enquanto Rei absolutista, pecado do qual não abrirá mão por nada. E D. José inclina-se mais sobre aquele intranquilo sono adúltero, a respirar-lhe a ardência rubra, em contraste com a temperança malva da pele ainda de menina, a endoidecê-lo e a revigorar-lhe a virilidade que imaginara perdida.

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