As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 30 de 289

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As Luzes de Leonor

Raízes

†

 

A marquesa nova espreita da janela a carruagem que pára no pátio à frente da casa e empalidece ao ver Francisco de Assis, seu irmão e sogro, apear-se com brusquidão ágil, espada a descer na ilharga estreita, tendo espelhado no rosto severo uma contida ira, a assustá-la mais do que já está. Vê-o voltar-se para estender a mão aberta, palma lisa para cima, na qual se vão apoiar os dedos afuselados e firmes de Leonor de Távora, sogra e cunhada que sempre detestou.

Na cama atrás de si, deitado nu, está Luís Bernardo que, na pressa da muita saudade pelos anos passados na Índia, correra a tomá-la nos braços mal a armada arribara ao porto de Lisboa. E ela de desvairados modos o acolheu, de tal maneira é bem-vindo ao seu desejo ávido aquele corpo jovem de sobrinho-marido, com o cheiro a homem novo que demoradamente bebe, lambendo-lhe a nuca, o cimo dos ombros, os pelos das axilas e das virilhas, língua a tropeçar de ansiedade naquela pele morena, deixando por onde passa um rasto febril de saliva. Como se quisesse apagar a memória do corpo velho e triste do Rei, com o seu suor fermentado, odor cediço a agoniá-la, náusea à flor da boca quando ele a beija.

Quando se encontra com D. José, por vezes mergulha a cara nos crisântemos colocados a seu pedido na mesa-de-cabeceira para aromatizar o ar pesado e sufocante dos aposentos fechados, que apenas servem para os fortuitos encontros reais. Lembra-se também dos aromas intensos de alfazema e de cânfora, a escaparem do interior penumbroso das gavetas e dos armários por si disfarçadamente entreabertos na tentativa de afastar os cheiros dos suores e do esperma que a fazem vomitar, às escondidas.

Ao ver o irmão levantar os olhos cinzentos e altivos para a janela de onde o vigia, Teresa deixa tombar a cortina de cassa de longa franja dourada, desviando-se com pressa num mau pressentimento. Recua, transida, a procurar abrigo junto ao marido estremunhado que a colhe assim despida e temerosa, a puxa para si a cobri-la com o seu intenso ardor.

«Já devem saber do que se passa entre mim e o Rei» – imagina, receosa. Mais do que a atitude do irmão e sogro, atemoriza-a a reacção da cunhada e sogra, austera e altiva, modos reservados e olhar sagaz sempre a trespassá-la sem dó nem piedade. Apesar de tudo a marquesa nova conserva ainda alguma esperança de que o poder absoluto do Rei D. José a possa salvar da ira da família, informada da sua traição, da sua infidelidade.

Mas traição porquê, se há muito ela tem sido viúva de vivo? – insurge-se Teresa, querendo justificar-se para enfrentar a condenação dos outros. Sem, no entanto, conseguir defender-se perante si mesma.

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