As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 285 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

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Henri Forestier desejaria poder voar.

Montando Pégaso,

e não o banal cavalo conseguido em Lisboa, a fim de ir atrás de Leonor, a querer alcançá-la apesar da grande dianteira que ela leva. Enquanto ele, clandestino, terá sempre de se esgueirar pelas sombras, escapando pelos acessos e os atalhos dos montes, resguardando-se dos olhares dos espiões de Napoleão que o perseguem, lhe seguem o trilho e as pegadas.

A ter de limitar-se a observá-la de longe, quando ela saísse a desenredar as pernas do cansaço que as prende. Mas a escolta de Leonor anda mais depressa do que a vontade dele deseja. Impotente para pôr termo às impossibilidades que os separam, ou a tudo o que, ao empurrá-los um para o outro, afinal os desune e distancia.

Céris ficara para trás, a afastar-se do desassossego dele, crente que o amor sempre perturba e enfraquece as defesas, torna imprudente quem ama, levando a perigos desnecessários que nenhum dos dois deve correr.

 

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DIÁRIO

 

Lástima seria ver reflectido em mim o meu contrário.

Deixo para trás o passado, ansiando pela aproximação da aventura política que sempre me convoca

e desafia.

Eu sou o meu próprio futuro.

A caminho de Madrid, Março de 1803

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À sua beira o menino dormita, embalado pelo passo irregular dos cavalos e pelas vozes monótonas dos guardas que, contrariados, os acompanham ladeando a carruagem.

Febril, Leonor vai dando conta dos lugares e vagares da viagem interminável, um dia seguido de outro dia ainda mais lento. E sem saber de quê adoece, o suor frio a perlar-lhe a fronte, tentando em vão controlar os arrepios que a fazem tremer envolta no xaile onde se aconchega, apesar do calor.

Leonor não entende de que mal físico padece, e nas estalagens onde passam as noites deixa-se ficar amodorrada em banhos tépidos, encolhida em tinas ou bacias de zinco, tentando expurgar as febres que a minam. Depois, Thérèse, que sempre a acompanha, fá-la beber, soerguida na cama e apoiada nas almofadas com entremeios bordados trazidas de Lisboa, chá de dedaleira purpúrea: vinte grãos contados na palma da mão, deitados um por um na água fervente do bule de porcelana.

Tentando ajudar o coração que desfalece no seu peito aflito.

E nas longas madrugadas de insónia, depois de se revolver inquieta e exausta entre os lençóis, acaba aceitando a tranquilizante tisana de erva-moura. Mas nas noites de maior cerração da alma levanta-se à hora a que todos dormem e, num passo furtivo, vai tirar da arca o láudano,

que a transporta a um sono sem lua.

No dia seguinte João Ulrico, assustado com a lividez da mãe, espia-a por entre as pestanas descidas, cabeça encostada às costas do banco. Sabendo-se único alvo da atenção do filho, Leonor tenta mostrar-se animada, atenta às árvores e arbustos que ladeiam as estradas, às plantas e flores selvagens, debruçando-se a observar as manchas azuis das pervincas meio escondidas no mato. E acaba por puxar conversa com o menino entristecido, sobre as saudades que ele já sente da vida largada para trás, estranhando a viagem que o enclausura, a tolher-lhe os movimentos, a levá-lo para longe dos jardins da casa da Boa Morte onde tanto gosta de correr e das áleas geométricas de buxo que circundam a bela casa de Benfica da irmã mais velha.

Culpando-se por preferir ter ficado à sua guarda.

Entre os dois estão livros espalhados ao acaso. Leonor folheia-os distraída, lendo alto poemas ao acaso, a tentar encontrar alento. Nos sonetos de Camões redescobre a vertigem e o lirismo de versos que sabe de cor, buscando de seguida em Goethe ou em Schiller o fio dos sentimentos extremados, procurando iludir o desconsolo da alma.

E se a tempestade onde está mergulhada se assanha demais, abocanhando-lhe os nervos destroçados, língua a ganhar um zebrado e amargoso sabor a fel, não consegue evitar que lhe invada a mente a imagem por demais nítida de uma destilada gota de veneno, insidiosamente a envenenar-lhe o futuro.

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Na mesma carta em que Lannes, entretanto regressado a Portugal, dá conta a Talleyrand da expulsão da condessa de Oeynhausen, comunica a curta passagem por Lisboa dos generais da Vendeia Henri Forestier e Charles de Céris. Iludindo o facto de Forestier ter voltado a fim de rever essa mesma condessa, fidalga sobre quem a França afirma possuir sérias provas de andar há muito a conspirar contra Bonaparte.

Não estando Leonor de Almeida em Portugal, Lannes não vê necessidade de sobrecarregá-la com novas suspeitas, que só tornariam ainda mais perigosa a sua estadia em Madrid. Intensificando os riscos que, se bem a conhece, ela já está a correr.

E quando a Princesa Carlota Joaquina o chama ao Palácio de Queluz a querer saber da sua boca qual fora o papel por ele desempenhado em toda a traiçoeira intriga que acabara por exilar a sua melhor dama de honor, Lannes vai até ela evitando a verdade. Calando também à Princesa a passagem por Lisboa dos generais da Vendeia, que só por sorte conseguiram fugir à perseguição movida pelos espiões franceses, no rasto dos seus passos clandestinos a caminho de Madrid.

Ao encontro de Leonor de Almeida?

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Entre a muita correspondência que naquela sexta-feira chega pela mala diplomática há uma carta especialmente confidencial assinada pelo visconde de Balsemão e endereçada ao embaixador de Portugal em Espanha, Cipriano Ribeiro Freire.

Informa-o o ministro português da expulsão da condessa de Oeynhausen e da sua iminente chegada a Madrid. Recomendando-lhe que com ela seja firme no trato, «sem nunca deixar de ser amável e aparentemente cordato».

Ordena-lhe porém que não ceda em nada se descortinar nas suas palavras ou actos indícios de conspiração política, para a qual, não obstante o seu sexo, D. Leonor de Almeida sente uma inclinação excessiva. Devendo ele impedi-la, embora sem conflito, de tomar qualquer inaceitável atitude que possa ir contra as directrizes traçadas pelo Estado português, «arriscando de alguma maneira prejudicar o bom relacionamento do nosso País com as nações de Espanha e também de França».

O diplomata relê em sobressalto as palavras do ministro, entendendo-as como um evidente aviso no sentido de, enquanto embaixador português, se resguardar o mais possível do convívio com a condessa de Oeynhausen.

E já conhecendo quase de cor o documento, o ministro plenipotenciário dobra com cuidado as folhas, que pousa no tampo grosso da secretária de mogno, onde se amontoam em moderada desordem os documentos entreabertos, os passaportes e os ofícios ainda sem despacho.

Preocupado, Ribeiro Freire adivinha sérias complicações para os próximos tempos.

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Quando entram em Madrid ao fim da tarde, o sol desaparece refulgindo no horizonte, ainda a cintilar nos pequenos vidros das janelas das casas.

Tomada por uma inquietação nervosa que a faz curvar-se sobre si própria, Leonor sente-se exaurida, doente e suja, o vestido de cambraia violeta amachucado e colado às pernas pelo suor da febre. A ondulação desfeita dos cabelos emaranhados pelo vento, os olhos ardendo, a pele do rosto estalada e seca, lábios gretados pelo pó das estradas.

Os arrepios e os desfalecimentos nocturnos acompanharam-na durante a viagem, a sentir-se asfixiar no ar abafado da carruagem.

Atravessada a fronteira de Portugal para entrar em terras de Espanha com um passaporte que só lhe fora entregue na altura, ficara livre da humilhante presença da Guarda Real da Polícia. Mas nem isso lhe apaga no peito a opressão, a insegurança a desacertar-lhe o pulso.

Consciente das dificuldades que irá encontrar, desamparada, pergunta a si própria a quem recorrer naquela hora, estrangeira numa cidade onde não conhece ninguém que os receba e lhes dê guarida.

Cabisbaixa, não responde a nenhuma das perguntas do filho nem repara como ele se debruça, pendurado na portinhola que leva entreaberta, enquanto o cocheiro vai tentando a custo abrir caminho por entre as ruas apinhadas e as pessoas que sem cuidado atravessam diante dos cavalos assustados.

Passada a Puerta del Sol, Leonor reconhece com alívio a Plaza Mayor e, no limite das suas forças, manda atrasar mais ainda o passo dos animais, a fim de encontrarem uma hospedaria.

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Ao examinar cada um dos aposentos alugados numa hospedaria situada longe do centro de Madrid, Leonor reconhece estar diante da imagem do seu próprio futuro, que ela prevê construído por dias de tristeza e de desertos da alma.

Desconhece o que lhe faz manter no peito o coração aceso.

Frente a tanta aridez a tocar a penúria, a tanta mediocridade a tornar-se incúria, a tanto mau-gosto a ultrapassar o suportável, empenha-se em conseguir dominar a tremura dos dedos com que ergue um tudo-nada a saia do vestido de cambraia lilás que escorrega solto ao longo das ancas a adelgaçá-la.