As Luzes de Leonor
Raízes
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Quando lhe comunicam a sentença proferida na véspera pela Junta de Inconfidência, a marquesa de Távora limita-se a erguer a cabeça em silêncio e a endireitar-se na cadeira diante da mesa de pinho da sua cela no convento das Grilas.
Há quem julgue vê-la empalidecer ao escutar a sua condenação à morte, mas há também quem garanta o contrário. Ao certo, apenas se sabem as suas palavras indiferentes:
«Cumpra-se depressa o que tiver de ser feito.»
Em seguida ela quer conhecer as decisões tomadas sobre seu marido Francisco de Assis e os filhos de ambos. Respondem-lhe somente:
– Iguais na pena de morte.
Ninguém jamais saberá se Leonor de Távora teria chorado na calada dessa noite, assistida apenas pela negrura da madrugada a ameaçar tempestade. No dia seguinte apresenta «a fisionomia severa e tranquila de sempre», testemunham as freiras que com ela convivem. Só os olhos de um intenso azul-violeta, embora secos e brilhantes, parecem abismados.
Mas a marquesa de Távora invoca o direito que lhe assiste de ler a própria sentença, desejo de pronto atendido. Debruçando-se ela sem queixa ou lágrimas ou lamento, sobre as palavras implacáveis que a condenam ao abandono da vida.
«E à Ré D. Leonor de Távora, mulher do Réu Francisco de Assis de Távora, por algumas justas considerações (relevando-a das maiores penas, que por suas culpas merecia) a condenam somente a que com baraço, e pregão seja levada ao mesmo cadafalso, e nele morra morte natural para sempre, sendo-lhe separada a cabeça do corpo; o qual depois será feito pelo fogo em pó, e lançado no mar também na sobredita forma. Condenam outro sim a mesma Ré em confiscação de todos os bens para o Fisco e a Camera Real.
Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, em Junta de 12 de Janeiro de 1759.»
Àqueles que a olham enquanto lê, ela parece indiferente, despida de qualquer sintoma de medo, repetindo no final com acinte a frase por si já pronunciada:
«Cumpra-se depressa o que tiver de ser feito.»
O seu porte é de tal maneira altivo que a todos impressiona grandemente. Poucas são as palavras que a partir desse momento as freiras lhe escutam. E à pergunta da madre superiora, se ela pretende um padre a quem se confessar, a fim de salvar a sua alma, responde apenas:
– O meu confessor é o padre Malagrida. Não tenho outro. E quanto à minha alma, não me parece estar em perigo. Assim os carrascos que me vão matar tenham as deles em igual sossego.
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