As Luzes de Leonor
Capítulo 1780
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Maria sabe, com aquele conhecimento que lhe proporcionam ultimamente as visões, as intuições e as adivinhações ocultas, ser a última vez que vê Leonor. Demora nela o olhar e as mãos nas suas, retendo-lhe do corpo o odor a nardo ao apertá-la num longo e demorado abraço; a beber-lhe igualmente o perfume a madressilva dos cabelos macios, domados pelas travessas de marfim e os pregos de brilhantes.
Até si chega ainda a essência de gardénia dos pulsos dela.
E reconhecendo a irmã naquele excesso, esboça um triste sorriso já saudoso sob o véu do chapelinho com minúsculas penas alvas a esconder as lágrimas e a face pisada, nódoas negras mal disfarçadas pelo carmim que agora usa. Dói-lhe o golpe fundo aberto perto de uma das orelhas cobertas pelos caracóis sedosos; e se instintivamente leva até ao inchaço os dedos hesitantes, também logo os afasta envergonhada.
Mais do que nunca lamenta não possuir a ousadia da irmã, que jamais permitiria ser maltratada.
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MONÓLOGO DO MARQUÊS DE ALORNA
Neguei-me a tomar conhecimento de que partias hoje,
filha desobediente.
Desafiaste teu Pai, sabendo com habilidade ultrapassar a minha vontade no que diz respeito ao mau casamento em que teimaste, ao levares a Rainha para o teu lado, fazendo com que a vontade Dela fosse a tua ao permitir-te Sua Majestade o que eu te proibira.
Desautorizando-me, expuseste-me ao ridículo. E ao não esperares pela minha assinatura no documento que te permitiria sair de Portugal, humilhaste-me, enfraqueceste-me a honra, empalideceste-me a face.
Não são estes os modos nem as atitudes de uma boa filha. Envergonhaste teu Pai com a ligeireza dos sentimentos fáceis, tendo o teu descaso esmaecido no meu peito o afecto que sentia por ti. Sou eu pois que te esqueço, te afasto e te recuso o sítio do berço na casa da nossa família.
Extirpando-te as raízes.
Serão os versos teu alimento e fuso… Mas de mim,
Leonor,
não terás mais nada, pois até a bênção te recuso.
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Cosido na sombra das árvores que crescem junto ao muro alto da quinta dos condes de Niza, Pina Manique assiste à partida de Leonor de Almeida.
Nunca lhe perdoou a sobranceria que não a deixava vê-lo quando na Corte se cruzavam um com o outro.
Desconfia da sua ousadia e desfaçatez, que a leva a falar de política e a discutir filosofia nas assembleias onde sempre brilha. Quanto a ele, a filha mais velha do marquês de Alorna tem demasiados conhecimentos para uma mulher.
Não gosta de mulheres que fazem versos e tenham cultura.
Sente-se pois satisfeito ao saber que ela vai para fora do país. E o intendente-geral da Polícia, apoiado com firmeza na sua bengala de castão de prata, pensa com desagrado ao vê-la entrar no carro recusando a ajuda do marido: «É insuportavelmente orgulhosa e independente.»