As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 230 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Vê o filho sempre como um menino conseguido ora por milagre das velas votivas e das rezas, ora através «de cousa feita» e clandestina, filtro dado por Lilias Fraser que procurara por desespero de mulher estéril. Portanto teme, treme sempre que o olha, só ela a saber-lhe a natureza frágil, vulnerável, quebradiça; embora irrequieto, desenvolto e destemido, com uma esfuziante alegria que a todos conquista.

«Um dia vai ser-me tirado» – tem a certeza. E logo se levanta e dirige para o oratório do quarto onde se refugia rezando, afastada de maus pressentimentos e presságios.

Como Pedro nunca mais a procurasse e ela ardesse de desejo, Henriqueta de Alorna bebe o filtro que resta na garrafa de vidro coalhado, cuidando de misturar as duas últimas gotas no vinho do marido. Como da primeira vez, ao acordar de madrugada dá conta de si descalça, a deslizar voando até ao seu quarto, a empurrar sem ruído a porta entreaberta. E ao aproximar-se da cama vai-se despindo na pressa da entrega: o casaquinho de malha aberta atirado para longe, a camisa de dormir de linho tirada pela cabeça, a camisinha de cambraia rasgada pelos dedos nervosos; a deitar-se nua sobre ele na cama morna do seu sono acordado, a sentir-lhe o corpo magro despido, a pele escaldante, braços musculados a receberem-na e nela a darem o nó do abraço, a desmanchá-la com intensa volúpia, pernas longas a prenderem-na e a erguerem-na, conduzindo-a até ao seu sexo erecto e sôfrego, para a penetrar depressa até ao fundo palpitante da vagina. Enquanto um intenso cheiro de homem, a suor e a pénis, nela se enrodilha e a inebria. Na vertigem orgástica que depois a toma,

Henriqueta de Alorna grita de prazer.

 

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DIÁRIO

Nas inúmeras assembleias que frequento raramente se entende o significado das minhas palavras, quando faço o elogio de Goethe sobre todos os seus contemporâneos, apesar do enorme talento de Schiller.

Ambos de uma devastadora inovação: golpe e asa de ousadia! Depois da passagem deles pela literatura tudo terá de ser diferente e encarado de modo diverso no referente à escrita e particularmente à poesia. Ao significado da arte, ao nosso próprio imaginário.

Ao pensamento dos nossos dias.

Lisboa, 28 de Fevereiro de 1797

†

Leonor da Câmara, pouco a pouco, aproxima-se da tia.

Não presta atenção às primas, excepto a Henriqueta, a única que parece interessá-la com a sua quietude de menina indiferente e calada, distanciada de quem se encontra em redor.

«Como são mal-educadas!» – dá conta, irritada, quando as ouve correr e gritar num turbilhão pelos corredores e escadas da casa da Boa Morte, onde ela passa a ir quase todos os dias em busca dos afectos que lhe faltam, e não só para escutar falar da mãe de quem continua a buscar os modos, as maneiras, os indícios, apesar de ter optado por seguir trilhos bem diferentes dos de Maria.

Altiva, severa e gelada nos seus dezasseis anos senhoris.

No entanto perturba-a olhar Leonor, na cuidadosa e até minuciosa observação da sua face: como se através de uma difícil transparência encontrasse intactos os traços finos de sua mãe. E enquanto no início isso a fazia afastar aturdida, como se visse um fantasma, agora já mais velha fascina-a e atrai-a,

perplexa diante de si mesma.

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O Intendente-Geral da Polícia não consegue demover o Príncipe D. João de assinar o documento que permitirá à condessa de Oeynhausen passar a frequentar a Real Biblioteca Pública da Corte. O destempero com que D. Carlota Joaquina recebera a queixa da sua dama de eleição, pelo facto de Ribeiro dos Santos lhe ter proibido o acesso aos livros e manuscritos de que ela necessita, atordoara o marido, que prefere pagar qualquer preço para a manter longe, não lhe escutar os gritos.

Pina Manique, que não gosta de perder, sai contrariado do Palácio de Queluz, e segue para Lisboa a fim de comunicar o facto ao director da biblioteca, que por sua vez lhe diz das suspeitas sobre os contactos e os poderes de Leonor de Almeida. E embora o Intendente considere que desta vez bastara à condessa a influência que detém há muito sobre as Princesas da Corte, sobretudo no que diz respeito à Princesa do Brasil, vai anotando mentalmente tudo o que Ribeiro dos Santos lhe conta. Prometendo a si mesmo que, persistindo na sua teima de ir atrás de D. Leonor de Almeida, um dia acabará por apanhá-la.

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Ao franquear pela primeira vez a Real Biblioteca Pública da Corte a Leonor de Almeida, António Ribeiro dos Santos cumpre, embora relutante, a ordem assinada pelo punho do próprio Príncipe D. João, mas a pressentir por trás dela a forte influência de sua mulher, D. Carlota Joaquina, com quem francamente antipatiza.

Nos primeiros tempos em que a condessa de Oeynhausen frequenta a Biblioteca Pública, o olhar do seu director sobre ela é de hostilidade; como já o tinha sido quando, impelido pelos amigos entusiasmados, frequentara a grade do convento de Chelas expressamente para a ir escutar, na altura em que era tida por um prodígio de cultura e talento poético.

Ribeiro dos Santos, no entanto, está consciente de quanto a situação é diversa, e à medida que ela volta, longilínea e esguia nos seus vestidos simples tombando lisos e sem alardes, para ficar depois debruçada durante horas, sem levantar os enormes olhos das páginas dos manuscritos ou dos livros, a sua antipatia por ela vai cedendo, declinando, não sabendo já quando teria começado a desejar a sua presença, inquietando-se quando não aparece; e no dia em que Leonor finalmente regressa, perde-se a olhá-la pela porta entreaberta do seu gabinete. Espera vê-la levantar-se, para se aproximar com algum pretexto, acompanhando-a à saida, a transportar-lhe os cadernos e as pastas cheias de papéis até à sege que a espera.

E se por algum motivo, durante as palavras trocadas por ambos, a vê erguer o olhar de sombra para o pousar nele, o coração de António Ribeiro dos Santos sobressalta-se.

†

Leonor é convidada para a Corte cada vez com mais frequência, quer pela Princesa Maria Francisca Benedita, que sempre gostara de a ter junto de si, quer pela Princesa do Brasil que, encantada com a sua grande popularidade nas assembleias lisboetas, passa a chamá-la regularmente para declamar nos saraus do Paço.

É nesse convívio uma com a outra que Leonor se apercebe de como é enganosa e só aparente a futilidade da Princesa Carlota Joaquina, que ilude todos com as suas maneiras estouvadas e volúveis de quem apenas se importa com frioleiras e insignificâncias, quando na realidade ela se mantém a par de cada uma das decisões governamentais, lê todos os decretos antes de serem discutidos e aprovados, exige saber o que acontece em cada despacho e como está a ser conduzido o Reino.

Provoca discussões com D. João, com os secretários de Estado e os embaixadores, participa em resoluções ministeriais, é habilidosa a resolver litígios, exige que a sua opinião seja escutada com a atenção devida. Ao ouvi-la e ao vê-la agir deste modo, Leonor dá-se conta, agradada, da sua inteligência e desmesurada ambição política.

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D. João, pelo contrário, tenta contrariar na mulher tamanha desmesura, que o perturba e atemoriza.

Quer na cama, com uma ardência, uma voracidade que parece não se apaziguar nunca, quer nas caçadas na tapada de Mafra onde ela sempre o vence em tudo: na sanha da perseguição aguerrida, magra e escarranchada na garupa nua do cavalo à desfilada, na pontaria exacta com que derruba o animal perseguido, ou na forma cruel como acaba por o matar à punhalada, acaso ele caia ferido, quer na maneira como se inebria e excede, se diverte e se demora em longas tardes e noites sem jamais se cansar.

Mas o pior é a determinação em dirigir o Reino a seu lado, como se fosse homem ou herdeira do trono de Portugal, se nem ele o fora e sim seu irmão José, o príncipe perfeito entretanto morto. Levando-o a ter de cumprir o que não lhe coubera por nascimento. Para isso o chamaram e ele, diante da ideia de ser rei, deixara-se acometer pelo temor, afundado no desassossego, longe de saber quanto a sua aprendizagem seria breve, a ter de tomar o lugar de sua mãe e Rainha, dada como louca pelos médicos da corte e incapaz de reinar. Afinal D. João nem sabe se ela é mais alienada do que ele, tão moço mas já abatido pela melancolia ansiosa herdada da família, sempre necessitado de repouso e instado a recuar pelas vozes que escuta e dele adivinham até a lividez do assombro, a preguiça do batimento do coração na arcada do peito, na ignorância das Luzes, hesitante e temeroso.

Carlota Joaquina, sem lhe dar descanso, não o deixa em paz, na teima de reinar mesmo sem ser rainha, no gosto de manobrar o uso do poder que a seduz.

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Ainda debilitada pela equívoca doença que a prende em casa, fugindo, apesar da febre e das tonturas, à cama onde a solidão mais aperta, trazendo ao corpo a lembrança de desejos e prazeres que a despertam de madrugada apesar do láudano, Leonor deixa-se ficar com languidez ao longo das tardes recostada nos canapés das salas, a gozar aquela inesperada pausa onde se sente segura.

Embora solitária.

A dar conta da própria nudez perturbadora sob o négligé inútil, sem nenhum olhar que a colha a não ser o seu, deixa passar as horas com descuido, lendo poesia: um poema de Camões escolhido agora, outro de Homero ou Ovídio, e ainda os últimos versos enviados por Filinto Elísio. E deste modo Leonor vai escorregando, delizando numa sonolência boa e demorada, a desvendar em si mesma apetências equívocas e inesperadamente ardentes. A empurrarem-na no caminho de visões que não controla, e das quais desperta sem jamais saber se acorda de um sonho ou do torpor provocado pela beladona ou, durante as insónias, pela água de papoila apanhada durante o crescimento da lua.

Quando se impacienta ergue-se e vai até à janela para afastar um tudo-nada a cortina leve, de modo a que o olhar possa vaguear ao acaso ao longo da alameda que atravessa o jardim, o roseiral crivado de espinhos e de rosas púrpura, a pequena fonte de mármore, o lago mais ao fundo, e acabe por passar até ao outro lado do portão, onde a rua começa a descer por entre as árvores, tendo o Tejo ao fundo.

Por vezes julga distinguir um vulto embuçado a esgueirar-se de junto do jasmineiro que ela mesma plantara já perto do caramanchão dos lilases, depois de chegar de Almeirim, e pensa reconhecer o porte curvado e servil dos sicários de Pina Manique. Mesmo assim fica a tentar imaginar um rosto e um porte para a misteriosa figura masculina que há anos ela julga que a segue.

Deste modo demorado Leonor vai deixando que a sua doença imaginária sare sozinha, sem sequer desejar apressar a cura.

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«Filha da minha alma

e muito menina do meu coração

Minha lindeza e meu feitiço

Mandou-me dizer o seu homem e meu filho, que Vossa Excelência está novamente de esperanças, louvado seja Deus! Que alegrias me estão a dar, nesta altura da minha vida.

Eu sei que há muito já deveria ter escrito a Vossa Excelência, embora o tenha feito a Pedro, o que está longe de ser a mesma coisa, pois as cartas de Vossa Excelência, tão suaves, tão ajuizadas e tão consolativas, exigem da minha parte respostas mais directas e significativas pela impressão que me fazem nas entranhas.

Ouviu minha menina?

Forte rapariga é Vossa Excelência e cães de fila do meu coração são os meus filhos. Mas, como a dilatação neste artigo é arriscado a não ter fim, falemos de outras cousas.

Sua cunhada vai convalescendo fortemente. Estando mesmo já sem fala de doente. Enviei as cartas de Vossa Excelência e os artigos de Pedro para ela, que ficou muito consolada. Disse sobre isso outras tantas coisas do género amoroso, que agora por falta de tempo se não podem referir por extenso.»

Não quero no entanto despedir-me, sem voltar a referir o facto de Vossa Excelência me ir dar outro neto, pois insisto em vos deixar por certo o imenso júbilo do meu coração a esse respeito.

Deito a minha bênção a todos.

O pai que muito ama Vossa Excelência.

João de Alorna

Almada, 10 de Março de 1797

†

Quando, pela primeira vez depois de ter estado doente, Leonor chega à mesa onde costuma sentar-se numa das salas da Real Biblioteca Pública da Corte, encontra no tampo encerado um papel dobrado, como se estivesse à sua espera.

Sem saber o que fazer com ele, hesita: pode afastá-lo para o lado, ou guardá-lo para o entregar a António Ribeiro dos Santos; mas em vez disso pega no papel, desdobra-o, abre-o e lê o que nele está escrito em francês:

«A son Excellence Madame la Contesse

Léonore de Oeynhausen

Portant dans ses regards la langueur si touchante,

Ce fruit de trop longues douleurs,

Léonore ce matin au Palais des neuf soeurs.

Aussitôt chez ses Immortelles

J’ai vu se preparer de jalouses rumeurs

Pour déterminer qui d’entr’elles

De l’aimable visite obtiendrait les honneurs.

Mais le Dieu des savants, des vers, des orateurs

Par l’arrêt qu’on va lire a prévenu l’orage,

Et mantenu la Paix dans le docte ménage.

Éloignez les transports inquiets, et jaloux

Qu’en votre sein je vois éclore,

En apprenant que Léonore

Vient ici rendre hommage à chacune de vous.

Elle est l’honneur des Arts, qu’en tous lieux on admire.

Parmi celles que je choisis

Pour cultiver mes dons, embellir mon Empire

Je la distingue, je l’inspire,

Et, que plus est, je la chéris.

Des vous toutes, mes soeurs, elle a suivi les traces.

Elle possède, avec les Graces

les Attributs divers des talents réunis.

Lx. 16 de 7bre 1797

Par un lecteur de la Bibliothèque Publique.»

Desconcertada, Leonor senta-se com o poema entre os dedos, e erguendo o olhar descobre António Ribeiro dos Santos, que em pé no seu gabinete a fita através dos aros pequenos e redondos do pince-nez, com uma expressão envergonhada no rosto comprido.

†

O povo não está interessado no Príncipe D. João, com as suas feições ingratas, cada dia mais pesado e lento, lábio grosso pendente, o desânimo estampado no olhar castanho e melancólico.

O povo não gosta da Princesa D. Carlota Joaquina, com as suas estranhezas inusitadas, os modos agressivos, língua embrulhada num arremedo de português onde continua a predominar o castelhano.

O povo quer tornar a ver e a aplaudir a Rainha D. Maria, de quem sempre gostara.

Os ministros inquietam-se, mas o Príncipe do Brasil, que continua a assinar os decretos em nome da mãe, desinteressado dos descontentamentos do povo, tece secretamente maiores ambições, arquitecta novos projectos pessoais, a ousar imaginar-se Rei de Portugal.

Por seu lado, a Princesa Real, com o seu jeito agreste e intempestivo, parece não ter medo de cousa alguma e apesar de estar cada vez mais certa das suas ambições políticas, quando se cansa de controlar as entradas e saídas do marido da Sala do Despacho, deixa impaciente as penumbras do Paço.

Procura as claridades cintilantes ora pelos jardins de Queluz na companhia das suas damas espanholas e as anãs que leva por arrasto na cauda da sua comitiva, ora em solitárias e demoradas cavalgadas a perder de vista com o pensamento nas matas de Salvaterra ou na tapada de Mafra, mas tendo que se conformar com os caminhos da Matinha, saltando valados, outeiros e cercas, seguindo por vezes pela margem do ribeiro da Junqueira, para logo se desviar e seguir em frente, evitando atalhos até chegar a clareiras e becos sem saída, rodeados de matos, arbustos e silvas, na ânsia de se demorar o mais possível longe do Palácio, fora do alcance dos remoques do marido e dos silêncios cortados pelos pesadelos da Soberana sua sogra.

Fazendo sempre questão de dizer alto e bom som:

– Sua Majestade está a ficar cada dia mais demente! Embora todos façam questão de fingir ignorar a sua loucura.

Leonor afasta-se desagradada, ao escutá-la fazer um juízo tão impiedoso do estado de D. Maria, perdida na imensa solidão de primeira Rainha portuguesa.

†

O doutor Tamagnini tenta perceber, com o olhar astuto de alguém de muita idade, a reacção dos colegas que examinam a abadessa do convento de Santos, D. Teresa de Mello Breyner, que conhece desde menina.

Com uma resignação fatigada mas lúcida, responde ela a todas as perguntas e questões que os facultativos lhe põem, na tentativa de determinar até que ponto será justa a denúncia feita por algumas freiras e damas daquela casa, a dá-la por demente, tendo como objectivo primeiro afastá-la do cargo de prioresa que desempenha.

Ultrapassa-os ela na agilidade das respostas, cultura superior à deles, indo até mais longe nos temas versados do que estariam à espera depois de terem lido as cartas enviadas; sobretudo as da marquesa nova de Távora à princesa D. Carlota Joaquina, informando-a da loucura da condessa do Vimieiro, e pedindo à Princesa Real que pusesse fim às reformas que ela determinara, desagregando com as suas mudanças a vida interna do convento, segundo afirmava Teresa de Távora com a sua letra miúda traçada de revés, insistindo na presença dos físicos da Corte.

Ao ser-lhe pedida opinião como médico honorário da Real Câmara, o doutor Tamagnini estudara o caso, visitara Teresa que mais uma vez o maravilhou com a sua inteligência e sageza, entendendo ele de imediato os verdadeiros motivos de tão inesperada demanda. História vinda afinal de tão longe, que quase se lhe perde o rasto demorado. Nas entrelinhas da carta reconheceu ele então o veneno da intriga, o gosto do gelado punhal da vingança a querer cravar-se nas costas da amiga da condessa de Oeynhausen e neta predilecta da marquesa de Távora, sua sogra e cunhada.

No entanto, a condessa do Vimieiro parecera-lhe fisicamente fraca, debilitada, não só devido à pesada vida do mosteiro, dos jejuns e das abstinências cumpridas com o rigor de quem deseja dar-se como exemplo, mas também diminuída gravemente por um coração gasto.

Não se admirou Tamagnini quando, depois de apresentar o seu relatório na Corte atestando o perfeito estado de sanidade mental da prioresa, o Príncipe D. João, pressionado pelo Intendente-Geral da Polícia, ordenara que fossem chamados outros físicos da corte para examinarem o caso. Ou não tivesse sido no salão literário da condessa do Vimieiro, que começou por reunir a Nova Arcádia. Não fosse ela a maior amiga de D. Leonor de Almeida, admiradora de Bocage, do abade Correia da Serra e determinante impulsionadora da Academia Real das Ciências que, sem o empenho da Rainha e da Princesa Maria Francisca Benedita, o Intendente há muito já teria mandado fechar.

Mas não recuando diante da influência de Pina Manique, o doutor Tamagnini reivindica o direito de assistir ao exame dos seus colegas, o que lhe é concedido. Chegando mais cedo ao Convento de Santos, encontra a condessa tranquila e descansada. No entanto, à medida que vai sendo interrogada vê-a ficar mais pálida, respiração acelerada e opressa, a mão direita pressionando ao de leve o lado esquerdo do peito onde ela sente cravada uma farpa sob a simplicidade do hábito. Sem que lhe desfaleça a ironia reservada, nem a fineza do espírito.

Ao longo das horas que passam com lentidão, o doutor Tamagnini apercebe-se de como o fim dela parece estar próximo. A morte a vir já ao seu encontro, sem que Teresa, consciente do mal de coração que há muito anda a minar-lhe a saúde, demonstre alguma pena ou receio. Não há remédio ou tratamento que lhe possa salvar a vida e ela sabe disso.

No final, os médicos do Paço chegam à mesma conclusão que ele já tinha sustentado: D. Teresa de Mello Breyner encontra-se na posse perfeita de todas as suas capacidades mentais.

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Henriqueta de Alorna

anda inquieta, angustiada, com a proximidade do nascimento do segundo filho que, afinal, acaba por nascer quase sem nenhuma dor e nenhum esforço, nem dar tempo a que se pusesse o resguardo na cama, trouxessem as almofadas para lhe subirem as ancas, fossem buscar a tesoura de cortar as dores e o cordão da criança, os panos, os jarros, as bacias onde as águas e os sangues se iriam misturar no final com a placenta.

Quando a parteira chega o menino repousa já no lençol ao lado da mãe, como predissera Lilias Fraser, quando ela no fim do tempo de prenhez a voltara a procurar fechada dentro do seu susto. E agora ali está Miguel à sua beira, sem o choro do nascimento mas vivo e saudável, nu e vulnerável, de um louro mais escuro talvez, mas tão belo quanto o irmão, olhos azuis de louça fixos nos seus de mãe apaziguada.

Henriqueta de Alorna

deixa que o menino adormeça mesmo ensanguentado, ainda quente do interior do seu corpo, colado à anca que ela tem suada e tapa tal como ao menino, puxando-o no entanto antes com lentidez de cuidado até ao peito por enquanto sem leite e sem ama, na teima de querer ser ela mesma a amamentar o filho, e por isso brigando com Pedro e o resto da família, tendo apenas o sogro e a cunhada pelo seu lado.

E quando no próprio dia do parto Lilias Fraser vem bater à sua porta, pelo lado do pomar que dá para o pátio nas traseiras da casa, manda-a subir apesar do sobressalto, daquele frio na alma que ela tanto teme não agourar nada de bom para o futuro. Estremecendo, supersticiosa, quando a vê debruçar-se sobre o berço de Miguel, adormecido no meio de cambraias, rendas e laços.

†

De costas viradas para Henriqueta de Alorna, Lilias Fraser debruça-se sobre o sono do recém-nascido como se fosse a sua fada madrinha, vinda para lhe predizer a beleza, as bondades, as qualidades, atribuir-lhe distribuindo: claridades e alegrias, doçuras de lábios incertos, acertos em tons de abelha e anil para lhe colorir destinos e futuros.

Mas mal vê o menino, os seus olhos amarelos toldam-se de névoa, tornam-se baços e cegos, embora continuando a ver pelo lado da sombra. E Lilias cambaleia, aturdida pelas visões de fundação fétida e negra de águas estagnadas de um lago, onde distingue o menino a debater-se, primeiro sufocando no grito dobado pelos dedos que o empurram, e em seguida afogado já pelo lodo do fundo, a boca cheia de terra, de animais mínimos e choro amordaçado pela morte e a acidez da lama.

O coração extinto de todo o seu lume.

Quando finalmente consegue afastar-se do berço, ainda presa de ventos e vertigens, está lívida e sem voz que lhe mova a língua muda; velamento que em si mesma reconhece de quando era menina.

Recusando-se a encarar o pânico do olhar de Henriqueta de Alorna, Lilias não se vira para ela: corre para fora do quarto e cambaleia um pouco antes de começar a descer as escadas, degraus que mal reparam no seu peso esvoaçado ou deslizante, sem amparo de corrimão, até de novo se encontrar no pátio, a olhar em torno na procura das árvores, para nelas se ir resguardar agachada na sua frescura.

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