As Luzes de Leonor
Memória
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Voltei para Lisboa consciente da minha inquietação crescente, sabendo dever-se tanta angústia também ao facto de ter vivido muito tempo isolada de tudo e de todos: família, poetas e amigos.
Das Luzes.
Tanto dos desastres como das calmarias.
Fugida da turvação dos sentidos, das dúvidas ferinas e das alegrias precárias. Das febres que os anseios acalentam e a mim então tanto me assustavam, perdendo-me em turvações, questionamentos e tristezas. A culpar-me dos desejos recalcados, a custo ocultos e no entanto revoltos, que a alma, o corpo e o coração iam escondendo de mim mesma e dos outros o melhor que podiam. Muito embora nem sempre com tanta eficiência quanto eu esperaria.
Por isso, recorrendo aos versos eu aturdia-me, neles suplicando à razão que contra mim própria me defendesse, com a sua argumentação fria e racional, me apagasse as tempestades da alma, os incêndios do corpo e dos sentidos apesar de tudo acesos sob as cinzas do borralho.
A iludir a verdade a todo o custo, acusando as injustiças da vida e a sua crueldade. Na altura preferia silenciar o óbvio, enquanto resvalava pelas margens lodosas dos sentimentos laboriosamente ignorados.
Que saudades tenho desses dias!
Quando, embora ignorando encontrar-me a caminho da mudança, sentia já os nervos à flor da pele e o arrepio da vertigem. Sem todavia vislumbrar qualquer indício da aventura, da paixão, do tumulto, para os quais inexoravelmente me encaminhava a vida.
Hoje entendo que começava a ser feliz.
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