As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 60 de 289

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As Luzes de Leonor

Carta de Maria a Filinto Elísio

– Se fosse eu a ter mandado prender o senhor Francisco Manuel do Nascimento, não teria ele fugido! E muito menos ainda teria escapado no paquete inglês que acaba de dar à vela! – garante, irónico, o intendente-geral da Polícia Pina Manique, em conversa com o conde de Vimieiro, na casa de quem está encobertado desde a véspera Filinto Elísio. Mas é o marquês de Marialva que nesse mesmo dia dá conta aos amigos do poeta do plano por si traçado para o fazer sair de Portugal: aproveitando o falso boato de ele ter escapado no paquete inglês, seria perfeito fazê-lo embarcar no navio francês ancorado em Paço de Arcos e que levantará ferro dentro de onze dias.

Teresa de Mello Breyner, no dia seguinte, leva a Maria um bilhete de Filinto, a pedir-lhe um derradeiro encontro.

 

†

CARTA DE MARIA A FILINTO ELÍSIO

 

Terás de partir fugido, meu amor,

sem mim por minha causa,

apesar do tanto que te quero, e no entanto não conseguindo desencantar coragem, nem sequer para aceder ao teu pedido de nos encontrarmos uma derradeira vez. Tivesse eu o destemor de minha irmã e seguir-te-ia para o estrangeiro sem me importar com nada, nesta paixão de incêndio e mágoa, aceitando ficar marcada pelo ferrete do pecado e da desonra, excomungados ambos pela Igreja que jamais perdoaria o facto de nos amarmos.

De eu te querer enquanto homem esquecendo o padre.

Mas sendo fraca e frágil como me conheces, nem de ousadia disponho para desobedecer e, pela escuridade da noite, ir até onde estás escondido, Francisco Manuel, a sentir-me apertada nos teus braços, a confessar-te como por ti me desespero embora te possa parecer o contrário.

Adeus meu coração destroçado,

reconheço estar a perder-te de novo, desta vez sem retorno possível. E perder-te será perder-me, neste casamento arranjado com alguém que me repugna, permitindo que partas sozinho a enfrentares quantos riscos ao encontro do desconhecido, perseguido pelo Santo Ofício.

Terás de partir fugido, meu amor,

sem mim por minha causa,

e eu medrosa, nem serei capaz de olhar-te nos olhos, conhecedora de ter sido meu Pai o grande causador da tua desgraça ao denunciar-te por heresia à Inquisição. Ou por acaso julgas, Francisco Manuel, estar eu tão cega a ponto de não me aperceber daquilo que para todos se apresenta como evidência clara?

O ódio que ele nutre pelas tuas ideias, princípios e condição religiosa, o rancor pela influência nefasta que te atribui no respeitante à minha educação e à de Leonor, em Chelas. E tudo o mais que fantasia e inventa para acrescentar nova desmesura à sua ira.

Terás de partir fugido, meu amor,

sem mim por minha causa,

aceitando eu este desatino, este destino, este ermo sem afago por onde me esgueire, valendo-me somente as minhas visões, os meus livros e os meus versos. Pensamento em ti, a imaginar os desmedidos perigos por que estarás passando, à míngua de defesa e prudência possíveis, de viagem clandestina num navio sem condições para enfrentar os caminhos dos mares bravios e as azinhagas das tempestades, por entre os atalhos que as ondas cavam pelas vorazes estradas dos oceanos.

Disfarçado, distancias-te já de mim, e eu apercebo-te a coberto da noite subindo até ao convés do velho barco ancorado e preso a uma só amarra, defendido apenas pelo breu e as artimanhas dos teus amigos, Francisco Manuel, que te defendem.

Terás de partir fugido, meu amor,

sem mim por minha causa,

fronteiras marítimas passadas sob a protecção da capa das estrelas até chegares a França. E recordares-me, quem sabe, e aos tempos passados juntos, separados pelas grades do convento, a escutarmos as horas plasmadas que o sino sublinhava a chamar para as novenas e para os terços, desarmonizando-se com os nossos sentimentos alvoroçados, as canções e os poemas que criávamos, ou tu escrevias tendo-me como tua musa:

Dafne.

A competirmos com Alcipe?

Eu a ceder à minha irmã em tudo o resto, almejando alcançá-la a fim de te chegar ao afecto com o viço, o brilho e a beleza dela. Tudo isto ficou para trás, Filinto, sendo a nossa presente realidade a monstruosa denúncia que te obriga a fugir. E esta cobardia que me leva a aceitar o fim do futuro da minha vida.

Enquanto Leonor vivifica através do desacato e da teimosa determinação com que persegue o sonho, limitar-me-ei a estiolar, assistindo ao extinguir do próprio fogo, coração exposto na palma aberta da minha mão indecisa; aceite silencioso do meu derradeiro apagamento, consciente de tudo estar falhando à minha roda. Só tu Francisco Manuel sabes da real dimensão do meu ser, enredada na teia de uma infelicidade demasiado forte para alguém como eu lhe romper a malha apertada. Temerosa demais, neste meu perdimento por nomear.

Terás de partir fugido, meu amor,

sem mim por minha causa,

o navio onde vais desaparecer no horizonte, enquanto eu aqui me fico a olhar a minha felicidade a esvair-se contigo. Mal possas acalmar e acamares o ódio no peito, se por acaso ainda te for possível, guarda-me na memória. A distância, meu amor, ensinar-te-á a quebrares o ressentimento em relação a este abandono a que agora aparento votar-te, permitindo que separes as águas da paixão pelo menos em mim nunca extinta. Talvez compreendas então que eu nunca te mereci e sim Leonor.

Adeus para sempre, meu afagoso amado.

Perdidamente tua

Maria.

Lisboa, 14 de Julho de 1778

†

No dia seguinte

Maria queixa-se com dores de cabeça e recolhe-se mais cedo. Mal a casa sossega sai do quarto, e embrulhada numa capa negra esgueira-se furtiva pela porta que dá para a Rua das Almas, onde a espera uma carruagem de cortinas corridas, parada junto ao muro da quinta dos condes de Niza.

A coberto da noite sem lua, ela entra no carro que se põe em movimento, atravessa Lisboa e começa a percorrer um longo caminho tortuoso, rasgando a escuridão da madrugada brumosa. Maria e o vulto sentado à sua frente seguem em silêncio, escutando perto o ruído do mar, a sentirem nos lábios o gosto áspero do ar já salgado pelas ondas miúdas a desfazerem-se na areia.

Chegam a Paço de Arcos a tempo de verem aproximar-se veloz a carrugem do marquês de Marialva, puxada por quatro cavalos brancos com as compridas crinas a misturarem-se com o vento. Atenta, Maria dá conta de primeiro se apear o marquês, que olha à sua volta, e em seguida um marinheiro no qual de imediato reconhece Francisco Manuel do Nascimento no seu último disfarce. Instintivamente estende a mão para abrir a porta, o corpo erguido já no movimento de correr, o nome dele mordido na boca num último grito de amor incontido. Mas é impedida de sair por uma mão enluvada que a faz sentar-se de novo.

– Pensa bem, vais ser a perdição dele.

Maria encolhe-se e fica enrodilhada junto à janela, a seguir ansiosa a sua silhueta pesada que propositadamente se mistura com os marujos na praia, a ganhar por fim o navio ancorado, carregando nos ombros um caixote de laranjas. E, ao chegar ao convés, ele volta-se para terra a despedir-se de Portugal.