As Luzes de Leonor

Maria Teresa Horta · Capítulo 45 de 289

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As Luzes de Leonor

Capítulo 1777

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Saem do convento de Chelas já depois da meia-noite, arrastando consigo o lastro dos dezoito anos ali passados. Recordação que cada uma das três gostaria de poder apagar do pensamento e do corpo, de deixar para trás como se fosse um fardo alijado.

À saída da porta que a prioresa D. Teresa Perpétua da Cruz mandou a irmã porteira destrancar e abrir, duas voltas da chave grande rolando na fechadura, som áspero, ríspido, a repercutir no espaço alto de pedra da entrada em lajedo e azulejos por onde tinham chegado, ela com oito anos, passinho apertado de desgosto e de medo,

Leonor detém-se aturdida.

O vento agreste do inverno trepa pelas suas saias a desmanchar-lhe os cabelos, empurrando-a para trás como se quisesse impedi-la de regressar ao mundo onde sempre deveria ter estado.

À sua volta há apenas o escuro cortado pelos relâmpagos e pelas chamas inconstantes das velas, com as quais, da beira do portal, as freiras tentam alumiar o negrume, e pelo luzeiro do archote que o cocheiro empunha, lutando com o temporal e as poucas malas onde elas no alvoroço da pressa haviam guardado já nem sabem o quê. Mais tarde mandarão buscar o resto que é delas e que cuidaram de pôr em pacotes e em caixas, nas arcas e nos baús. Os livros empilhara-os Leonor em caixotes de madeira, tampa pregada com pregos fortes, pretendendo resguardá-los das quedas, das chuvas, dos extravios, da perda. Não querendo separar-se dos cadernos, dos diários e dos poemas, leva-os com ela num saco colocado a seus pés no chão da carruagem, durante o trajecto para Lisboa.

À medida que segue pelos caminhos enlameados, sem dar conta dos pais a conversarem um com o outro, Leonor vai sentindo o estupor mudar-se em alegria intensa, a incredulidade a ceder à evidência; Maria, tal como ela em silêncio, não pára de tremer a seu lado.

Qando chegam à casa da Boa Morte, porém, relutam em abandonar o abrigo da carruagem, atordoadas e pálidas, como se temessem ir ao encontro de uma existência sem grades, nem cercas, nem portões intransponíveis. E Leonor dá-se conta que tem de aprender a lidar com o seu novo destino; só isso a fará perder aquela sensação de medo, provocada por todo o imenso espaço de liberdade

que numa reviravolta súbita a vida lhe propõe.

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Na primeira noite dormem na mesma cama, lençóis tirados do armário a cheirarem a mofo, depois de terem andado pela casa, elas a tentarem recordá-la e os pais a matarem saudades, mas na verdade as três a sentirem-na mais lúgubre do que as celas que ao longo dos anos tinham acabado por decorar a seu gosto.

Sem hábito de dormirem juntas demoram a despir-se, transidas de frio no quarto gelado, a adivinharem a insónia que as manterá acordadas durante muito tempo, a trocarem silêncios logo cortados por risos nervosos, a confessarem sonhos, a porem dúvidas e temores, mas também a fazerem planos, sem saberem por onde começar a alinhavar a nova vida.

Maria, consciente de ter perdido Francisco Manuel do Nascimento. Leonor, sem saber ainda como continuar a controlar a própria vida, ciente das dificuldades do relacionamento com o pai que, mesmo prisioneiro no Forte da Junqueira, tentara controlá-la.

E apesar de exaustas, adormecem apenas quando a luz difusa da alvorada começa a irromper por entre a frincha dos empoeirados cortinados mal corridos.

Divididas entre a alegria desmedida e a angústia desmesurada.

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No dia seguinte, ao fim da manhã, Teresa de Mello Breyner desce da carruagem, elegante no seu vestido cor de canela, e com o coração desgarrado bate à porta dos marqueses de Alorna.

Com a voz embargada pergunta por Leonor, que logo aparece já chamando por ela enquanto desce as escadas a correr. E quando Teresa, indecisa, se encaminha para a entrada da sala, ela surge ofegante e pára,

as duas imóveis a olharem-se em silêncio, esquecidas ou temerosas do abraço que pela primeira vez podem dar sem entraves nem grades nem testemunhas ou espias do arcebispo de Lacedemónia.

É Leonor quem se move primeiro a atirar-se para os braços da amiga, a estreitá-la ao peito e a sentir o corpo magro de Teresa estremecer de encontro ao seu. Depois afastam-se, ainda presas pelas mãos que não querem desenlaçar-se para voltarem aos braços uma da outra.

– Quantos anos querida, quantos anos a sonharmos com isto, com esta ternura, este afecto, este afago, esta brandura – murmura Leonor olhando para Teresa, que enxuga as lágrimas que tem como pérolas translúcidas.

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Nas primeiras semanas ficam em casa, entretanto arranjada o melhor possível por alguns dos criados antigos que quiseram voltar, onde recebem os parentes e aqueles que continuam a dizer-se seus amigos, como é o caso do conde de Arcos, do marquês de Marialva, dos condes de S. Miguel e de Val de Reis, dos marqueses de Penalva.

Maria, tentando não dar nas vistas, aproxima-se do portão fronteiro ao jardim de curtas áleas teimando em distinguir o vulto de Francisco Manuel do Nascimento, que imagina poder rondar por perto. Enquanto Leonor se esforça por colocar alguma ordem no pensamento e no coração tumultuados, ainda estonteada pelas emoções. Encontrara estantes nas arrecadações e mandara-as colocar numa divisão junto daquele que agora é o seu quarto, começando já a desempacotar os livros e a alinhá-los nas prateleiras.

Teresa volta todas as tardes para vê-la, demorando-se a conversar até às ave-marias, a querer conhecê-la mais de perto, afastada das suas discípulas, dos outeiros e dos poetas. E tendo Leonor acabado por se zangar com Joana Isabel Forjaz, não há nenhuma outra amiga capaz de pôr em perigo o seu lugar de única.

Mas mal o olhar de Leonor se evade torna a sentir-se insegura.

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A Rainha D. Maria, por especial deferência para com o marquês de Alorna, pai de D. Leonor de Almeida que ela muito acarinha, convoca-o para uma audiência no Palácio de Queluz.

Os dezoito anos de prisão na Junqueira fizeram de D. João um homem envelhecido de semblante fechado, olhar desabrido e sem brandura, desabituado e avesso aos jogos da Corte. Aqueles que se lembram dele amável, fidalgo delicado e galante, olham-no de longe incrédulos, reconhecendo-o a custo; outros, receosos da sua reacção, fingem ignorá-lo e alguns, comprometidos por o terem esquecido a apodrecer numa cela infecta acusado de um crime do qual agora se acredita estar inocente, descem os olhos ao chão.

Atravessa o Palácio de Queluz, que não conhece, acompanhado pelo visconde de Vila Nova de Cerveira o qual, depois de ele se ter feito anunciar, fora ao seu encontro para o conduzir até à Sala do Trono, onde D. Maria o recebe à espera de uma audiência difícil com uma das vítimas da tirania de Pombal e também do Rei seu Pai.

Contrafeita, dá-lhe a mão a beijar, esforçando-se por não o fitar a direito, mas quando ele forrado de orgulho se endireita à sua frente, estremece diante da pasmosa mudança que lhe encontra: do fidalgo gentil e garboso de que se recorda não sobra nada.

Esforçando-se por não expressar os sentimentos que a dominam, apressa-se a comunicar-lhe que será de imediato aberto um processo para averiguar da culpa ou da inocência dos prisioneiros políticos libertados por sua ordem.

D. João conhece os deveres de um súbdito em relação à sua Rainha. É pois de modo respeitoso que se lhe dirige, congratulando-se com a abertura do processo. Afinal, quando depois da morte do Rei D. José as prisões se abriram, fora um dos prisioneiros que não quisera sair da Junqueira sem ter sido declarada a sua inocência.

– Vossa Alteza compreenderá o desejo de que me seja devolvida a honra da qual fui tão injustamente espoliado.

A Rainha, pretendendo ser rigorosa e proba, confirma entender a sua situação e informa-o de que, até o processo estar concluído, terá de ficar afastado da Corte.

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Ao chegar a casa vindo de Queluz, D. João sobe directamente para os aposentos da mulher, onde ela se recolhe todas as tardes em busca de um descanso que a faça recuperar as forças perdidas.

– Partimos o mais breve possível para Almeirim – limita-se a dizer, sem lhe dar explicações do acontecido durante a audiência com a Rainha, olhos como sempre afastados da sua beleza fanada.

D. Leonor de Lorena compreende e aceita

tudo o que dele lhe chega de melancolia. E sem uma palavra afaga-lhe devagar a mão envelhecida pousada a seu lado na colcha da cama.

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Há semanas que Francisco Manuel do Nascimento ronda a casa do marquês de Alorna a tentar ver e falar com Maria, mas apenas se apercebe das entradas e saídas de D. João na sua carruagem, sempre de cortinas corridas. Outras vezes entrevê vultos femininos por trás dos vidros das janelas da casa solitária, sem conseguir distinguir de qual das irmãs se trata.

Dá-se conta também das inúmeras visitas que Teresa de Mello Breyner faz, por certo a Leonor, e um dia, não se contendo mais, aborda-a ao vê-la sair da sua sege do lado de fora do portão com o brasão dos Alornas.

– Quanta coincidência encontrar por aqui o grande poeta Filinto Elísio! – exclama ela, irónica. E diante do seu pedido para entregar um bilhete a Maria, recusa desabrida, anunciando-lhe com satisfação a partida desta e de Leonor para Almeirim.

Diante da ideia do novo afastamento de Dafne, ainda para mais longe, Francisco Manuel do Nascimento ganha coragem e, no dia seguinte, mal vê sair D. João, sobe precipitadamente a álea que leva até à porta principal da mansão, à qual bate com firmeza. Faz-se anunciar a D. Leonor de Lorena, a quem quer pedir autorização para falar com a filha mais nova. Mas ela recusa-se a recebê-lo.

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Chega ao fim mais um dia de primavera, cumprindo o tracejado de um vento tépido a lembrar como o verão está perto apesar do sol ainda manso coado pelas nuvens e dobado pelo fio do novelo entorpecido dos riachos, dos caminhos das pedras, das urtigas e das rosas selvagens, das magnólias e dos arbustos da Quinta dos Nabais onde agora Leonor passa os dias.

Descuidada, cheiro a amoras e a erva nas palmas húmidas das mãos, aproxima-se do cravo ao qual se senta, escutando no peito a melodia das palavras usadas nos versos acabados de escrever. Feliz e ao mesmo tempo ensimesmada e livre no seu sonho, permitindo-se voar no próprio pensamento até Paris, de onde chegam as Luzes humanistas do conhecimento com as quais pretende construir a sua vida. Imaginando-se na pele de uma Madame de Châtelet, insubmissa e sábia nos braços de Voltaire.

Consciente da inutilidade que tem sido a sua existência, deixa-se levar pela revolta muda, e nem tocar Scarlatti lhe apazigua o desencanto. No desejo intenso de cumprir com determinação um futuro diverso, como prometera a si própria ainda no convento de Chelas, nem que para isso tenha de esquecer os sentimentos e as paixões, escolhendo premeditadamente a vida que a leve a aceder aos ditames da mudança e do conhecimento por ela há muito reclamados.

A poesia é o único desvario a que se permite.

Como poderia então saber quanto para si o destino tem guardado, se aquilo que os pais parecem esperar dela é somente o aceite de um conveniente casamento arranjado, assente na sua obediência e humildade?

Sobressalta-se Leonor, que a si mesma jurara nunca aceitar a agulha em vez da pena, bordar a cercadura da vida em vez de escrever poemas. Dedicar-se a brilhar na Corte em vez de estudar e aprender.

A entender e a querer um novo mundo.

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Leonor passa o verão no Palácio Real de Almeirim a convite da Rainha, que faz questão de ver reunidos os melhores pintores, músicos e escritores portugueses nos salões da Corte,

onde durante as longas tardes de estio, as infantas, as princesas e as fidalgas mais jovens, reclinadas em almofadas de damasco e renda de Bruxelas, se divertem a dar motes aos poetas, copiando as freiras de Chelas.

Junto de D. Maria, que a quer por perto, Leonor brilha com a sua beleza, o seu talento, cultura e audácia: aceitando o desafio dos motes, recitando versos escritos por si durante aqueles dias de voluptuoso lazer e – para escândalo da Corte – a intrometer-se nas discussões políticas travadas entre homens, a contrapor a modernidade das suas ideias aos argumentos velhos defendidos pela maioria dos fidalgos presentes. Sustentando ela posições raramente escutadas em bocas femininas.

Levada pelo entusiasmo, cita Sócrates, Aristóteles, Epicuro, e também Newton, Hobbes, Descartes e o seu Discours de la Méthode. Mas, sobretudo, defende ardentemente a filosofia de Voltaire, de Rousseau e D’Alembert, que a maioria dos fidalgos ou desconhece ou teme e odeia.

Esgrimindo ideias e argumentos, a seu lado fica sempre o jovem D. José, discípulo de eleição de Frei Manuel do Cenáculo. Comunga o Príncipe do Brasil das posições de Leonor, partilhando as mesmas leituras e o sonho de desejarem um Portugal culto, aberto à modernidade. Se por acaso a discussão se torna mais acesa, D. Maria Francisca Benedita larga o piano e junta-se a eles a fim de os apoiar nos princípios avançados, olhos ardentes a roçarem os lábios do futuro rei, seu sobrinho-marido.

Como se de súbito caíssem em si próprios, os opositores calam-se atemorizados por se terem atrevido, no calor da discussão, a discordar dos Príncipes do Brasil. E o silêncio que se faz na sala é cortado pelas gargalhadas roucas das anãs pretas favoritas de D. Maria e pelo som nervoso dos guizos dos trajes dos bobos às cambalhotas.

Depois de pedir licença à Princesa D. Francisca Benedita e a D. José, Leonor afasta-se devagar, faces enrubescidas pelo entusiasmo, parecendo muito jovem no seu fato de cereja carmim, olhar melancólico entornado de violeta.

Num canto discreto da sala, de paredes forradas a cetim amarelo-torrado, braço nu – onde rolam sete escravas de ouro – apoiado ao tampo de mármore de um tremó dourado, olha-a atenta e curiosa a marquesa de Tancos, delgada como uma açucena no seu vestido branco.

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Soberana de um Portugal que jamais fora governado por Rainha, sinto-me na obrigação difícil de mostrar severidade e pulso firme nas decisões tomadas, exigindo a mim mesma atenção a tudo o que se passa não só à minha roda mas em todo o país.

Aparentando a maior lucidez e serenidade,

quando na verdade continuo a suportar mal o imenso peso que sobrecarrega os meus ombros pouco habituados a fardos, coração apertado no poço do peito.

Aflição reprimida e recalcada a custo nas noites passadas em branco que me deixam atordoada, olhos enevoados como se tudo o que observo fosse reflexo num espelho biselado: apresentação da vida pelo seu próprio avesso e queda num inevitável abismo. Imagens pouco coloridas a desenrolarem-se lentas e de contornos apagados, quase sempre desfocadas e cobertas por uma névoa translúcida.

Verão diferente este dos demais descuidados estios passados no Palácio de Almeirim!

Sem bailes de voo, sem piqueniques de estouvamento ou representações de teatro, a respeitar o luto em que me encontro seis meses passados sobre a morte de meu querido Pai e Senhor Rei. Fazendo eu questão, apesar de tudo, de manter os serenins, os concertos, as serenatas, os recitais de poesia, a tentar iludir, quem sabe, a realidade atemorizadora que todos os dias me espera.

A desejar descobrir a força da fraqueza disfarçada, recusando a tentação de ceder à atitude mais fácil para conseguir pôr termo ao que em Portugal me desgosta e lembra um passado recente, querendo apagar o rasto despótico de Sebastião José, que tudo fez para me impedir de ser Rainha e a quem retirei as rédeas do reino. Quereria apagar da memória portuguesa a política exercida como crueldade, as perseguições implacáveis, os crimes contra a Igreja, a perfídia e as intrigas, a injustiça, as prisões sem julgamento e a insídia, o derramamento de sangues.

Olho em busca de D. Leonor de Almeida e acabo por descobri-la, mãos unidas pousadas no peitoril do terraço, expressão sonhadora, olhar perdendo-se ao longo da sebe de faias ou no roseiral em frente, num emaranhado de rosas púrpura e de espinhos de onde sobe uma fragrância intensa. Reparo como o seu cabelo, solto pela aragem pesada do final da tarde rutilante, ondeia levemente em torno do perfil delicado.

O crepúsculo, que se demora nos maciços de cravos encarnados, parece tingir-lhe de carmim o cetim do fato decotado cor de alfazema-clara, num contraste perfeito com o meu vestido de gala preto em seda de Florença, gola bordada com pequenos diamantes em torno do pescoço, a inundar-me de suores nos salões escaldantes, apesar de as janelas de friso se manterem escancaradas a partir da hora em que amaina o calor e assim permanecerem noite dentro, a deixar passar a aragem que faz crepitar as velas acesas dos lustres.