As Luzes de Leonor
Angelus
«Homem comum, respeitador da religião e da ordem», como faz questão de assumir, orgulha-se de não gostar de poesia nem de ideias novas. «Filosofices» – sublinha, enquanto franze o cenho e aflora a guarda de madrepérola do espadim, com os grossos dedos crispados.
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Para Carlota Joaquina, ter posto no mundo mais uma menina saudável menos de dois meses depois de ter perdido o seu primeiro filho varão, que mal começara a ser educado para Príncipe herdeiro, é uma ironia com gosto de cilada.
Tanto mais irónico, mas isso ela não sabe, porque Isabel Maria, que acaba de ser baptizada, será de todos os seus filhos aquele que, anos mais tarde, D. João acabará por designar Regente de Portugal.
Criança de muita vida e comedido choro, afastada pela mãe que, não suportando olhá-la nos primeiros tempos, a entregara à ama e às aias, fora por elas levada para os aposentos dos infantes sem nenhuma protecção contra o desafecto e a solidão. Pois mesmo as fadas-madrinhas das histórias de encantar ficaram esquecidas, e só tarde demais tiradas de dentro dos baús da memória onde estavam trancadas.
E a Infanta, de poucos sorrisos mas de feitio afável e mesmo cordato, guarda apesar de tudo um olhar de suspeição sobre quem a rodeia e ela não consegue amar,
pois nem sequer sabe o que isso significa.
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ANGELUS
Envenenada doçura
a tua
minha açucena.
Perdição antecipando-se ao arrepio ardente e convulso de quem se deixa atrair pelo fascínio dos sentimentos frágeis e dos estigmas da alma. Beleza de pérola dolente, camélia esquiva e mal entreaberta.
Continuando, minha poetisa, a acreditares que todos os amores são substituíveis ou fatais.
Porque não improváveis?
Tal como a minha paixão por ti. E como eu, alado, tu, terrena, sabemos perder-nos no corpo do delírio amoroso.
Correndo o risco de nos estilhaçarmos.
Asas e obstinação.
Abrindo fissuras na rocha inabalável.
Pois quando já não esperavas que o teu herói chegasse, ei-lo a bater à tua porta. Não Heitor, o probo, nem Páris com a sua passividade esmaecida. Mas o próprio
Aquiles
Em quem já te havias transfigurado num verso.
Trazendo para dentro da tua casa o cavalo de Tróia inventado
por Ulisses.
Cabe-te a ti encontrar no corpo de madeira sigilosa ou no corpo guerreiro do amado
o lugar da vulnerabilidade.
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Os generais da Vendeia, Henri Forestier e Louis de Céris, chegam exaustos a Lisboa vindos de França, depois de terem atravessado Espanha embuçados com as brumas das noites e entrado clandestinamente em Portugal pelos lados de Vilar Formoso.
Mas só depois de se decidirem por uma pensão discreta na Rua dos Duques, onde descansam um dia inteiro, tentam encontrar com calma e discrição o endereço que trazem consigo e onde deve morar a condessa de Oeynhausen, que nenhum deles na verdade conhece.
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É Thérèse quem lhes abre a porta e os atende com secura, depois de os ter medido da cabeça aos pés, a reparar no pó que os sapatos e mesmo os trajes de ambos ainda guardam. A detectar-lhes o olhar de soslaio pelos cantos da Rua da Boa Morte, o esquivamento do porte, a língua francesa, que é afinal a sua e isso a faz estremecer.
Desconfiada, recusa-se a ir chamar Dona Leonor.
Mas Frederica, estranhando ouvi-la falar francês, aproxima-se curiosa, e de imediato entende a necessidade de os mandar entrar e ir correndo chamar a mãe que, arrancada à tradução de Horácio, a olha contrariada. Ao aperceber-se da preocupação da filha, sempre sensata, presta atenção às suas palavras e alarma-se com o que ela lhe conta do pouco que sabe e percebera, intuindo o resto.
Os dois generais esperam na sala que Leonor desça,
e escute da boca deles o que os trouxera até Portugal.
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Henri Forestier tem uma magreza febril e nervosa, pernas longas e cabelos negros no enredamento de caracóis fechados, olhos muito claros de um azul-malva sombreados por longas pestanas nocturnas.
Leonor olha-o, primeiro incrédula, julgando estar a ver um anjo…
mensageiro?
Só mais tarde, ao aperceber-se da lividez da espada que ele traz junto à ilharga, do olhar luzente e um pouco alucinado, turvamente dolente pousado nela, e ao escutar o relato exaltado acerca das circunstâncias que o trouxera a Portugal, ela entende estar… diante de um herói.
O herói que há tanto tempo lhe falta?
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Acaba por recebê-los com discrição e segredo, como julga ser de vantagem para todos. No dia seguinte eles voltam para tornarem a partir, e durante longas tardes Leonor escuta o que têm para contar-lhe, sem entender ainda o que pretendem de si, nem o que vêm de tão longe pedir-lhe.
Segundo os veementes testemunhos de ambos, a guerra da Vendeia terá os dias contados caso nada se faça contra isso e, desejando acrescentar mais veracidade ao que dizem, enumeram perigos, situações-limite, relatam enganosas vitórias logo seguidas de demolidoras derrotas, perseguições e intrigas e traições, ferocidades impiedosas.
Mostram-se reservados, invocam poucos nomes.
No início Leonor julga-os alucinados, megalómanos, parecendo-lhe que nada do que eles relatam faz muito sentido. E dos poucos nomes que ouve, só retém o de ambos: cavaleiro de Céris e general Henri Forestier, sentando-se este sempre à sua frente,
olhos imensos de um azul macerado fitos nos seus.
No dia em que ele lhe explica como uma bala voraz lhe atravessara o peito, escapando à morte por puro milagre, Leonor estremece, encolhendo-se sofrida. E a partir desse momento, para ela todos os relatos giram em torno da sua bravura. A ressaltar nele o estóico heroísmo, a sublinhar-lhe o sangue-frio assim como a extrema ousadia e coragem, numa total entrega à guerra da Vendeia, odiada por Bonaparte, a quem ele acusa de despotismo.
Leonor que detesta os déspotas, passa a escutá-lo com uma nova atenção,
sem conseguir afastar os olhos da sua beleza.
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– Já não era sem tempo! Estavas por demais precisada do tumulto dos sentimentos e de heróis –, diz-lhe Catarina rindo, quando, pedindo-lhe sigilo absoluto, ela lhe conta da chegada de Henri Forestier à sua vida, transfigurando-a com a sua beleza, a sua heroicidade, o seu mistério incontido.
Teme por si própria, inquieta com o alvoroço que sente a invadir-lhe o coração, a apressar-se-lhe no peito sempre que o vê. Numa espécie de desfalecimento por ela nunca experimentado até esse momento. Tão jovem a comparar com ela, metade da sua idade, e isso a envergonha, a assusta e atrai. Ansiosa por poder voltar à calmaria em que se encontrava, antes de ele ter entrado na sua casa, paralisada num quotidiano sem tumulto nem sobressalto de alguma espécie.
E até das noites passadas em claro, insónias que tentava resolver com láudano, à espera das madrugadas que a arrancassem do coração das trevas, ela lembra como sendo mais serenas do que do seu actual desassossego. Parecendo não ter consciência de ocultamente ter ansiado pela febre da paixão, alheia à razão que sempre reivindicara; do mesmo modo ocultando o desejo tempestuoso.
A algemar-se, a amordaçar-se a si mesma.
Passa então a esperar com ansiedade que os generais franceses voltem a sua casa, impaciente por ver Henri, antecipando nervosa e ávida a vertigem que supõe ser provocada pela sua maior proximidade, a tomar-lhe com disfarce o odor do corpo, a imaginar como será o prazer de tocá-lo, de tomá-lo nos braços.
Para se demorar mais tempo na sua companhia, quando ele lhe confessa temer que a presença de ambos esteja a tornar-se notada, sublinhando o perigo que isso pode constituir para todos, propõe-se hospedá-los, com a discrição possível, entontecida com a hipótese de passar a tê-lo todo o tempo a seu lado.
Os dois aceitam de imediato, demorando Henri a mão na sua.
A partir desse dia Leonor fecha-se em casa, afasta-se das amigas, adia as próprias assembleias; dizendo-se indisposta, manda recado a Bocage para não aparecer como é hábito aos fins de tarde. E pouco a pouco deixa de receber. Esquece-se mesmo de ir à Corte, onde as infantas, a Princesa viúva e sobretudo a Princesa Regente Carlota Joaquina estranham a sua ausência.
Desse modo Henri e Leonor passam os dias juntos, tentando demorar o tempo ao conversarem noite dentro, a deitarem-se contrariados já de madrugada. E à medida que vai ficando a par da história da Vendeia, ela julga começar por sua vez a entusiasmar-se, a entregar-se a uma causa que nem é sua.
Na verdade, à medida que escuta os relatos dos seus combates e toma conhecimento de cada uma das suas vitórias, Leonor vai mitificando mais e mais a figura de Henri Forestier, recriando a sua cintilante aura de herói e a sua desmedida coragem, que ele próprio cala mas Céris não pára de elogiar.
Enquanto o escuta, Leonor alinda a perfeição da sua beleza, a doçura dos olhos que ele nunca baixa, ligeiro sorriso nos lábios a sublinhar-lhe a sensualidade da boca, a adoçar-lhe os traços clássicos do rosto perfeito. E se num dia anseia por entender melhor o mistério dos seus silêncios, noutro tem a tentação de lhe passar os dedos pelos negros cabelos anelados, pela face glabra, e noutro ainda deseja acariciá-lo, descobrir a pele mate do seu peito,
a firmeza perfeita das suas pernas altas.
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«Como os dias são longos no verão!» – pensa Leonor, agradada, ao sair de casa de Catarina, na Luz. E ao dirigir-se para a sua sege, uma carruagem vira a esquina e pára, dela saindo o ministro Luís Pinto de Sousa Coutinho, visivelmente contrariado de a encontrar à porta de sua casa. Mas como homem amável e delicado que tenta ser, cumprimenta-a com um ligeiro sorriso, curvando-se sobre a mão que ela lhe estende.
– Então é a esta hora tardia que os senhores ministros chegam a casa para jantar? – pergunta-lhe Leonor, com ironia.
– Sinal de muito trabalho, senhora Condessa.
– Vá depressa, Catarina queixa-se de estar sozinha.
– Estou certo de que Vossa Excelência lhe fez boa companhia.
Sabendo como ele é contra a amizade das duas, Leonor ri-se baixinho, mas acrescenta ainda:
– Não duvide disso, senhor ministro. É bom ter uma amiga, sobretudo nestes tempos difíceis.
Luís Pinto, que julga detectar uma ponta de acrimónia no tom da sua voz, responde picado:
– Sua Alteza Real e os seus ministros estão a fazer tudo para que o Tratado de Paz seja ratificado por Napoleão, pondo fim aos dias de inquietação, como Vossa Excelência diz…
– E o que faremos com o nosso orgulho ferido e o nosso brio em estilhaços?
Sem se mostrar surpreendido, Luís Pinto responde-lhe com uma frase de severidade e reserva, que haverá de repetir mais tarde e noutras circunstâncias: «A necessidade não tem lei, quando Portugal se vê abandonado e sem esperança alguma de socorros do aliado por quem se sacrifica.»
Sem querer continuar um diálogo que a poderá prejudicar no futuro, Leonor despede-se com amabilidade esquiva, aceitando a mão dele para subir o estribo da sege, que manda seguir para a Rua da Boa Morte.
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Através das histórias que cada um dos dois generais da Vendeia lhe vai contando, Leonor segue o galope do cavalo branco de Henri Forestier, decora o nome das muitas batalhas em que ele tomou parte, conta cada um dos golpes jubilosos e implacáveis da lâmina do sabre que agora ele deixa ao comprido da colcha sobre a cama, mas que nos seus relatos permanece ajustada à estreita ilharga tépida.
Sobressalta-se, ao imaginar o inimigo emboscado, a atacá-lo, a persegui-lo, a desarmá-lo… Estremece quando imagina as ciladas, os desmesurados perigos enfrentados por ele. E a pouco e pouco Leonor dá por si a prometer-lhes tudo, com arrebatamento: a Vendeia necessita de dinheiro? – Propõe entregar-lhes as suas melhores jóias. A Vendeia tem urgência do apoio da Europa? – Compromete-se a interceder junto da Princesa Carlota Joaquina, do Cardeal Patriarca de Lisboa e do ministro Luís Pinto; mas sobretudo promete e afoita-se a procurar o Príncipe Regente,