As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 33 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

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Já não é a primeira vez que, por moléstia do peito, me desengano a mim própria. Garante-me no entanto o Dr. Tamagnini que este sofrimento tem menos a ver com o meu corpo do que com a minha cabeça, com os meus nervos, com turbações da minha alma; não encontrando remédio para o curar enquanto eu estiver em Chelas.

Dispondo-se mesmo a interceder a meu favor junto das princesas Reais, mais sensíveis e, segundo ele, atentas leitoras dos meus versos. Inquieta-me no entanto saber dessas diligências, pois apesar da sua grande influência como médico da Corte não creio que consiga pôr termo a esta longa prisão política que todos os dias me sufoca e mata um pouco mais.

Temo que tudo isto faça nascer em mim inúteis esperanças… E que me veja obrigada a confrontar-me de seguida com uma nova, devastadora e fatal desilusão, tal como aconteceu anos atrás quando Pombal declarou «haver uma inteira impossibilidade para me mudar de sítio»…

Chelas, 31 de Março de 1773

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Sebastião José Ferreira Barroco aguarda impaciente a chegada de Leonor. A ausência dela tem deixado decepcionados aqueles que vão à grade do convento de Chelas expressamente para a ver e a ouvir.

Olha distraído para Teresa de Mello Breyner que, tal como ele, parece impaciente e nervosa, a fechar e a abrir o leque frágil sobre o regaço do vestido de seda cor de nardo que a faz parecer mais velha. Mas logo afasta os olhos, para os fixar de novo no lugar onde Leonor costuma esperá-lo. E ao julgar vê-la assomar na penumbra do parlatório com o seu donaire de Eurídice, sobressalta-se, coração desordenado no peito, para logo cair em si fulminado pela decepção; pois afinal é Maria quem chega sozinha num passo indeciso, como se lhe faltasse arrimo e arte.

Mesmo assim Sebastião Barroco avança, conseguindo aproximar-se dela antes de Teresa, a perguntar alarmado por Leonor. Ela, com cuidado mas sem meias palavras, dá-lhe a conhecer o estado de letargia da irmã, sublinhando o desânimo e a melancolia em que está mergulhada. E ao vê-lo empalidecer à medida que a ouve, compadece-se e volta atrás, apresenta motivos de esperança: baseando-se no parecer do Dr. Tamagnini, fala-lhe das prováveis melhoras, e por fim acrescenta baixo:

– Se o senhor poeta quiser, posso levar-lhe bilhete ou versos de vossa parte…

Aturdido, Sebastião José Ferreira Barroco tira do bolso da sobrecasaca um papel amarrotado, onde na véspera havia escrito um soneto desesperado, de paixão e saudade.

E enquanto Maria recolhe o poema às escondidas por entre as grades, ele balbucia com a voz embargada:

«Eu amanhã volto! Eu amanhã volto!»

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No dia seguinte Leonor desce ao parlatório, onde ele já a espera, olhar alucinado dos homens fracos. Primeiro abeira-se de onde pode observar o locutório àquela hora vazio, e perturba-se com o contido desatino que ele guarda. Dá três ou cinco passos inseguros e entra envolta em sombras.

Sebastião Barroco estremece ao reconhecê-la naquele vulto indeciso de silhueta delgada. Ergue até ao peito o punho fechado, parecendo desejar conter o coração tumultuado, enquanto se aproxima quase cambaleando.

Frente a ela pára, separados pelas grades.

Sem lhe dizer uma palavra, estende-lhe as mãos impacientes por entre o ferro frio, ao abrigo da luz, e ela entrega-lhe as suas, os longos dedos gelados, pulsos quebradiços que as rendas bordadas do vestido tapam desnudando.

O perfume a nardo do seu corpo chega até ele à mistura com o travo ácido da febre.

Aproxima mais a boca a colher-lhe o hálito.

Logo sentindo o frémito dos seus lábios.

Ambos num longo êxtase desmaiado… E só quando ela recua, o poeta repara como os olhos que Leonor tem, de líquida água-marinha,

se acendem de paixão,

na penumbra cerrada.

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Depressa se sabe na Corte que Leonor de Almeida está doente, tendo quase deixado de frequentar a grade do convento de São Félix. E o doutor Tamagnini, cumprindo o que a si próprio prometera, dirige-se à princesa Maria Francisca Benedita – a filha preferida do Rei –, pedindo-lhe que interceda junto de seu Pai pela invulgar e conhecida poetisa dos outeiros de Chelas, de quem até conhece alguns poemas. Ao que ela acede com entusiasmo. Afinal, sempre foi contra o facto de o marquês de Pombal ter convertido os conventos portugueses em prisões políticas de mulheres.

Quando a princesa o procura, na tentativa de o condoer em relação à filha mais velha do marquês de Alorna, e na defesa da causa da sua protegida lhe roga que dê a ordem necessária para esta poder abandonar o mosteiro, D. José, encontrando alguma razão nos seus argumentos e contidas palavras, e apesar de nada lhe garantir, promete ir pensar naquele inusitado pedido.

No entanto, o Rei sabe não ter nem interesse nem intenção de contrariar a forte oposição de Sebastião José de Carvalho e Melo à libertação de D. Leonor de Almeida, a quem este quer vergar a forte vontade.

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Ao ler a carta que Teresa de Mello Breyner lhe escreve a contar do rebuliço que na véspera encontrara na assembleia da condessa de Lumiares a respeito da possível saída da amiga do convento de Chelas, os olhos de Leonor cintilam. Indiferente ao que Tirse logo em seguida lhe comunica – de a sua liberdade poder depender da condição de ir morar para Almada, na casa que continua a ser de seus pais.

O objectivo será portanto o seu afastamento da Corte.

No mesmo instante Leonor senta-se à pequena mesa do seu quarto e, a esse respeito, responde-lhe:

«Se eu for para Almada crê que na dura necessidade de não estar com minha Mãe outro nenhum sítio pode agradar-me nestes arredores. Eu não sou capaz de aparecer entre as damas delicadas da nossa corte. Seria talvez necessária toda a habilidade que tu tens para me não confundirem com a tua hóspeda nos primeiros dias. Se a liberdade de respirar outros ares basta para restabelecer a minha saúde, sobeja-me uma habitação onde o silêncio e a obscuridão deixe dividir os meus pensamentos entre Deus, a Filosofia e a ternura. Não quero distracções.»

E com um arrepiamento de verdade, confessa o que sente:

«Lisboa é um teatro de horror para uma neta dos Távora.»

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Maria fecha-se no quarto para escrever a Teresa.

Atenta, não vá a irmã alertar-se com a sua ausência e vir à sua procura. E depois de abrir o tinteiro e pegar na pena, apesar de se sentir inundada por uma infinita tristeza, contém os ímpetos da alma e tenta ser apenas objectiva:

«O negócio de Lília já se decidiu e foi a última resposta, que se a doente morresse pouco se perdia. Não perdemos com isso o ânimo, porque quando estas coisas chegam ao último ponto estão perto de se acabar. A pobre sentenciada, a pobre Lília não sabe nada e está persuadida de que se continuam as diligências. Minha Mãe e eu vemos a sua esperança cheias de compaixão e suspiramos por alguém que também se compadeça do nosso estado. A pessoa que nos deu esta notícia é muito pouco sensível e bastantemente destituída de juízo, não faz conceito do que seja o valor dos desgraçados, e vendo-nos sem alteração exterior julgou que assim estava o coração. Com isto não teve receio de o despedaçar com os contos mais melancólicos… Se todos fossem como tu não teria o vale de Chelas ouvido gemer tanto ao desconsolado terno. Escrevi desta parte para esconder mais facilmente de Lília se ela viesse ter comigo.

Maria»

Chelas, 21 de Julho de 1773

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Em vez de sucumbir ante a recusa da sua libertação, Leonor ergue a cabeça com o orgulho e a força que os mais íntimos lhe conhecem, faz um esforço supremo, e apesar de continuar a sentir o peito opresso, assim como as pequenas febres (aliás, até elas começam a escassear…), regressa ao quarto dos livros e às suas leituras de poetas e filósofos, de mapas e relatos de viagens, volta ao estudo de Latim e de Inglês e a reunir com as amigas e com o círculo daquelas a quem chama discípulas.

Torna à grade, tentando mostrar-se radiosa.

Luminosa. Audaciosa.

Cita Voltaire e Rosseau, Diderot e D’Alembert.

Lê alto poemas de Hildegarda de Bingen, de Teresa de Ávila, de Leonor de Aquitânia, de Soror Juana Inés de la Cruz.

Desafia a prioresa, provoca o arcebispo de Lacedemónia.

E apesar da regra do silêncio, canta cantigas improvisas, segundo ela para ver se «de alguma sorte moderava as suas saudades». Ou, no parlatório, canções com letras de Metastásio ensinadas pelas primas que a vão visitar condoídas julgando encontrá-la em lágrimas, mas deparando com o riso e a alegria que não percebem ter no seu fundo um dissonante tom convulso.

Na verdade, sente os nervos em franja.

Disfarça as lágrimas e as olheiras.

Aviva as faces com o carmim trazido por Joana Isabel Forjaz, que regressa ao locutório querendo apertar nas suas as mãos nervosas da amiga, a dizer-lhe em voz baixa incomparáveis e misteriosas palavras de poetisas.

Escreve bilhetes febris a Sebastião José Ferreira Barroco.

Versos tempestuosos, que esconde na arca por baixo dos vestidos de seda e dos coletes de veludo.

Passa sem comer dias seguidos.

Desabrida.

As insónias atormentam-na.

Para a sua sede nenhuma água chega.

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Continuam a desconsolá-la muitas coisas na sua vida já por si desconsoladora, mantendo a prioresa, apesar de maleitosa nos últimos tempos, um embargo para tudo o que traga satisfação e luz aos seus dias.

Mesmo às lições ela põe entraves e restrições à grade.

Não aceitando Leonor, insofrida, mais prepotência do que aquela que já se vê obrigada a suportar, desobedece às regras do convento e às da prelada, sem se prender com bagatelas. E como ela mesma explica:

«[…] vou remando contra a maré, e sou a súbdita mais indócil que sua senhoria tem. Tanto se me dá que diga que há grade, como que não há. Se responde que sim, vou direita para lá, se não, examino se mente, e se acho alguma grade aberta, chimpo-me lá dentro sem mais cumprimentos, de sorte que tem isto feito uma grande espécie neste convento, e a mesma prioresa tem tanto medo das minhas resoluções nesta parte que já não faz outra coisa senão ralhar, e dar-me a chave, na certeza de que ou dê ou não, sempre lá vou.»

Vendo-a cada dia que passa mais audaciosa e independente, a madre superiora, desnorteada e já sem forças para se lhe opor, depois de ter tentado em vão contactar com o marquês de Pombal, descarta o arcebispo de Lacedemónia que já viu titubeante à frente de D. Leonor de Almeida, e procura fazer-se ouvir pelo próprio Cardeal Patriarca, que nem se digna responder-lhe.