As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 48 de 289

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As Luzes de Leonor

Angelus

Não é propriamente um plano.

Terá mais a ver com uma descoberta, uma ideia que começa a germinar no meu pensamento; um projecto a ser arquitectado com vagares de gosto, a tomar corpo, tendo como única finalidade a mudança de rumo da minha vida.

Mudança acompanhada por um novo sentimento, embora ainda mal firmado, malha entretecida algures com o fio da delicadeza e da finura de espírito. Emoção insatisfeita a afuzilar-me o coração descrente, temendo talvez ousar demais.

Recusando entregar-me ao alvoroço.

Ao observar pela primeira vez o conde de Oeynhausen fora das grades do convento de Chelas, onde os nossos olhos se cruzaram num arremedo de vertigem, tomo consciência da sua sobriedade a contrastar com a ostentação da fidalguia portuguesa. Apercebendo-me do poço, da vala, do fosso cavado entre eles: a delicadeza contra a grosseria, a discrição em oposição ao alarde, a civilidade sublinhando o peso da ignorância. Natural abertura de espírito contrapondo-se ao despotismo, a discrição ganhando à tacanhez auto-satisfeita.

Foi essa sua diferença-estranheza de estrangeiro que fez acordar em mim o desejo de partir para o lado de lá das fronteiras portuguesas.

Determinada em encontrar o que me falta.

À demanda da minha própria vida.

Paço Real de Almeirim, 28 de Agosto de 1777

 

†

ANGELUS

 

Perecível.

Tu perecível e sem mácula, tal como te vejo reflectida nos espelhos dos salões do Palácio Real de Almeirim para onde foste convidada para passar o verão; eu seguindo-te desde Chelas e tu mal intuindo a minha presença que tenta esquivar-se à tua.

Quebradiça.

Tu quebradiça, olhar de farpa de vidro azul de quem se quer de aço nunca o sendo. Ora de seda ora de renda, malva-rosa e gardénia, boca de cereja sanguínea, sangue de cereja preta.

Tu de narceja, de águia sem nenhum limite. Minha orquídea brava, deslargada de onde foste obrigada a clausura, enxameando de ocre as velas votivas, os fogos-fátuos, os archotes acesos ao longo dos infindáveis corredores e escadas de pedra grossa e húmida do convento onde te prendiam.

Mas agora voas.

Tu de aprisco, de anil e malvasia.

De alecrim e moitas de gerânios vermelhos, de silvas para quem se abeire. Tu à beira, por gosto, dos abismos; enquanto eu estendo a minha mão de afago incipiente, na tentativa inútil de deter os golpes antes de te poderem atingir, a ti ignorante de armadilhas e perigos. No íntimo negrume oculta-se a tua tanta claridade, não entendendo eu em qual me escondo enquanto me esgueiro a espiar-te por entre árvores e espinhos dos arbustos que ladeiam as áleas por onde passeias aos fins de tarde na companhia do conde de Oeynhausen.

Perecível.

Perecível e sem mácula, tal como te vejo de alva, musselina e mel, pescoço longo de cisne, sorriso de sobressalto. Ametistas e topázios a entrançarem-te a espiga dos cabelos, olhos já perlados de crepúsculo. E deste modo irás ser para sempre a minha vida desde agora: seguindo-te, pérola turva, numa obscura ameaça revolvida, tão logo transformada em obsessão e envenenado fascínio.

Infindável loucura.

†

Param a pouca distância uma da outra, à porta da biblioteca Real de Almeirim, de onde sai Leonor de Almeida e onde parece ter intenções de entrar a marquesa de Tancos. Muito séria esta, presa do olhar de cinza da outra, cadernos e livros apertados ao peito, cintura cingida pelo colete do vestido de cetim rosa-água onde, no pequeno decote, se entrançam dois fios de ouro, um com pérolas de neve e outro com contas de coral muito ruivas.

Apesar de há semanas aguardar impaciente o momento propício para se encontrarem a sós, Domingas Manuel hesita, dominando a vontade ansiosa de conhecer Leonor de perto, sonhando ser sua amiga. Desejo acalentado desde que, diligente, assistira a alguns outeiros poéticos no parlatório do convento de Chelas, aonde fora só para a ouvir querendo confirmar o que dela se dizia na Corte: tanto musa quanto poetisa brilhando por trás das grades.

E ali ficara somente a escutá-la, preferindo recolher-se a si própria no resguardo do silêncio, a impedir-se de dar opiniões ou motes, na firme recusa de fazer perguntas reveladoras da sua curiosidade, sem conhecimentos nem nenhuma leitura; mesmo assim fascinada pelo universo da escrita que lhe fora proibido desde menina e por isso sempre lhe passara ao lado.

Sôfrega do que não lia.

Leonor faz menção de deixar passar a marquesa de Tancos, mas esta por sua vez recua a permitir-lhe adiantar-se, e as duas sorriem, perplexa a primeira e perturbada a segunda, acabando por mal se cumprimentarem. E sem se voltar para trás, Leonor afasta-se ligeira pelo corredor comprido onde a luz se abriga, passos abafados pela passadeira persa. Parada e perdida nos seus pensamentos, fica Domingas Manuel quieta, a vê-la distanciar-se.

«Como seria – pensa – se eu me parecesse, me comportasse como ela: fizesse poesia e ousasse dizer o que me vai no pensamento, batalhasse pelos meus sonhos? Se nas assembleias soubesse discutir, entrasse em debates acesos no calor da refrega, ousando impor-me na defesa de princípios e de ideias?»