As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 243 de 289

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As Luzes de Leonor

Diário

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Eu que nunca fui capaz de ser mediadora entre as tantas distintas partes que desde a nascença me formam, sou chamada a responsabilizar-me pela harmonia dos esposos reais, escutando interdita as impróprias palavras e termos de ambos, desaforos e imprecações por parte de D. João, e pragas gritadas em espanhol, insolências e porcelanas partidas pelo lado da Princesa.

«Um dia ainda o mando envenenar!» – já a ouvi afirmar em surdina, num claro destempero, calcando aos pés raivosos o pequeno leque bordado a lantejoulas que se rompeu num crepitar de sedas a esgarçarem-se. Tal como poderá acontecer às minhas aspirações na Corte, como candidata a dama de honor da Princesa Carlota Joaquina, caso não saiba agir com muito cuidado.

Apesar de tudo prefiro escolher a via sinuosa do risco, a tecer descuidos e a embater em escolhos.

Tomando só para mim segredos e secretismos.

Lisboa, 15 de Junho de 1799

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O caso do amor contrariado da açafata Mariana Vitória de Carvalho e do guarda-roupa Francisco de Sousa continua longe de estar resolvido. Por isso mesmo Leonor passa os seus dias tentando desenredar o problema, indo e vindo entre a Corte e a casa do marquês de Ponte de Lima, com quem a maior parte das vezes não consegue falar por se encontrar de cama, cada dia mais doente.

Antes de se deitar criou o hábito de escrever a D. Carlota Joaquina, a dar-lhe conta dos pequenos avanços conseguidos, apesar de ter utilizado toda a sua argúcia e sagacidade, empenho e arte no tratamento do assunto.

«Então resume-se tudo a uma questão de estratégia?» – indaga Catarina, rindo das astúcias e artimanhas que a amiga tem de usar para chegar à posição tão almejada de dama de honor da Princesa; tendo levado já Leonor pelos meandros do sentimentalismo e da superficialidade, a fazer parte do braço-de-ferro em que são exímios os Príncipes Reais.

A Catarina custa-lhe ver Leonor a desperdiçar os dias, preocupada com bagatelas e frioleiras que não merece.

Atrasando-lhe o voo de poetisa.

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Vê ao longe a condessa de Oeynhausen passeando sozinha, sonhadora debaixo da sombrinha aberta e um pouco tombada sobre um dos ombros, passo demorando-se pela longa alameda de faias da Quinta Real de Caxias para onde a Princesa D. Carlota Joaquina arrastara as suas damas e fidalgas, esperando distrair-se das zangas em que tem andado embrenhada com o Príncipe Real seu marido.

Mariana Vitória de Carvalho, depois de olhar de soslaio por entre as alfarrobeiras a certificar-se de que ninguém a espia, ergue-se do banco de pedra onde está sentada, alisa com as mãos febris o tafetá cor de goivo do vestido, compondo em seguida os cabelos negros entrançados com pequenas açucenas brancas presas por alfinetes de madrepérola, caracóis a emoldurarem-lhe a face de súbito ruborizada. E quando alcança D. Leonor, já esta se encontra debaixo dos laranjais, sombrinha agora inclinada para trás, rosto erguido até ao brilho do sol de todo liberto das névoas da manhã, olhos semicerrados, a tomar o gosto ao odor acidulado e denso que ali parece engrossar o ar encorpado pela doçura amargosa das laranjas.

Julgando-se sozinha, deixa a mão gulosa subir a tactear-lhe os húmidos lábios entreabertos, onde a língua ávida aflora, molhada de saliva. Vendo-a tão distraída com a própria vertigem, Mariana Vitória hesita antes de continuar, mas acaba por ir até ela, arrastando um pouco os pés na gravilha a anunciar a sua presença, dirigindo-se-lhe enquanto ganha coragem para o que tem a pedir.

Sabe do seu orgulho desmesurado, da sua poesia fantasiosa demarcando-a das demais, mas também conhece a sua influência, primeiro junto da Rainha D. Maria e agora da Princesa do Brasil, que sempre a escuta antes de decidir tudo o que seja pessoal ou político.

Acerca-se portanto sem largar a tristeza e a aflição de que anda tomada, mãos estendidas para agarrar as dela, que não tentam fugir das suas.

E depois de a ouvir, Leonor aconselha-a:

– Espero bem que o vosso coração se desprenda da tormenta a que leva a paixão contrariada. A Princesa ordena que tenhais mais paciência até ela resolver o vosso caso, complicado pelos ardis utilizados por vosso pai e vossos astuciosos irmãos. D. Carlota Joaquina teme que, não tendo cautela, a influência deles possa pesar perigosamente na decisão do Príncipe Regente.

– Acato o que a Princesa e Vossa Excelência acharem por bem que eu faça.

Ao ver-lhe os olhos castanhos alagarem-se de lágrimas, enquanto torce os dedos entrelaçados e subidos ao peito, Leonor condói-se da açafata sujeita à aleivosia interesseira do pai e dos irmãos a que o Príncipe Real dá cobertura. Modo mesquinho encontrado por este a fim de mostrar a D. Carlota Joaquina o poder que ela não tem. Nem mesmo quando, indignada, continua a afirmar com destempero de voz:

– Em dama de minha companhia ninguém mexe!

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«Senhora:

Permita-me Vossa Alteza que, beijando-lhe submissamente a mão, eu vá por este modo à sua presença e lhe diga por escrito o que me parece, a respeito dos negócios de que me fez a honra de encarregar. Pois que, desejando mais que tudo a felicidade incomparável de estar aos pés de Vossa Alteza Real, não basta a bondade de Vossa Alteza nem o meu vivo desejo, para esconder-me os inconvenientes de frequentes conferências, que, dando nos olhos da gente curiosa, podem mover reflexões que embarguem o seu próprio serviço, e que, visto as minhas próprias circunstâncias – sem cargo nem obrigação aparente que me defenda – podem produzir grandes prejuízos; assim, minha Senhora, consinta Vossa Alteza Real este meio. E não queime as minhas cartas; elas serão perpetuamente um penhor do amor respeitoso que tenho a Vossa Alteza Real. E se a desgraça vier assaltar-me no centro do mistério em que me envolvo, estas mesmas cartas provarão que Vossa Alteza Real não depositou mal a sua confiança, e que sei e saberei sempre merecer-lha.

Fui logo que Vossa Alteza me mandou a casa do Marquês de Ponte de Lima, porém infelizmente o achei tão molestado que, atendendo às indispensáveis considerações da minha classe e sexo, não pude falar-lhe, porque estava na cama. Não querendo omitir nada que fosse do serviço de Vossa Alteza Real, escrevi-lhe e, em termos que ele havia de perceber muito bem, lhe comuniquei que tinha ordem de falar-lhe e que, apenas ele pudesse vestir-se, me avisasse para eu ir. Todos ou quase todos os dias me vieram novas de que poderia, e finalmente ontem à noite fui lá, porém tinha-lhe repetido a dor com tal violência, que me mandou dizer que a nossa conferência era impraticável no estado em que ele se achava, e isso era o que ele mais sentia.

Estas palavras últimas, que só podem ser relativas a Vossa Alteza Real, atestam o zelo e a exactidão deste honrado velho. Eis aqui me tem Vossa Alteza Real, embargada pelas circunstâncias e sem poder adiantar nada, enquanto dura a moléstia do marquês. Quem sabe, minha Princesa, se aquela organização principia a vacilar e se finalmente esta dor, atacando um homem de setenta e quatro anos, principiará a impossibilitá-lo de ir ao Paço e com isso a multiplicarem-se as dificuldades do nosso negócio, visto não haver quem tenha como o Marquês o valor de dizer ao Príncipe a verdade nua e com ela fortificar o respeito que se deve à pessoa augusta de Vossa Alteza Real?

Nestas tristes circunstâncias, que posso eu só, tão longe da Corte, tão afastada dos negócios e tão pouco conhecida do Príncipe? Vossa Alteza Real há-de convir que nada posso e que os meios que me restam para servi-la são fracos, se a mão poderosa de Vossa Alteza Real não vier fortificá-los e comunicar-lhes a energia que por si mesmos não poderão ter. Se assim como algumas vezes Vossa Alteza Real (honrando-me infinitamente) tem aprovado as minhas opiniões, agora se digna escutar-me, direi que talvez a Providência dirige estas dificuldades, que se opõem ao seu gosto, para indicar a Vossa Alteza Real o meio único de vencer tudo, que está tudo na sua mão e que de um modo grave e digno das virtudes de Vossa Alteza concordaria tudo. Se eu quisesse aproveitar-me dessa circunstância, diria a Vossa Alteza mil coisas justíssimas sobre a minha nomeação para Dona, porém a minha alma pura e animada só do verdadeiro amor do bem põe de parte os seus interesses e não desejo que ninguém medeie entre Vossa Alteza e o Príncipe»…

Neste ponto Leonor interrompe a carta temendo ter ido longe demais na sugestão da sua candidatura para dama de honor da Princesa Carlota Joaquina.

Sente a falta de Teresa, de quem ainda não sarou o desgosto da perda, poço ou falha ou fissura aberta no seu peito de amiga inconsolável. A ela poderia pedir conselho acerca deste tão perigoso como trivial caso de banalidades e frioleiras.

Acaba por pousar a pena junto ao tinteiro à sua frente e vai até à janela, de onde fica a olhar absorta o céu estrelado, esquecida da carta que terá ainda de terminar nessa noite.

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Depois de ler a carta de Leonor de Almeida, a Princesa Carlota Joaquina, no resguardo da sua câmara, fora dos olhares daqueles que sempre tentam interpretar-lhe as expressões do rosto, adivinhar-lhe o pensamento ou os sentimentos calados, pousa-a no regaço de seda e, partindo dela, começa a reorganizar os próximos passos a dar, a reformular planos e estratégias.

Nem por um segundo se ilude sobre o urdido desinteresse da condessa ao tentar com afinco consertar as desavenças entre ela e o Príncipe D. João, mas se a D. Leonor interessa ascender a sua dama de honor, também a si lhe traz vantagem que o seja pois desse modo coloca ao seu dispor a inteligência, a cultura, o brilho da poetisa aplaudida, que alia um forte carácter a uma mente ambiciosa e política, em tudo de acordo com a sua enquanto mulher e Princesa Regente,

que almeja ser muitíssimo mais do que apenas isso.

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Mariana Vitória de Carvalho leva, para ler às escondidas da Princesa Real, as missivas que esta recebe de D. Leonor de Almeida a darem conta dos dificultosos e morosos avanços no caso de amores contrariados que a ela diz respeito.

Pesando os prós e os contras toma o pulso da sua vida tal como ela neste momento se lhe apresenta, e tenta encontrar novas maneiras de tirar partido das cartas que acaba sempre por descobrir onde as esconde D. Carlota Joaquina, poderosa e inesperada protectora, por si desde há muito atentamente vigiada. E só agora se arrepende de não ter sido mais calorosa e humilde com ela, de quem nunca verdadeiramente gostara; nem mesmo depois de ter passado a Princesa Real.

Então disfarça as páginas finas no fundo do decote ou nas mangas dos vestidos e, esquivando-se, dirige-se ao Pavilhão Chinês onde as lê à luz que lhe chega pela nesga das portadas da janela que entreabre cautelosa e fria. Na última das que entretanto chegaram, chama-lhe particularmente a atenção o parágrafo onde a condessa de Oeynhausen escreve num tom que a enfurece, apesar de ela estar a trabalhar a seu favor:

«Tomara eu que Vossa Alteza Real fizesse o seu gosto, tomara conseguir o que lhe agrada, mas desejo mais que tudo que isto se acabe para Vossa Alteza Real e o Príncipe não terem uma cousa em que difiram de opinião, que é certamente o pior dos males. E quando vejo uma Princesa de Portugal, filha de El-Rei de Espanha, ocupada com uma cousa tão pequena, chora-me o coração. Quando vejo Manuel Francisco e João Diogo com força para perturbar a paz do Príncipe, e embrulhar as pessoas mais respeitadas, parece-me feitiçaria e pergunto-me se estarei sonhando. Porém, não é sonho – e vou trabalhando por diante.»

Mariana Vitória faz um esforço grande para não amarfanhar com as mãos suadas a página coberta com uma letra miudinha e certa, como se a condessa quisesse tomar para si, aprisionar cada milímetro do papel; e Mariana volta a ler devagar o que nele se encontra escrito. Cousas de poetisa fidalga e desdenhosa, com o orgulho dos Távora a correr-lhe nas veias.

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Nos seus pesadelos D. Maria julga distinguir Leonor de Távora através das chamas que acredita ateadas em torno da sua solitária cama de Rainha viúva prestes a ser afastada do trono pelo seu último filho vivo. Demasiado exausta para se defender da melancolia profunda que a invade, lhe toma conta dos nervos esfacelados e da sua vida em estilhaços.

Não é loucura o que a mina por dentro, e no entanto há dias em que se entrega ao desespero que a assola num tormento infinito, o choro a misturar-se com o grito, o medo com as preces desconexas, terços a escaparem-lhe dos dedos trémulos, medalhas e escapulários atirados para longe no desespero de quem não sabe nem pode explicar-se no destempero.

– Jesus! Jesus! – ouvem-na gritar aterrada, ao imaginar ver diante de si a marquesa de Távora a ser degolada: sabre a ganhar voo com uma crueldade ávida, a cortar num golpe de luz o seu pescoço alvo, decepando-o do corpo.

Desesperada, a Soberana esbraceja perdida nas visões que o láudano, a beladona e as sangrias aumentam: supondo-se rodeada de chamas que lambem depressa o soalho de madeira coberto pela alcatifa de França, para logo subirem a crepitar na papeleira de alçado, nas sanefas de veludo e nos cortinados lavrados, trepando pelos pés trabalhados da cama até ao dossel franjado e bordado a ouro, indo aflorar os espelhos, os frascos dos perfumes e os lustres de cristal de Veneza, que estalam e se estilhaçam chamejando estrelas, para logo desdobrarem no seu ardor os leques marfinados, enquanto estreitas línguas de fogo se dividem e galgam os biombos lacados, pela madeira dos lambris do quarto e as sobreportas de talha, indo em seguida contaminar as paredes pintadas da Sala do Toucador e o das suas açafatas, para logo ganharem as aguarelas e os retratos a óleo pendurados nas paredes forradas de damasco, que se enchameiam como luzeiros.

Perdida nos seus terrores, D. Maria implora num grito sibilante a quebrar-se na garganta:

– Salvação! Salvação!

Mãos crispadas na dobra dos lençóis e nas mantas que afasta, pés leves de menina a tocarem o chão que lhe foge, joelhos anquilosados, tolhidos pela velhice prematura, cambaleando de susto, rosto de lividez doentia; sem conseguir escutar as vozes reais que à sua volta se cruzam tentando acalmá-la, mãos e ombros a soerguerem-na e a ampararem-na.

Então as pernas cedem à rapidez da vertigem, e ela pára temendo cair, rolar rodopiando antes de mergulhar, a perder-se no deserto por onde erra. Mal se equilibrando nas margens do declive para o qual se julga empurrada, mais e mais a afundar-se já nas trevas, corpo a descer rodopiando, a resvalar na descida, tontura e desmaio a unirem-se num único laço. Nó que a sufoca mas ao mesmo tempo a agarra, para logo a arrastar, atirando-a para o precipício onde fica arfando, esfacelada.

D. Maria geme tomada de convulsões, perdida sem saber como pôr termo ao terror para onde se sente jogada. Cada vez mais distante da luz que ficara para trás, consciente de tudo aquilo que larga; a revolver-se na queda até ser colhida, tomada pelos braços longos e odorosos…

de Leonor de Távora.

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O Príncipe D. João, aproveitando a última recaída da Rainha sua mãe, convoca de novo os médicos da Corte para o fim da manhã, os conselheiros para o início da tarde, e os ministros para o começo da noite.

Mais do que opiniões médicas ou conselhos políticos, aquilo que o Príncipe do Brasil pretende é a anuência geral à outorga a si mesmo do título de Príncipe Regente, o que lhe entregará o Trono que de facto já ocupa há anos. Mas o que D. João sobretudo deseja é que o assentimento de todos lhe tire de cima o peso de consciência por estar a trair o próprio sangue. O que levará D. Maria a atravessar a História de Portugal com a indelével imagem da Soberana louca. Na verdade, uma mulher demasiado exausta, depressiva, e uma mãe demasiado deprimida e permissiva diante do filho que lhe resta, para reclamar das fatalidades às quais não soube fugir: golpes palacianos, fraudes, enganos da vida, tanto mais dolorosos quando partem dos seus.

Sem se queixar de cousa alguma, guarda com ela a pergunta que há muito cala, tentando no entanto encarar o filho; a procurar-lhe os olhos, que logo lhe fogem.

D. Maria aceita a sua substituição, sem nenhum clamor.

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– Quero informar Vossas Excelências, meus ministros, que depois de ter hoje mesmo voltado a consultar os excelentíssimos físicos da Corte sobre o estado de saúde de sua Alteza Real a Rainha D. Maria, minha Senhora, e ao ter-me sido retirada qualquer remota esperança de cura de Sua Majestade, tomei a decisão de, a partir desta data, passar a exercer por direito próprio as funções de Príncipe Regente.

O silêncio que se segue a este anúncio por parte de D. João foi tamanho e fundo no seu lastro imenso que quando a voz do ministro do Reino José Seabra da Silva se fez ouvir, opondo-se à decisão do Príncipe, teve o efeito de um trovão, de um estrondo imenso a sobressaltar todos:

– Vossa Alteza Real vai perdoar-me a ousadia, mas a Regência não poderá ser formalmente decidida e assumida por Vossa Alteza sem antes serem convocadas as Cortes.

Parecendo não acreditar no que acaba de escutar, o Príncipe olha o seu ministro desafiando-o a manter a ousadia, tomada por si como afronta com carácter de traição. E como ele não baixasse os olhos nem apresentasse qualquer sinal de pretender recuar empurrado pela cobardia, D. João, com a voz embargada pela fúria a custo controlada, declara apenas:

– O que eu comuniquei a Vossas Excelências neste Conselho, é para mim ponto assente e oficialmente decidido. – E erguendo-se num repente de raiva mal controlada, abandona sem mais a Sala dos Despachos.

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Sobressaltada, Leonor deixa a carta em cima do cravo de xarão da sua saleta de trabalho. Páginas lidas e relidas num turbilhão de ideias, de alvoroços, de memórias despertas e de sentimentos confusos que não quer deslindar, onde o mistério dos propósitos, as emoções mal contidas e os versos se misturam; papéis com uma escrita apertada, que Filinto Elísio lhe enviara há muito mas só agora lhe chegam às mãos, depois de passarem pelo apertado crivo de Pina Manique.

Entretanto – sabe – já Filinto, triste, desalentado e doente regressara a França, depois de ter vivido na Holanda de onde não lhe dera sinal de vida, encoberto pelas brumas e os vapores, as humidades insalubres dos canais a perder de vista.

Abre o leque de marfim, para de imediato o largar, preferindo escancarar a janela de sacada, que fecha no minuto seguinte sem ter obtido alívio, afogueada e febril. Entontecida no desalinho dos nervos ressentidos por aquela contínua intromissão do Intendente-Geral da Polícia na sua vida.

Inquieta, mergulha no torvelinho dos pensamentos enredados em mil teias; levantando dúvidas sobre dúvidas e inquietações à medida que os minutos passam. No pátio largo e sombreado de magnólias, espera-a há muito a sege para a levar ao beija-mão ao Palácio de Queluz, pela outorga a D. João do título de Príncipe Regente.

O vestido de gala em seda púrpura, cauda curta semeada de pequenas flores selvagens, bordadas a crivo de ouro e pérolas, parece-lhe de súbito por demais festivo para quem como ela sente a alma tão absurdamente em ruínas.

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Quando vê os membros do Conselho de Regência dirigirem-se para a Sala do Trono a fim de participarem na sua primeira reunião, a Princesa Carlota Joaquina, sem pensar duas vezes, toma-lhes a dianteira com o coração sobressaltado pelo entusiasmo. E quando o marido lhe barra a passagem, dizendo-lhe num tom baixo e acautelado, «lembro a Vossa Excelência que se encontra excluída deste Conselho», ela recua como se fosse esbofeteada. O seu rosto moreno ganha um tom acinzentado, que só o cintilar cruel dos grandes olhos escuros iluminam; passo tolhido e o corpo magro retesado e atirado para trás, parecendo ter sido golpeado no peito.

Mais tarde apenas se lembrará de ter pensado: «perdi o coração». Pois deixara de o sentir bater, enquanto um enorme abalo interior a acomete em termos de sismo, fazendo ruir os alicerces, as fundações, as estacas que nela sustentam o equilíbrio da sua maneira de ser, estilhaçando-lhe o entusiasmo e a alegria, derrocando as paredes que nela separam o certo do incerto, o perfeito do errado, o bem do mal, o ressentimento do prazer, o rancor do agrado.

Mas mal cambaleia, logo Carlota Joaquina se endireita, recusando a mão que D. João instintivamente estende a querer ampará-la, a vista ainda toldada por um véu oscilante que tenta ignorar, assim como a ferida que irá ter de cicatrizar sozinha. E novamente senhora de si, certa de ter recuperado a presença de espírito, aguarda apenas um pouco à espera que os passos se tornem firmes de novo, e afasta-se direita, porte de orgulho desmesurado de Princesa Regente que até então imaginara ser, a saia de seda do vestido azul-turquesa bordado a diamantes na cintura estreita soerguido por ambas as mãos crispadas, que só ela sabe estarem húmidas de um suor frio igual ao que sigilosamente assoma à raiz do seu basto cabelo encaracolado.

Interditas e sem entenderem o que se passa, as suas damas de honor e açafatas rodeiam-na relutantes, mas ela enxota-as num gesto desabrido que não controla, e isso enerva-a mais, indo trancar-se sozinha na sua câmara, onde finalmente a raiva se solta num repente convulso, levando-a a estilhaçar tudo o que à sua beira encontra de perecível até nada mais à sua volta continuar inteiro.

Como acontece com o interior penumbroso de si própria.

Até que, presa de um paroxismo de fúria, tomba desmaiada no meio do quarto destroçado: colchão esventrado, dossel meio arrancado, lençóis rasgados e a colcha de cetim feita em tiras, como se a pantera negra do Paço de Queluz tivesse escapado da jaula no jardim e encontrado refúgio na alcova da Princesa Real, finalmente exausta e aquietada, enquanto as suas unhas tornadas garras voltam a recolher-se no seu oval irregular.

Leonor de Almeida, que a pedido da Princesa D. Maria Francisca Benedita entra nos aposentos onde há muito se fechara D. Carlota Joaquina, dirige-se ao quarto que lhe parece ter sido assolado por uma tempestade devastadora; e ao aproximar-se da cama onde a Princesa se encontra desfalecida, repara que a saia azul do seu vestido rasgado se encontra ensopada do sangue que corre devagar por entre as suas pernas afastadas.

Hemorragia de um surdo vermelho cintilante de rubi.

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Quando volta a si Carlota Joaquina tranquiliza-se ao aperceber-se estar a sós com a condessa de Oeynhausen. Reconhecida por ela a ter composto, limpo dos sangues e ajudado a despertar sem recorrer às camareiras e às açafatas.

Leonor, embora aliviada por vê-la desperta e calma, reclinada nos poucos almofadões incólumes, preocupa-se com a hemorragia ainda não estancada, o olhar mortiço e a tez esvaída muito pálida.

Em redor delas reina a desordem provocada pela fúria destruidora da Princesa: cadeiras e mesas tombadas, tampos e gavetas partidas, porcelanas despedaçadas, espelhos e cristais estilhaçados, cacos das jarras quebradas junto das flores afogadas na água que, tendo sido de lhes matar a sede, agora as inquinam.

Sem força para nada, a Princesa Real desvia o pensamento do próprio caos, e os olhos da desolação que a rodeia, indo em busca do rosto de Leonor de Almeida que, de pé junto do leito desfeito e manchado, evita fitá-la. Carlota Joaquina toma-lhe uma das mãos, murmurando em tom velado:

– Fico grata a Vossa Excelência pela discrição.

E como Leonor se mantivesse imóvel em silêncio, continua mais baixo ainda, mas já determinada e até com uma ponta de brusquidão na rouquidez da voz:

– Conto com a senhora Condessa para manter encoberto o que de modo algum poderá andar pelas bocas do mundo.

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A condessa de Lumiares, Maria do Resgate, no seu vestido de tule branco mais parece uma rola, tez mate e cabelo muito negro aos caracóis, olhos enormes azul-lavanda, sombreados por pestanas escuras, espessas e longas.

Sem uma ponta de inveja, a Princesa Real admira-lhe a muita beleza. Leonor vê como se olham com confiança, enquanto conversam as três, cientes da atenção umas das outras. Maria do Resgate sempre pronta a escutar as queixas e as razões de D. Carlota Joaquina, a tornar-se sua cúmplice levada pelo apego que lhe tem desde a chegada a Portugal, vinda menina da corte de Espanha.

Leonor repara com simpatia na amizade das duas e lembra-se de Teresa, de novo a sentir o punhal da falta que esta lhe faz. E ao notar a determinação e a rebeldia existente no olhar da Princesa do Brasil, entende que ela nunca se curvará nem se limitará a aceitar a tradicional e ordeira posição secundária de mulher do Príncipe Regente da Coroa portuguesa,

e não pode deixar de admirá-la pela determinação e ousadia.

– Se julgam que me submetem estão enganados. Eu sou uma grande Princesa da Corte de Espanha e a futura Rainha de Portugal! – afirma ela com voz forte e resoluta.

O grupo que se encontra junto de uma das portas da Sala da Música do Palácio de Queluz, formado pelo novo marquês de Angeja, o duque de Lafões, o conde de Ega e o ministro Luís Pinto de Sousa Coutinho, volta-se a fitarem-nas de raspão, sem no entanto disfarçarem o incómodo estampado nos rostos.

Só Leonor dá conta da silhueta sombria que, num deslizar de embuçado, se mistura com o escuro dos desvãos do Paço. Vulto no qual reconhece Pina Manique que, dissimulado, as estivera a escutar. E ela sabe que ele nunca se esquece nem das expressões, nem das palavras, nem das afirmações daqueles que espia.

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Perplexa com os rumores que circulam no Paço, Carlota Joaquina manda chamar Leonor de Almeida que acorre à sua presença, andar ágil apesar das saias tufadas do vestido muito leve cor de beringela a esvoaçar ao mesmo tempo que vai enredar-lhe os passos apressados. Mal a vê chegar, a Princesa Regente, puxando-a por um braço, arrasta-a atrás de si, levando-a até uma salinha acanhada perdida nos fundos do Palácio de Queluz.

Ambiente vulgar a esvair-se na penumbra raiada aqui e ali por uma escassa claridade que a gelosia corrida de uma pequena janela deixa passar. Depois de ter trancado a porta, a Princesa Real senta-se para logo tornar a levantar-se e ir reabrir a porta, a olhar com desconfiança o corredor vazio que ambas acabaram de atravessar quase voando.

– Estou a ser vigiada pelo Intendente-Geral da Polícia Pina Manique e pelos seus «espiões», assim como as minhas damas. Vossa Excelência por certo também o estará – alerta-a, tentando disfarçar a inquietação.

Leonor sorri, ao responder-lhe com ironia:

– Pina Manique segue-me desde que regressei de França há nove anos. Vossa Alteza não deve estar preocupada neste particular, pois mandar-me vigiar é para ele uma questão de rotina.

Mas a Princesa mantém-se apreensiva, a espreitar continuamente por entre as frestas da gelosia, enquanto vai conversando com Leonor numa linguagem sem floreados que esta relatará mais tarde no seu diário.

A entrevista não deve demorar muito, por isso o diálogo entre elas é rápido e conciso, com as arestas necessárias para Leonor aguçar os seus argumentos, a exacerbar com habilidade a ambição política da Princesa, colocando espinhos afiados onde sabe estarem as rosas do orgulho e farpas directas onde as palavras envenenadas enfurecem e exaltam a altivez e o amor-próprio.

À medida que os minutos correm, distinguem-se melhor uma à outra, assim como à pequena sala estiolada, tentando iludir os olhares perspicazes de Pina Manique e dos seus acólitos, assim como os de D. João, o Príncipe Regente, e os dos seus camareiros e espiões.

Leonor sabe ter chegado o tempo de firmar as ligações decisivas, de recordar os liames já existentes, de dar os laços necessários, de maneira a cativar e a tornar-se imprescindível, cúmplice da Princesa Real.

Então, há também que emaranhar o fio da astúcia e enredar os nós, entrelaçar as trepadeiras dos nervos acirrados, enlear as intrigas e indispor as partes necessárias.

Ou seja, saber dar as cartas do jogo político.