As Luzes de Leonor
Diário
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A carta de Sophie de Condorcet
teve o condão de me desassossegar, a despertar o meu lado aventureiro e insubordinado. Espécie de veneno contra o qual eu julgara ter, entretanto, tomado o antídoto certo.
Enganara-me.
O desamor e o desacerto não conseguiram apagar em mim a chama inquieta, a labareda alta.
Embora a esse fogo eu tenha tentado opor um gelo imenso.
Almeirim, Setembro de 1796
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Antes de sair de Lisboa, Leonor tinha ido despedir-se de Catarina à sua casa na Luz. E no aconchego da sala onde ela trabalha, desabafara sobre o sacrifício que para si representava tornar à quinta de Almeirim, agora que se desabituara do silêncio e da solidão dos vales, dos quais a si mesma prometera distância.
Finalmente deixara-se entusiasmar pelas assembleias onde sempre é desejada e faz sucesso, para não falar daquelas que promove na própria casa às quintas-feiras, tal como madame Necker, embora reconhecendo as distâncias entre um salão e outro, a maravilhar-se ainda com o convívio e os debates a que nas suas salas assistira e partilhara com Marmontel, Buffon, Germaine de Staël, Filinto Elísio… Ou, mais fascinante ainda, o salão filosófico de Sophie de Condorcet no Hotel des Monnaies, onde estivera com Théroigne, Olympe de Gouges, e conhecera tantos dos filósofos das Luzes.
Catarina escutara-a numa crescente admiração pela amiga, que habilmente relata o que soubera tirar dessa tão rara aprendizagem da vida. E já com saudades uma da outra abraçaram-se, como se fossem separar-se durante anos. Prometendo então Catarina escrever-lhe todos os dias, e Leonor plantar uma árvore em seu nome: um freixo em honra de Natércia.
Nem uma nem a outra cumpriram. Mas somente quando está prestes a voltar para Lisboa se dá conta das faltas de ambas. Parece-lhe no entanto pior o incumprimento do seu voto, pois dá-lhe a ver quanto anda perdida em si mesma, afastada dos outros: a aridez, o deserto em que se vai tornando a sua vida.
Quando nessa noite recolhe ao quarto, senta-se à escrivaninha de pau-santo, mas em vez de uma carta para Catarina começa a escrever-lhe um longo poema.
Uma epístola.
«Natércia, já te não lembra
Uma amiga solitária
Que vegeta nestas selvas,
Ou luta co’ a sorte vária?
Sabes como passo os dias
Sem te ouvir e sem te ver?
Se as Parcas me não acabam
É que têm mais que fazer.»
Habilidosamente, virando a culpa pelo avesso, numa espécie de lamento comedido.
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A primeira vez que Leonor vai ao beija-mão ao Paço depois do verão passado fora de Lisboa, a Princesa Carlota Joaquina olha-a demoradamente com especial suspeição, jeito torcido na comissura dos lábios delgados.
A seus pés, sentada numa pequena esteira, Eugénia de Meneses, neta do marquês de Marialva, que apoia numa almofada de shantung o braço esquerdo desnudado onde dança uma escrava de ouro, interrompe a modinha triste que cantava e sorri-lhe com delicadeza e clara admiração no fitar ligeiro embora dorido; como quem trava o sentir de uma demorada e aguda dor na escavação do peito, sítio onde se lhe aninha agora um coração amargurado.
Leonor, que muito ouvira falar do amor recolhido de Eugénia por William Beckford, aproxima-se dela mais tarde por curiosidade, tendo como pretexto elogiar-lhe o timbre melodioso da voz. Eugénia de Meneses agradece-lhe, louvando-lhe os versos que a tem ouvido declamar em saraus da Corte e noutros serões ou assembleias lisboetas. Gaba-lhe a ousadia do vestido feito de organza e renda de Valenciennes que nesse dia Leonor usa, de um tom dormente de rubi, descendo liso sem outro enfeite ou volume que o das suas próprias ancas delgadas.
Sobre as pequenas mesas de cerejeira cobertas com toalhinhas de seda da Índia, escudo real bordado a ouro num dos lados, estão pousadas taças de cristal lapidado contendo casquinhas de laranja-da-china, caroços de alcorça e pastilhas feitas pelas freiras de Madre de Deus. Ao lado, em pratinhos de vidro coalhado, encontram-se os biscoitos de gema.
A Princesa do Brasil, que impaciente escuta um bolero que só parece acirrar-lhe a ansiedade e aumentar o calor daquele inesperado verão de S. Martinho, faz um pequeno sinal e os criados apressam-se a servir a limonada e o refresco de groselha, copos altos em grandes salvas de prata lavrada, ao lado dos sorvetes de baunilha e canela ou de chocolate feitos ao despontar da alva e conservados pelos neveiros da Corte.
Os homens provam-nos por mera curiosidade, mas logo se enfastiam com a intensidade do travo, preferindo o vinho do Porto ou o vinho gelado, que bebem enquanto tiram tabaco das caixinhas de louça pintada pousadas nas papeleiras e nos tampos de mármore dos tremós.
Desinteressadas, Leonor e Eugénia afastam-se, saindo a conversar uma com a outra por entre os azereiros do jardim de Malta. Inconscientes do olhar turvo da Princesa Carlota Joaquina, que as segue com os pequenos olhos fuscos mas perspicazes, enquanto a expressão do seu rosto trigueiro de cigana esquiva ganha o desagrado que lhe causa aquela súbita intimidade.
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Ao ver a condessa do Vimieiro, agora abadessa do Convento de Santos, dirigir-se ao parlatório a seguir às vésperas, a marquesa nova de Távora segue-a, deslizando na sombra dos corredores, penumbra quebrada pelas curtas chamas dos pequenos archotes apostos nas colunas de pedra grossa rebocada.
Passo leve, cauteloso, mal tocando as lajes do chão na vontade de copiar a delicadeza daquela que espia, a tentar encontrar motivo que possa mais tarde usar em proveito próprio; e quase agachada no escuro aguarda um longo e prudente momento antes de ir, em gesto comedido, empurrar sem barulho a pesada porta encostada por onde a outra entrara.
Mas logo recua, coração disparado no peito ofegante: na mulher de cabelos semeados de pequeníssimos diamantes que conversa com Teresa de Mello Breyner reconhece Leonor de Almeida, sua sobrinha. Melhor dizendo ou melhor sentindo: a neta preferida de sua sogra a marquesa de Távora que, tantos anos passados depois de ter sido decapitada, ainda a persegue a altas horas da noite pelo imbricamento dos sonhos.
Com muito custo domina o desagrado que a assola, memórias e sentimentos a voltarem de novo desencadeados pelo choque de rever Leonor, que nunca mais a procurara desde que fora falar-lhe a mando da Rainha D. Maria e então a agredira com altivez e desprezo. Tal como já o fizera sua avó Leonor de Távora, mulher de orgulhos cruéis.
Sem piedade.
A raiva e o ressentimento transformam-se na sua boca em amargor de fel. Ela que sem amar o Rei D. José fora sua amante, tolerando-lhe a custo a intimidade, suportando mal o seu corpo doente. E apesar de ter aprendido a satisfazer-lhe as fantasias e desejos, fora abandonada por ele no começo do processo da sua família, e fechada no convento a conselho do marquês de Pombal, que temia o muito que ela conhecia e sabia. Segundo Sebastião José, bem mais do que deveria e ele tolerava.
Na altura calara-se para não morrer. Mas ao longo dos anos Teresa passara a desenvolver o gosto pela vingança pessoal e a saborear o seu travo agridoce. Prazer estonteante e inexcedível de derrubar quem a magoara ou, na impossibilidade ditada pelos muitos anos, todos aqueles que tragam nas veias o sangue de Pombal e dos Távora, cuidando em não se deixar arrastar pelo turbilhão das emoções e dos sentimentos exaltados. Tudo o que vier a fazer terá de ser reflectido, ponderado com o máximo rigor: medido, calculado nos mínimos pormenores.
Teresa de Távora desencosta-se devagar, atenta e alerta como um tigre agachado no escuro. Dedos fincados em torno do rosário de marfim e prata, habitualmente rezado com desatenção. Sente na boca uma secura árida, e a sua expressão é endurecida, crispada. Prudente, torna a aproximar-se da porta entreaberta, empurra-a a alargar a frincha por onde espreita, olhar fixo naquilo que vê: a abadessa sentada e cabisbaixa por trás das grades, mãos entrelaçadas no regaço escuro, enquanto Leonor percorre o parlatório de um lado a outro, à medida que febrilmente vai falando de leituras, de ideais, de posteridade, recitando versos, expondo ideias, desfiando sonhos.
Ávida, a marquesa nova de Távora quer fixar ao pormenor o que está a ser dito, tomar conta das palavras usadas pela sobrinha no seu entusiasmo. Só abandonando a escuta ao aperceber-se do restolhar de freiras que se aproximam sussurrando baixo, terços dependurados das cinturas. Regressa então à sombra onde se dissimula, costas apoiadas na parede. E, a deslizar, contorna a esquina do corredor, que tem ao fundo o claustro onde se refugia, fingindo uma tranquilidade inexistente.
Iludindo a pressa.
A controlar a urgência, a vontade de correr para os seus aposentos situados na outra ala, onde finalmente chega, pálida, mal controlando as pernas trémulas e inseguras.
Mas somente durante a madrugada, à luz das velas, pega na pena que molha na tinta azul-cobalto do tinteiro de prata pousado à sua frente na escrivaninha à qual se senta, a fim de escrever uma longa carta endereçada a Pina Manique e outra à Princesa Carlota Joaquina.
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Durante as assembleias em sua casa não são poucas as vezes em que Leonor se deixa levar pelo entusiasmo ao falar de literatura, sobretudo quando se trata de defender a primazia da poesia em relação às outras artes, ou ao fazer o elogio dos poetas e também dos filósofos.
Discute arduamente com Foschini, sobretudo com Müller, o alemão que há meses a vem desafiando a provar que existe maior riqueza na língua portuguesa que na sua. Repto que acaba por aceitar, retomando a tradução de Oberon, obra de Wieland que ela prefere.
Embora pouco conheça dos poetas que Leonor refere, Bocage escuta-a em silêncio, a entender-lhe o entusiamo que nela, afinal, é quase sempre produto da maior insatisfação. Se tem junto de si a filha mais velha, silenciosa mas atenta a tudo o que está a ser dito, parece no entanto mais contida.
Por vezes afasta-se e vai até à varanda, discretamente a olhar a noite, inclinada na balaustrada de pedra macia onde estão os vasos de faiança a transbordar de miosótis, brincos-de-princesa e de petúnias, a espalharem à sua volta o odor macerado de que tanto gosta. Assim a vai encontrar Bocage:
inquieta e perdida nos seus pensamentos.
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Henriqueta de Alorna não sabe a quem João foi buscar a extremada beleza loura de anjo da guarda. Ela tão morena e Pedro com aqueles olhos de brilho escuro como estrelas das trevas, embora tendo a pele temperada pelo dourado dos Távora.