As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 27 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

Modos e maneiras de indisciplinar as pensionistas, as recolhidas, sobretudo as noviças, ou quem sabe se mesmo algumas freiras, pois entre estas todas estão as suas discípulas, como ela lhes chama, sempre a procurar novas ideias de desacato, a moldá-las e a mandar nelas como lhe dá gosto de impaciência.

E a prelada, que jamais lhe conseguiu pôr rédeas, prefere deixá-la pensar ter conseguido algum desafogo para as suas exigências, até chegar a próxima visita do arcebispo de Lacedemónia, a quem continua a queixar-se de D. Leonor de Almeida.

 

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DIÁRIO

 

É habitual ultrapassar as minhas tristezas e desesperos quando toco órgão só para mim no imenso coro da capela, a quebrar o silêncio que a certas horas invade a igreja; a penumbra estagnada por entre as velas, as jarras de flores e as imagens dos santos e das santas dos altares que conheço de cor. Como se em mim, por momentos, não existisse mais nem o cansaço, nem o desespero, nem a desesperança.

Hoje, porém, senti-me febril e exausta, o peito oprimido. E embora o corpo estivesse gelado, as faces ardiam, afogueadas. Como se estivesse a ficar doente.

Inquieta.

Foi então que me pareceu sentir uma presença invisível a inclinar-se sobre o meu ombro direito, enquanto uma mão etérea o aflorava ao de leve. Envergonhada não me voltei, inclinei-me até um pouco mais, os dedos já imobilizados sobre o marfim das teclas do órgão, tubos dourados a treparem na lisa tranquilidade da parede.

Imaginação por certo exacerbada pelo meu estado doentio.

Chelas, 7 de Dezembro de 1772

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Mesmo antes de D. José lhe ter contado o sucedido, já Sebastião de Carvalho e Melo sabia que a Princesa do Brasil fora junto de El-Rei interceder pela libertação das filhas dos marqueses de Alorna.

E, segundo o valido do Monarca,

só existe uma maneira de encarar o acontecido: ao pedir por D. Leonor e D. Maria de Almeida, a Princesa propusera ao Rei seu pai que o desautorizasse enquanto secretário de Estado que mandara recolher a conventos todas as mulheres da família dos marqueses de Távora.

Ou seja, no mesmo passo tentara ultrapassá-lo, derrotá-lo.

Furioso, o marquês de Pombal desvia de D. José o olhar de aço, a remoer rancores antigos contra D. Maria, de quem nunca gostou e que não quer como Rainha, Senhora de Portugal.

Cada vez mais empenhado na execução de um sigiloso plano para a afastar, do qual apenas dá conta a José Seabra da Silva, seu secretário-adjunto. E que culminará com a apresentação da Lei Sálica ao Soberano, convencendo-o habilmente a assiná-la.

Lei essa impeditiva do exercício da realeza por mulheres.

As princesas,

que à falta de filho varão se tornam herdeiras da coroa, e mais tarde rainhas; como acontecerá com D. Maria caso ele nada faça para impedir tal perigo.