As Luzes de Leonor
Memória
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A luz parece-me por vezes ficar pálida,
de um alvor esgarçado no próprio coração do sol.
Em contrapartida, nunca os odores à minha volta foram mais intensos: perfumes que divergem e brigam em dissonância ou se completam a enlearem-se entre si, anelantes. Crisântemo mate e goivo ou malva-rosa, artemísia e rosmaninho, a lembrarem-me os jardins dos palácios portugueses em 1788, quando cheguei de Avignon a fim de conseguir de novo a protecção da Rainha D. Maria.
E não era pouco o que eu trazia para pedir a Sua Majestade: a permissão para Carlos Augusto abandonar definitivamente o posto de embaixador em Viena; uma nova tença de quantia maior do que aquela que já me era concedida. Mas, sobretudo, conseguir que a Rainha avalizasse o meu pedido de empréstimo, que permitisse a Carlos Augusto saldar todas as suas dívidas.
Nessa época eu andava aturdida com o rumo que levava a minha vida, tão depressa lúcida como iludida, pronta a sugerir e a fazer pactos e acordos impensáveis, até com quem era da família do verdugo da minha. Para me salvar e aos meus – como negar isso? – teria sido capaz de recorrer a quase tudo, desnorteada e confusa, aberta a tentações, a vertigens e a perplexidades que diariamente me erguiam para logo me derrubarem.
Depois de tantos anos, porquê desculpar-me?
A leitura e a escrita têm-me ajudado a conservar o coração alvoroçado; ontem como hoje os livros fazem parte da minha vida, neles observando a passagem do tempo, num constante separar das águas entre passado e presente.
E é nesse espaço em princípio neutro e desértico que encontro a poesia, os meus versos, o que sempre me salva, como aconteceu em mil setecentos e oitenta e oito, ano em que logo sobressai, para além do meu encontro desastroso com Leonor Benedita, filha estranha e cismada com a vida, que jamais entendi, a luta obsessiva e sem tréguas travada por mim com o secretário de Estado Martinho de Melo, tudo fazendo para conservar do meu lado a Rainha e o arcebispo de Tessalónica e os Príncipes do Brasil.
Recordando ainda agora melhor cada pormenor desse tempo passado entre Lisboa e Almada, do que me lembrarei amanhã das margaridas amarelas raiadas de ruivo que hoje descobri terem florido no canteiro debaixo da minha janela.
Tenho assim bem presentes as dores da alma, os equívocos, as perdas desses meses que se mantêm em mim bem acesos. E como eu gostaria que, pelo contrário, se desvanecesse a lembrança das humilhações pelas quais tive de passar. Febril e dividida, ia-me perdendo e erguendo a cada dia, enredada em equívocos, dores e ressentimentos; sonhos e idealizações que depressa se tornavam verdades amargas. Empurrada e instigada pelas intrigas, pelas saudades e pela solidão, sentia-me dilacerada, desejosa de partir de regresso a França.
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