As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 275 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

 

Sou uma mulher atlântica com nostalgia do Mediterrâneo.

Maciez tépida do ar misturando-se à sensualidade dolente dos tons nacarados e revoltos, da tessitura dos aromas tal como deles me lembro: transbordantes e incontidos por dentro do sol, o perfume acre e quente das alfarrobeiras, o evolar-se do aroma do suco sanguíneo das amoras escorrendo devagar por entre os dedos, ou adensando-se na saliva espessa, que a acidez esverdeada das uvas faz crescer, mal contida entre os lábios e os dentes.

Reconhecendo eu já neste empolgamento o alvoroço a apressar-me o coração sedento.

Atropelo claro de regozijo, a despertar em mim estas súbitas memórias, na pressa de tornar a provar o travo rugoso do pó das estradas juncadas de pedras a esmo, ora mal arrimadas ora cobertas por folhas e ervas, plantas apodrecidas, galhos engrossados por nós de resina. Ou intransponíveis troncos de árvores deitadas ao comprido e a confundirem os caminhos, podendo indiciarem ardilosas, inesperadas ciladas, perigo embuçado num lugar desconhecido.

Não me é mais possível continuar a iludir a mediocridade da Corte portuguesa, conviver com a pequenez por aqui recolhida, o pouco sendo o tudo sempre previsível do quotidiano. Protegida pelas paredes e o chão atapetado das salas e dos salões, quando lá fora me aguarda o desafogo e o imponderável desacerto do espaço, das descobertas, do imprevisível que, representando um risco, por isso mesmo me fascina.

Viagem na sua aventura permanente.

Lisboa, 10 de Janeiro de 1803

†

Gonçala estivera a morrer,

mas ao tomar conhecimento de que Leonor aceitara ir visitá-la, tendo já pedido autorização ao Núncio Apostólico para entrar no convento de Chelas, foi como se tivesse ressuscitado, para assombro de todas: grande espanto da prelada e temor das freiras, que a partir de então ainda mais a evitam, como se ela tivesse peste ou trato com o maligno.

Mantêm-na afastada.

Deixam-na dias inteiros sozinha.

Mas a solidão arrasta a reflexão e desperta a memória.

Gesto lento de ambas as mãos a ampararem mais do que a taparem o rosto moreno e esquálido, cabeça inclinada e coberta pelo véu negro do hábito, que desce ondeando pelas suas costas, indo aflorar-lhe com leveza os seios dissimulados, onde os pulsos revelados pelas mangas largas vão roçar a sua nudez de palidez doentia; pele de quem não conhece há muito a luz a descoberto.

Olhos de esmeralda rasos de água sem nenhum reflexo, enquanto finge rezar, dando a sua liberdade interior lugar ao suspiro… «Padecendo de uma inquietude maior do que sempre me guardei de confessar, enferma de uma clausura com a qual jamais me conformarei» sabe Gonçala, atormentada, enquanto espera. Sem entender já se será pior que Leonor falte ao seu chamado ou que venha até ela.

A compará-la com aquela outra que fora antes de deixar o convento e de ela mesma ter passado pela devastadora experiência do sentimento de perda e abandono que haveria de a empurrar para o dilacerante caminho das pedras, em direcção à morte. A expô-la à corrosão do ácido do tempo.

Ah, a crueldade implacável dos anos inexoráveis!

Mantendo as duas imagens em espelhos opostos mas simultâneos, a permitir o confronto da noviça afoita e ardorosa que fora, ardendo no gesto de azougue que a amiga lhe conhecera, com a presente chama extinta em que se tornara.

Diversa da musa ousada e sedutora dos versos escritos por Alcipe, mudada em apatia mal ficara longe do alcance do seu destemor. Acabando por de si mesma apenas restar uma apagada imagem, como se vista através da bruma, a viver da recordação culposa embora sempre deleitosa das madrugadas clandestinas de ambas; consciente da impossibilidade de esses tempos poderem repetir-se.

Recordação que lhe preenche a vastidão das noites solitárias.

Só se apaziguando quando sente as garras dos cilícios em torno da cintura a dilacerarem-lhe a carne, sangrando debaixo do burel áspero do hábito. Ou quando açoita com a disciplina as costas despidas.

Voando desse modo para longe de Leonor.

Esquecida dela, através da vertigem amarga.

Assustada, Gonçala pressente o bafo funesto da perfídia que está a envolver a amiga. Um fétido odor a cousa apodrecida desprendendo-se já, saindo de baixo das lajes onde Leonor pousa, descuidosa, os passos tecidos pelo interior do muito correr.

Quantos dias ou meses terá de esperar ainda,

para de novo lhe escutar o riso?

†

Tem maior confiança na sobrinha do que em qualquer uma das filhas. Leonor parece ter herdado dela o carácter grave, em vez da desenvoltura alegre de Maria, mãe que ela já conheceu melancólica e dolorida, de quem guarda apenas uma imagem difusa. Cordão umbilical e laço de sangue materno, espécie de fio de Ariane, de ligação íntima.

Mais dada à reflexão religiosa do que ao folguedo natural da sua idade; fechada ao afecto das primas, que por seu lado sempre a acharam aborrecida, acusando-a de sonsa, pronta a delatá-las, órfã fugidia a brincadeiras e mais tarde aos namoros, aos enredos e aos bailes.

O que primeiro a levou a prender-se àquela menina desengraçada e triste foi a pena, o dó, nela buscando os traços da irmã desaparecida no desfiar da memória; sempre pronta a escutá-la, perseguindo-a a sobrinha com perguntas, com dúvidas, com devaneios pouco naturais vindos de uma criança. Mais tarde fora a curiosidade pela sua personalidade estranha, cismada, enredada na escuridade das capelas e das igrejas. Misticismo exaltado, a querer imitar Catarina de Sena mais do que Teresa de Ávila.

Gosto esquivo pelos versos que a tia faz, e mesmo quando não entende procura, a tomar prazer nas suas palavras. Mas melhor do que tudo isso era a conivência que acabara por nascer entre as duas; a solidariedade, a entreajuda, o apoio dado ao seu projecto político de partida por terras da Europa, de adesão à Vendeia. A determinação partilhada frente às armadilhas e igualmente a persistência perante o perigo.

Portanto, se a autorização para Leonor entrar no convento de Chelas depender de ir acompanhada, escolherá a sobrinha, que gostosamente ficará junto da prelada e das freiras, a seguir com disfarce o trilho que possa levá-la a sua mãe, esforçando-se por detectar-lhe a presença entre aquelas paredes. Enquanto Leonor, pelo contrário,

na companhia da amiga que não vê há anos,

escusar-se-á a lembrar Maria.

†

Gosta de deitar essências de flores, rosas e jasmim-do-cabo diluídos na água tépida que Thérèse entorna devagar na tina onde depois se estende nua, semicerrando os olhos, as pernas lisas e altas um tudo-nada afastadas. Já no convento em Chelas, quando podia evitava tomar banho vestida, deitando para longe a camisa longa de algodão da Índia que as mulheres de recato usavam para se banharem.

Afastando impaciente a memória importuna, ergue com os dedos lassos as madeixas de cabelo ouro-mate que se soltam, a prendê-las melhor com as pequenas travessas de tartaruga ou com ganchos de prata, enquanto vai respirando o aroma perfumado da espuma dos sais.

Passa devagar a ponta da língua nos lábios perlados de suor e sonolenta desce as pálpebras, entregue ao prazer que os banhos lhe dão, demorando-se neles com deleite.

De pé e nua como a Vénus de Ticiano, Leonor aguarda que Thérèse lhe estenda a toalha aquecida onde se embrulha ainda envolta em vapor, indo enxugar-se para junto da lareira diante das chamas, onde em seguida espalha na pele leite e almíscar, com a sensualidade do âmbar.

Aquelas são as horas que não dispensa.

Avara.

A casa meio adormecida mantém-se silenciosa, sem o riso e o choro de João Ulrico, as intromissões de Luiza a trazer consigo reclamações e pedidos, mais impaciente depois de as irmãs mais velhas terem casado.

Curto tempo de pausa, antes de se fechar no gabinete de trabalho, onde habitualmente escreve poesia, redige bilhetes e cartas íntimas, toma apontamentos em cadernos equívocos, numa mistura de contas, receitas, aforismos, versos e pensamentos, que algumas vezes acabam por lhe servir de ponto de partida para ensaios, memórias ou textos indefiníveis. Pode também ir até ao atelier ou entrar na Sala da Música, acabando sempre por regressar à sua secretária, na qual estuda e traduz, sublinha a lápis frases inteiras dos livros descobertos

nas raras livrarias de Lisboa.

†

«Pela autoridade Apostólica que nos foi concedida, e de que usamos

nesta parte, concedemos licença à Exm.a portadora a condessa de Oeynhausen, de poder entrar no dia só de segunda-feira vinte e nove do corrente em o convento mencionado de Chelas, levando em sua

companhia a Exm.a sobrinha D. Leonor da Câmara contanto que haja o consentimento da Prelada do mesmo Mosteiro onde se poderá demorar tão somente no dito dia até ao pôr-do-sol unicamente. Não obstante qualquer cousa em contrário.

D. Miguel Correia

Arcebispo»

Lisboa, Janeiro de 1803

†

Leonor chega ao convento de Chelas levando a autorização eclesiástica para entrar. A seu lado, cabisbaixa e emudecida, vai a sobrinha Leonor da Câmara.

Passa para lá da pesada porta com andar firme, seguindo no rasto dos próprios passos quando em menina ali entrara na companhia da mãe e dos irmãos, escoltados pela Guarda Real até ao pátio exterior revestido de azulejos.

Apesar de serena, Leonor pára ao escutar atrás de si o barulho familiar das três voltas ásperas da chave na fechadura, a separá-la do mundo. Esforça-se por continuar mantendo o olhar frio e a expressão tranquila, apesar do arrepio que a faz estremecer ao passar pelo claustro com o pequeno lago no seu centro uterino, e começa a subir a escada larga com degraus de pedra grossa, em direcção às celas.

Lembra-se bem do corredor gélido, longo e sombrio por onde avança com cautela, mas ao passar diante do que foi o seu quarto durante dezoito anos sente-se vacilar, a visão turva-se-lhe e cambaleia; mas logo se sente amparada, braços a cingi-la pelas costas rodando-a, deixando escapar um forte odor a rosas e a febre. Sobressaltada, Leonor ergue os olhos mal distinguindo o rosto que se debruça: traços a enredarem-se ainda na penumbra e toldados pelo véu que brevemente esvoaça e que, erguendo a mão, Leonor docemente afasta, a murmurar o nome da amiga, tentando não deixar transparecer o espanto diante da sua cara transfigurada pelo sofrimento.

Gonçala sente-se reviver tendo-a abraçada contra si, sem se sentir repelida. «Tão linda sempre»! – pensa, fitando-a: as mesmas feições finas, a mesma delgadeza, só não lhe reconhecendo o olhar perdidamente triste. E ficam enlaçadas muito tempo a gozarem a presença uma da outra, antes de entrarem na cela de Gonçala.