As Luzes de Leonor
Visão de Maria
Quando chega às folhas,
segue-lhes com a mesma atenção demorada as ranhuras, as fissuras, os nervos a descoberto, numa gama infinita de verdes, ora espessos ora translúcidos: verde-lírio, verde-oásis, verde-limão, verde-pimenta, verde-menta, verde-murta, verde-musgo.
Por vezes Maria Wilhelmine pousa as mãos no regaço de seda e semicerra os olhos claros, como se tentasse recordar algum pormenor que lhe tivesse falhado, para logo continuar atenta e calma. Há dias, porém, em que permanece alheada, limitando-se a pintar a um canto os óvulos pálidos como cera; ou somente um pequeno grão de pólen amarelo, como se, trazido pela aragem, viesse tombar no pequeno quadro.
Numa tarde em que chega mais cedo ao atelier da amiga, Leonor sobressalta-se quando descobre, destacando-se na alvura da tela de onde parece brotar naturalmente, uma deslumbrante rosa rugosa: cinco pétalas carmesim, nas suas linhas de longitude e de simetria pentagonal, que já vira assinaladas nos mapas enquanto rosa-dos-ventos. Qualquer delas conhece bem a sua simbologia e o seu significado oculto.
Cálice feminino.
Estrela alada e guia, a conduzir a que verdade secreta?
Escutando o leve roçagar de um vestido atrás de si, Leonor volta-se depressa, o arrepio do medo a apertar-lhe o coração, mas sossega ao encontrar Maria Wilhelmine de Thun a olhá-la da entrada da porta, onde se detém a descobri-la absorta,
prisioneira daquela misteriosa e estranhíssima rosa.
†
VISÃO DE MARIA
Um golpe de luz súbito desperta-a, e logo se lembra: «Sonhei com Soror Violante do Céu!»
O borralho sonolento da lareira acomoda-se no pouco calor da brasa consumida, as velas postas diante das imagens dos anjos esmorecem devagar enquanto o pavio da lamparina de oratório lentamente passeia, crepitando, o seu mínimo luzeiro no cimo do azeite, deslizando em torno da pequena taça de vidro envolta na sua rede de prata.
Assustada, Maria senta-se na cama arrefecida.
Porquê Soror Violante do Céu?
Pouco a pouco vai-se recordando dos versos que ainda há pouco vira a freira escrever sentada na sua cela, diante dos papéis espalhados em cima da modesta mesa de madeira:
Amor, se uma mudança imaginada
É com tal rigor minha homicida,
Que será, se passar de ser temida,
A ser, como temida, averiguada?
Aturdida, Maria tenta através da memória retornar ao instante antes de acordar, cena que sabe ter sido visão e não sonho, menos delírio do que elevação da alma.
Maria arrepia-se num tremor.
Num temor que a imobiliza, a aperceber-se do odor da jasmineira ao fundo do jardim, na altura em que ele se desprende por dentro da madrugada para ir misturar-se com o cheiro da noite e da espuma do mar bem longe dali.
Sussurro de sonâmbula a escapar-lhe dos lábios exangues, enquanto massaja os braços que o marido magoara na véspera ao forçá-la nos lençóis de seda da cama inóspita onde dorme sozinha, a possuí-la com a cupidez, a lascívia e a habitual brutalidade, enquanto ela se queixa o mais baixo possível.
Melopeia tão mínima que ela mesma não ouve.
E julgando-se protegida pela hora adiantada retorna à sua dúvida:
Porquê Soror Violante do Céu?
Certa de saber o resto do poema que a freira escrevera diante de si no século passado, verso após verso, letra após letra, num papel amarelecido:
Se só por ser de mim tão receada,
com dura execução me tira a vida,
Que fará, se chegar a ser sabida?
Que fará se passar de suspeitada?
Sem encontrar resposta para os enigmas e os próprios desacertos, Maria volta a deitar-se tiritando, encolhida e recolhida sobre si mesma.
Olhos secos muito abertos no escuro.
A escutar o frémito de asas invisíveis no ar estagnado do quarto.
†
Depois de ter escrito pela própria mão o texto do convite a enviar aos condes de Colloredo e de Sinzendorf, Carlos Augusto continua a sentir-se inquieto com a cerimónia que se realizará no dia seguinte na Catedral de Santo Estevão, onde Gomes Freire de Andrade será armado Cavaleiro da Ordem de Cristo.
Nada pode correr mal.
Tudo terá de parecer perfeito.
Levanta-se da secretária e de mãos atrás das costas começa a percorrer de um lado ao outro o seu gabinete na chancelaria. Sabe serem muitas as invejas na Corte portuguesa, onde há quem mantenha o olhar atento fixado em si à espera da primeira hesitação, do primeiro erro ou deslize da sua parte. E se a missão de que fora encarregado em Viena começara auspiciosamente, está em crer ter entrado num súbito e difícil impasse que em boa verdade nem está nas suas mãos resolver.
Senta-se de novo diante dos despachos chegados pelo último correio diplomático, tira mais papéis da gaveta e, debruçando-se sobre os documentos, revê todo o processo relativo aos casamentos dos Príncipes portugueses. A certeza de lhe virem a ser imputadas as culpas caso não se concretizem os enlaces dos Infantes Reais está a envenenar-lhe os dias.