As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 125 de 289

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As Luzes de Leonor

Caderno

Tu sabes certamente da magnificência dos presentes que o teu Pai deu à sua nora; e diz-se que não foi só os presentes o que deu… Tanto seria preciso para casar teu irmão?

Sou como sempre a tua amiga fiel

T.

Lisboa, Fevereiro de 1782»

 

†

CADERNO

 

Goethe! Goethe!

Não consegui descobrir nenhum livro seu nas bibliotecas reais, mas Maria Wilhelmine tem um volume da sua poesia e copiou dele alguns versos para me dar.

Pretendo decorá-los um por um.

Para honrá-lo.

Quero captar todos os matizes e cambiantes da sua surpreendente modernidade e declamá-los no salão de Metastásio, onde provarei o génio e a imortalidade de Goethe àqueles que contra ele invejosamente clamam, armam e congeminam.

Viena, 10 de Março de 1782

†

Primeiro inclina-se diante do Papa, com vagares de aparato.

Em seguida flecte o corpo, até ficar de joelhos na laje, defendidos pela saia do vestido verde-lima de seda bordada, faixa de pérolas a marcar-lhe a cintura ainda intacta. Um arranjo simples de tule rosado cobre-lhe a cabeça, deixando-lhe no entanto a descoberto o macio cabelo semeado de brilhantes, canudos longos a afagarem ao de leve a pele macia da longa haste do pescoço.

Com uma espécie de humildade que desconhece em si mesma, desce o olhar que detém no estrado de madeira com incrustações de marfim onde se encontra sentado Pio VI numa majestosa cadeira sob o dossel imperial. Mãos magras e pálidas fechadas nos joelhos cobertos pelas pesadas vestes de brocado dourado, que apenas deixam ver a ponta afilada dos sapatos e as fivelas cravejadas de diamantes, refulgindo à luz vacilante das centenas de velas dos lustres de cristal.

Um grande silêncio toma conta da sala quando Leonor baixa mais a cabeça, o rosto oculto já pela sombra vinda do chão, a sentir-se envolvida por um intenso cheiro a poeira e suor áspero que o odor do incenso e dos círios intensifica, nauseando-a a ponto de a agonia se transformar num vómito a trepar pela sua garganta; espasmo dominado a custo, teimando em manter a respiração suspensa. E é já com pressa desatenta que beija o pé coberto de Sua Santidade, honra extrema que lhe fora concedida e ela aceita, indecisa entre encher-se de orgulho ou sentir-se ridícula naquele gesto de falsa humildade.

Carlos Augusto estende-lhe a mão enluvada de branco, na qual Leonor se apoia para voltar a erguer-se, afogueada e entontecida, caracóis desalinhados sobre a testa alta, saia amarrotada que tenta alisar contrafeita ao saber-se olhada por inúmeros fidalgos e fidalgas vindos de toda a Áustria ao Palácio Imperial de Hofburg.

Mal pode, deixa para trás o marido, embrenhado em animada palestra com o conde de Colloredo e afasta-se na direcção do imenso terraço debruçado sobre a alameda principal do Palácio. Esvaída, encosta-se a uma das colunas da balaustrada, permitindo que o olhar parta voando por entre as árvores do parque a perder de vista, sem se deter nas flores jubilosas nem nos cintilantes jogos de água dos lagos tranquilos, enquanto o vento lhe vai arrefecendo a brasa acesa do rosto.

Mais tarde o Papa, levado por tudo o que lhe haviam contado a seu respeito, em matéria de cultura, brilho de inteligência e argúcia, manda chamá-la. Dizendo-se um melancólico com disposição poética e inclinação unicamente para as cousas do espírito, na verdade está curioso por conhecer pessoalmente a neta dos marqueses de Távora, de quem tanto ouvira falar no Vaticano.

– Espero bem, senhora Condessa, que os vossos versos cantem os lugares da alma e da contemplação, das santidades, da pureza implacável da condição dos anjos – avança ele a certa altura, buscando a sua reacção.

Por um breve instante os olhares de ambos cruzam-se sem apego, doçura ou compaixão.

Provindos de universos desencontrados e controversos.

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