As Luzes de Leonor
Caderno
Foi no entanto ali que, adolescente, ela escreveu o primeiro soneto, do qual Margarida lembra ainda alguns versos de uma sensibilidade e melancolia inolvidáveis:
Deitei-me sobre a fresca relva um dia,
E dando a um sono leve alguns instantes
C’os prazeres sonhei, que lá distantes
Debuxava a estragada fantasia.
Desde que Leonor passa a ser insistentemente visitada e procurada na grade por poetas, fidalgos que a adulam e lhe fazem a corte, ou descaradamente é requestada por persistentes D. Juans, Margarida Telles sente-se trocada e largada ao abandono. Mas só deixa de competir pela relação com a amiga quando Joana Isabel Forjaz, com os seus versos ardentes, beleza e brilho literário, se intromete entre ambas.
Será porém Teresa de Mello Breyner, de uma severidade sombria, encobertamente possessiva e assustadoramente sôfrega da atenção e dos favores de Leonor, quem a irá derrotar em breve.
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CADERNO
Leio Rousseau e Voltaire, ou Pope, Locke, Leibnitz… Todos eles me levam a questionar a autoridade do poder despótico, que violenta e humilha, apouca a alma humana, e à sua volta tudo contamina.
«Em o governo despótico todo o sistema de educação se dirige ao temor e à vileza. Almas abjectas, até quando sofrereis que o receio de desagradar a um só homem diminua a energia dos vossos sentimentos?»
Digo o que me parece certo, mas tendo dezanove anos, haverá por certo quem, com mais experiência, se exprima com maior sabedoria e expressões de lustro.
Chelas, 25 de Novembro de 1769
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Teresa de Mello Breyner parte para Estremoz, contrariada por ter de acompanhar o marido e se apartar de Chelas, onde Leonor parece ficar inconsolável pelo afastamento da amiga com quem compartilha o aceso gosto pelo estudo e a leitura, e a quem confessa os seus afectos e princípios. Embora depressa tenha começado a entender como ambas diferem em tudo o que a ousadia comande.
Sentindo-se Leonor cada vez mais atraída pela filosofia das Luzes, Teresa, a quem muitas dessas ideias assustam, tenta ensombrar-lhe o pensamento, pois sabe-se incapaz de chegar mais longe do que já fora ao deixar antever em si a mulher culta e assim arrostar com maledicências e desconfianças da família e da Corte. Pois enquanto Leonor, destemida e ambiciosa, embora em clausura conventual vigiada, não desiste de superar os limites, Teresa, severa e conservadora, critica-a pela lonjura a que chegara, e com isso por ela se amedronta.
Mas a amizade consegue ser sempre mais forte; por isso, inconsoláveis quando se despedem, prometem pensar uma na outra e juram escrever-se, muito embora com as cautelas necessárias. Desse modo a tentarem mitigar as saudades que adivinham duras e implacáveis, em cada carta iludindo os dias longos, até de novo se encontrarem.
Como a vida, porém, sempre gosta de pôr à prova quem pensa estar certo de sentimentos e fidelidades, mal Teresa parte, a poetisa Joana Isabel Forjaz começa a frequentar cada vez mais o parlatório.
Consigo trazendo o alvoroço.
A imprudência do desacato.
O destemor da linguagem.
O atrevimento dos seus versos imprudentes.
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Joana Isabel Forjaz esforça-se por não comparecer todos os dias à grade do convento de Chelas, contrariando-se na grande vontade que tem de ver e de falar com Leonor de Almeida.
Fascinadas uma com a outra, naquele trato de amigas que num instante se tornam íntimas e inseparáveis. Trocando já versos e confissões, visitando tanto agruras como júbilos, a deixarem-se ir ora até às fundações das tragédias ora rindo com as comédias do dia-a-dia, ambas na vontade de chegar perto de audácias inexplicáveis ou então de somente lhes adivinhar os vestígios. Divertidas com frioleiras de mulheres jovens, estouvamentos naturais de uma idade que já ultrapassaram. A alegria a suavizar-lhes os semblantes, que no locutório sombrio e gélido têm tendência a parecerem tristes.
Costumam, sobretudo, falar de livros.
E delas próprias.
A demorarem-se na confissão dos anseios, dos sonhos e dos voos, das perturbações e dúvidas escondidas de quem lhes está perto, a acharem-se parecidas, imagem uma da outra sobrepondo-se, reflectidas no mesmo espelho onde Narciso se mira julgando olhar-se na superfície de um lago.
Como fazem os poetas?
Identificadas na tendência para excessos e ardências, apesar de Leonor tentar invocar o peso da razão, arrastando consigo Joana Isabel, encantada, embora até então sempre tenha preferido os êxtases, arroubos e arrebatamentos.
Sem saber o que pretendem uma da outra, olham-se com perplexidade, atentas a qualquer desarmonia que possa embaciar a superfície, descendo em seguida a contaminar os alicerces da relação das duas; e por isso medem o alcance das palavras, e a friagem que possam guardar dentro de si.